Fundador do Cinema Novo, Ruy Guerra é biografado aos 86 anos

Fundador do Cinema Novo, Ruy Guerra é biografado aos 86 anos

Brasileiro de origem moçambicana filmou livros de Gabriel García Márquez, Antonio Callado e Chico Buarque

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2017 | 16h00

Ruy Guerra nasceu em Moçambique, estudou na França e veio parar no Brasil. Estreou de cara com um notável filme de escândalo, Os Cafajestes (1962), e depois emendou com uma obra-prima do Cinema Novo, Os Fuzis (1963). Casou-se com Leila Diniz, Claudia Ohana e outras mulheres fantásticas. Teve duas filhas e um filho, viveu entre três continentes e foi amigo de Gabriel García Márquez, de quem adaptou várias obras para o cinema. Foi parceiro de Chico Buarque. Escreveu poemas, crônicas, letras de música e roteiros. Dirigiu cinema, teatro, shows musicais e foi ator. Como biografar homem de tantas facetas e tão grande energia vital? É o desafio encarado pela historiadora Vavy Pacheco Borges em seu Ruy Guerra – Paixão Escancarada (Boitempo). 

O cerco ao “leão”, como a biógrafa chama o biografado, não foi fácil. Exigiu astúcia e paciência. Vavy mandou a Ruy um projeto de biografia e passou oito meses à espera de uma resposta. Compreendeu que ele a estava testando. Por fim, Ruy a convidou para uma conversa tête-à-tête. E os dois se entenderam. Depois, descobriu que Ruy dissera a uma amiga comum que aceitara a proposta “porque ela não desistiu nem pressionou demais”. 

Esse balé intersubjetivo é bastante comum no encontro entre duas pessoas, uma das quais vai entregar a vida para a segunda escrever. Entre outras coisas, Ruy Guerra é um homem da palavra e sabe que a objetividade absoluta não é possível. Mas também percebeu que estava diante de uma pesquisadora séria e nela confiou – a ponto de lhe entregar um arquivo pessoal com fotos, cartas, bilhetes, passaportes antigos, enfim, uma papelada infindável e não classificada. Um caos, diria o leigo, mas mina de ouro para a historiadora. 

Depois de anos de pesquisa, conversas, entrevistas, viagens, leitura e muito trabalho, Vavy tinha de colocar no papel, ou no computador, a sua versão (porque disso se trata) da vida de Ruy Guerra. Optou por uma estrutura interessante, que privilegia os diversos polos geográficos onde esse homem viveu e, neles, construiu as diferentes etapas de sua vida, pessoal, artística e política. 

Assim, o Livro 1 do estudo biográfico divide-se em quatro partes, África, Europa, América e um capítulo em forma de pergunta: Onde é o meu lugar? 

Esse capítulo em estado de busca segue o perfil do homem inquieto que nasce na antiga Lourenço Marques (hoje Maputo), capital de Moçambique, então parte do império colonial português. Ruy veio ao mundo em 22 de agosto de 1931. E, como se lê no livro, em traços rápidos, “deixou Moçambique para aprender a filmar, voltou na primeira vez porque sabia filmar e, em 2011, para ser festejado como um dos fundadores do cinema nacional”. 

Nesse looping, arco de uma vida no espaço de uma frase, revela-se o traço de identificação do homem do mundo com sua província de origem. Ruy sai para estudar no IDHEC (Institut des Hautes Études Cinématographiques) em Paris, aporta no Brasil em 1958 atrás de uma mulher (a modelo Vera Barreto Leite) e ajuda a fundar o Cinema Novo, sendo, entre seus integrantes, aquele com melhor preparo técnico e teórico. Com o processo de descolonização e a tomada do poder pela Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) volta, após uma ausência de 25 anos, para ajudar o governo de Samora Machel no âmbito do audiovisual. Convive com Jean Rouch e Jean-Luc Godard, nomes de peso internacional que também lá estavam para dar uma mão ao governo revolucionário, e dirige o primeiro filme de ficção moçambicano, Mueda - Memória e Massacre (1978-1979). 

