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'Funny Weather', de Olivia Laing, reflete sobre o papel da arte durante períodos de crise

Crítica britânica reúne textos sobre artistas e oferece um vislumbre do que a arte pode fazer em tempos conturbados

John Glassie*, The Washington Post

23 de maio de 2020 | 16h00

Há mais de um ano, quando as coisas estavam apenas ruins, a crítica britânica Olivia Laing escreveu o prefácio de Funny Weather, sua nova coleção de textos de não ficção, e a pergunta que ela fez, “a arte pode fazer alguma coisa, especialmente durante períodos de crise?”, agora assumiu uma urgência maior.

Este livro não tem por fim dar uma ampla resposta à essa questão. Trata-se de uma reunião de resenhas feitas por Laing. São perfis e ensaios de artistas publicados originalmente em vários jornais, revistas, catálogos de exposições e outros. Mas a partir dessas resenhas é apropriado afirmar que ela acredita que a arte pode contribuir um pouco. Entre outras coisas, ela escreve que a arte “molda nossos horizontes éticos; a arte nos abre para a vida interior de outros” - e defende a tentativa da parte dos artistas para deixarem sua marca na consciência coletiva.

Livros anteriores de Laing são híbridos inteligentes de memórias, biografias e história cultural. Em sua primeira obra, To the River, ela caminha pelo Ouse, rio em que Virginia Woolf se afogou – fundindo a história da escritora com uma meditação ampla sobre a paisagem. Em The Trip to Echo Spring ela abordou a história de alcoolismo da sua família junto com a de vários escritores conhecidos pela sua embriaguez; e em The Lonely City, tratou da sua própria solidão enquanto examinava o isolamento na vida de artistas. Mesmo Crudo, romance que escreveu durante o verão de 2017, segue essas linhas. Por isso, em resposta a fatos alarmantes ocorridos (a tragédia da Grenfell Tower, a violência em Charlottesville, os tuítes de Donald Trump sobre bombardear a Coreia do Norte), Laing viu-se canalizando a persona da falecida escritor Kathy Archer para narrar sua história.

Muitos dos artigos neste livro se ajustam mais habilmente em uma categoria ou outra e em geral a separação é bem recebida. Uma dezena deles serve como pequenas biografias maravilhosas de figuras criativas – escritores e artistas visuais principalmente, como também cineastas, atores e outros.

O trabalho escrito de Laing é inteligente e a maneira como escreve é generosa com o assunto e o leitor. As pinturas de Agnes Martin “não são feitas para serem lidas, mas para responderem a alguma coisa, são gatilhos enigmáticos de uma ressurgência de emoção pura”. O trabalho da romancista Hilary Mantel  “é sombriamente cômico: seu tema dominante é o da opressão dos fracos pelos fortes, a claustrofobia com que a circunstância circunda uma pessoa”. E sobre o artista Robert Rauschenberg:  “Nada estava abaixo do seu olhar”.

Em um ensaio, ela escreveu que sua amiga, a pintora Chantal Joffe, “permite que as pessoas sendo pintadas sejam senhoras de si mesmas, sejam adoráveis, idiossincráticas, inteligentes, mortais, os olhos abertos, envolvidos numa fantasia ou olhando o passado com audácia”. E esta é também uma boa descrição do enfoque de Laing. Ela vê outra similaridade entre eles. “Nós usamos a representação como uma maneira de nos aprofundarmos em alguma coisa”.

Antes de se voltar para a literatura e escrever sobre artes, ela era uma ativista ambiental ("Éramos sujos, cheirando a fumaça de madeira queimada, dormíamos em casas em árvores e nos lavávamos em baldes”, ela recorda em um ensaio. “Desejávamos proteger o mundo, especificamente as florestas, e assim colocávamos nosso corpo no lugar das máquinas”). Mas posteriormente ela passou a se interessar mais pela arte que “está preocupada com resistência e restauração”, e ficaria profundamente interessada em saber como os artistas interagem com o mundo; como eles escolhem, ou precisam, viver suas vidas, como lidam com as circunstâncias sociais e políticas desde que nasceram; como o seu trabalho faz perguntas sobre o que é importante e o que pretensamente é importante.

Deparamos com isto em toda esta coleção, mas especialmente nos retratos de pessoas como o do artista David Wojnarowicz, polímata criativo que pintou, filmou, fotografou, escreveu e se pronunciou durante a crise da aids e até sua morte, por complicações decorrentes da doença em 1992, aos 37 anos de idade. “Wojnarowicz foi impelido a documentar o não documentado, registrar e testemunhar cenas com as quais muitas pessoas nunca depararam”, escreveu Laing, acrescentando mais tarde que: “sua luta não perdeu nada da sua relevância”.

O título desta obra vem do nome da coluna que ela assinou durante quatro anos, a partir de 2015, para a revista contemporânea Frieze. Ela escolheu esse nome, Funny Weather, “porque tinha a percepção de que o clima político, já errático, era o único que se tornaria mais bizarro”. Ela estava certa. Nas suas colunas, o fluxo tóxico dos acontecimentos presentes é filtrado por pensamentos e insights sobre filmes, exposições e produções que ela viu.

Esses artigos mais pessoais, mais poéticos, com certeza convencerão os leitores de que o trabalho criativo que ela busca destacar, produto de mentes abertas e tolerantes, está do lado certo. