'Fui escolhido pra Cristo'

Lupi explica por que seu cargo de assessor não durou o carnaval

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2012 | 03h06

Foram duas conversas decisivas, separadas por 33 anos. Na primeira, em dezembro de 1979, um jornaleiro de pouco mais de 20 anos foi recrutado por um líder político recém-chegado do exílio para a política partidária. Na segunda, em fevereiro de 2012, um veterano ex-ministro acertou com um jovem prefeito sua exoneração do cargo de assessoria para o qual fora nomeado na véspera. Entre esses dois episódios desenvolveu-se a vida política de Carlos Lupi, o ex-vendedor de jornais levado para a militância por Leonel Brizola e que, poucos meses após perder o comando do Ministério do Trabalho, em 2011, tornou-se assessor relâmpago de Eduardo Paes. Nomeado no Diário Oficial da véspera do Carnaval, não emplacou a quarta-feira de Cinzas: sua demissão foi anunciada no domingo, no sambódromo, pelo próprio prefeito.

"Como vocês da imprensa me escolheram para Cristo, telefonei para o Eduardo e disse: 'Isso vai virar uma pancadaria em ano eleitoral'", conta. O convite acontecera um mês antes, na Gávea Pequena, residência do prefeito. A remuneração do assessor especial é de R$ 8,5 mil, que se somaria aos vencimentos de funcionário concursado da prefeitura, recebidos por Lupi desde os anos 80.

A queda foi rápida e até pequena para quem perdera, após quatro anos e nove meses de gestão, o Ministério do Trabalho. Durante o primeiro semestre de 2011, Lupi foi bombardeado por denúncias de irregularidades em convênios do ministério com ONGs. "Qualificamos mais de 1 milhão de jovens. Mas boa notícia não sai no jornal."

A chegada de Lupi ao Ministério do Trabalho foi atribulada. Com a vitória de Lula, os pedetistas entraram no governo, com Miro Teixeira nas Comunicações, arranjo que não agradou a Brizola. Quando Miro saiu, o PDT ficou sem cargo no primeiro escalão até o fim do primeiro período do presidente eleito pelo PT. Brizola morreu em 2004. Lupi, o primeiro vice-presidente, assumiu o posto, no início provisoriamente, depois eleito. Em março de 2007, depois da reeleição, pegou a pasta do Trabalho, uma vitória da paciência.

Saber esperar era uma característica do pai político de Lupi. Cassado no início da ditadura, Brizola viveu 15 anos no exílio. De volta, ainda morando no Hotel Everest, em Ipanema, caminhou até uma banca na Praça Nossa Senhora da Paz e perguntou a Lupi: "Tu tens a Zero Hora aí?" O jornaleiro respondeu: "Governador, não tenho, mas arranjo". O trabalhista inquiriu: "Tu me conheces?" E Lupi: "Só não conhece o senhor quem não conhece a história do Brasil". Brizola pediu que deixasse o jornal no hotel. "Quando cheguei, o porteiro disse que Brizola me mandara subir. Fiquei por quatro horas. Foi o monólogo democrático mais longo da minha vida. Saí com 200 fichas de filiação do PTB."

"Brizola me disse: 'Lupiiiii, olha, tu vai nos porteiros de edifício, procura as empregadas domésticas. Diga: Brizola voltou com o PTB do velho Getúlio. Muita gente vai se fichar.'" De fato, 45 dias depois, Lupi voltava com as fichas preenchidas. "Fui um dos 110 fundadores do partido", diz. Mas o PTB passou para Ivete Vargas, vista pela ditadura como mais confiável. O jeito foi fundar o PDT.

Lupi virou um faz-tudo de Brizola. Depois da eleição do chefe para o governo estadual, em 1982, coordenou as Regiões Administrativas nas gestões dos prefeitos Jamil Haddad, Marcello Alencar e Saturnino Braga. Após a eleição de 1988, tornou-se assessor especial de Marcello, cargo do qual se afastou em 1990, quando eleito deputado federal. Em 1994 tentou a reeleição para a Câmara, sem sucesso. Mas no PDT, durante muito tempo, foi visto como uma cria de Brizola - apenas.

"Lupi dava a impressão de ser um fiel escudeiro, que não ambicionava muito", diz Saturnino, que deixou o PDT no fim dos anos 80. Foi Brizola que, em 98, na negociação da coligação com o PT e o PSB, impôs a Saturnino, na disputa pelo Senado, que ele assinasse um documento se obrigando a dividir parte do mandato com o primeiro suplente, Lupi. Saturnino venceu, mas não dividiu a cadeira, o que gerou processo na Justiça. "A aliança tinha se rompido", justifica o ex-senador.

O próprio Lupi analisa de forma curiosa a confiança que ganhara de Brizola. "Uns o abandonaram, outros morreram, outros cansaram. Não por qualidade, mas por falta de opção, Brizola ficou comigo", diz.

Depois da morte do chefe, Lupi assumiu o comando do PDT, que hoje apoia o governo Dilma, mas sustenta o governador tucano-aecista Antonio Anastasia em Minas e já discute com Alckmin a entrada em São Paulo. "Até a eleição de 94 havia mais ideologia. Depois as questões regionais pesaram", argumenta Lupi, em defesa do ecletismo.

Um parlamentar que pede anonimato reclama que, nos Estados, a legenda foi descaracterizada: em muitos, afirma, Lupi nomeou comissões provisórias comandadas por políticos locais que fazem o que querem e, em troca, o apoiam. Lupi reconhece que o PDT tem comissões provisórias nomeadas pela Executiva Nacional em 17 dos 27 Estados, mas garante que, de março a junho, 11 serão substituídas por diretórios eleitos.

Em suas contas, como os Estados têm representação proporcional no Diretório Nacional, que elege o presidente do partido, o fato de indicar as comissões estaduais não influi nas suas sucessivas eleições desde 2004. Ele atribui os ataques a disputas internas. E marca o que considera a diferença crucial com seu mentor. "Brizola brigava e botava para fora. Expulsou Lerner, Garotinho, Dante de Oliveira, Cesar Maia, Marcello Alencar. Dizia: primeiro expulsa, depois abre o processo. Eu não, eu vou convivendo..."

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