A infância e a primeira juventude são reconstituídas pela biógrafa. As amizades, os afetos, a mãe, Clara Guerra, e a “mãe preta”, Rosa. Filho de uma família portuguesa, vivendo na cidade compartimentada entre negros e brancos, tem cedo a consciência despertada para a absurda injustiça colonial. A revolta juvenil lhe vale uma ficha na Pide, a famigerada polícia política de Salazar, o que lhe causaria transtornos em suas viagens no futuro. Não é nenhum absurdo pensar que nessa percepção social precoce estaria a matriz para o pensamento político de Ruy Guerra e seu forte sentimento anticolonialista. 

Depois de longa temporada parisiense, Ruy desembarca no Brasil. Um amigo, Virgílio de Lemos, radicado na França, define: “Ele se bandeou para o Brasil atrás de uma mulher e para fazer um filme, ficou por lá até hoje, mudando de filme e de mulher.” Quando ele desce no Santos Dumont estamos em 1958, ano da bossa nova, da 1.ª Copa do Mundo, de Maria Ester Bueno e Eder Jofre, do governo de Juscelino Kubitschek, da construção de Brasília. Um país cheio de vitalidade e contrastes, encantador. Era difícil não gostar do Brasil naquele tempo. E Ruy, aos 27 anos, deixou-se seduzir pelo Rio de Janeiro e seus óbvios encantos.

Enturmou-se com o pessoal do Cinema Novo, mas essa aproximação não foi um passeio, como nota a biógrafa. Há uma foto famosa do “Estado Maior do Cinema Novo”, feita pelo fotógrafo David Drew Zingg. Numa mesa do Zeppelin, vemos Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Walter Lima Júnior, Zelito Viana, Luiz Carlos Barreto, Glauber Rocha e Leon Hirszman. Entre eles, Ruy Guerra. Nelson Pereira, sempre generoso, e Cacá Diegues, eram seus aliados. Mas Ruy era visto como um estranho por outros. Em determinada ocasião Glauber Rocha protestou que “esse estrangeiro queria se meter com o folclore brasileiro”. 

Um dia, Nelson Pereira apresentou Ruy a Jece Valadão no Bar Amarelinho, na Cinelândia. Jece produziu e Ruy e seu amigo Miguel Torres começaram a criar o roteiro de Os Cafajestes. Norma Bengell entrou para o elenco e o resto é História, com aquele famoso e longuíssimo plano sequência na praia de Cabo Frio, o primeiro e polêmico nu frontal do cinema brasileiro. Escândalos e ciúmes à parte, forçoso era reconhecer que o longa era muitíssimo bem filmado e colocava o cinema brasileiro em outro patamar de excelência. Ao vir para o Brasil, Ruy trouxera na bagagem a técnica aprendida no IDHEC e a formação cultural adquirida em Paris. E isso batia na tela. 

O livro fala das peripécias dos outros filmes, a começar por Os Fuzis, sua obra-prima no entendimento da crítica e também seu longa mais premiado – ganhou um Urso de Prata no Festival de Berlim com esse impressionante panorama do mapa da fome no sertão brasileiro. 

Com dois cartões de visita como Os Cafajestes e Os Fuzis, Ruy Guerra teria assegurada uma carreira tranquila para o resto da vida. Mas o Brasil é o Brasil e Ruy, em várias oportunidades, teve de sair do País em busca de trabalho. Andou por Cuba, Paris, Lisboa, África. Tornou-se o cineasta com maior número de adaptações da obra de Gabriel García Márquez e, na época, o nosso diretor mais internacional. 

O livro aborda novas dificuldades quando volta a trabalhar no Brasil. A adaptação de Quarup, o grande romance de Antonio Callado, é marcada por brigas com o produtor, que exigiu cortes que desfiguraram o projeto original. A epopeia de filmagem no Xingu está descrita em algumas das mais vibrantes páginas do livro. 

O fato é que Ruy Guerra, mesmo diante das dificuldades, nunca se aquietou. Durante a chamada “Retomada” do cinema brasileiro, embora já septuagenário, filmou como garoto uma versão de Estorvo, o romance de estreia de seu amigo Chico Buarque. Encaixou mais um diálogo artístico com a obra de García Márquez – O Veneno da Madrugada. E, mais recentemente, botou na tela Quase Memória, o romance autobiográfico de Carlos Heitor Cony. O leão não descansa. 

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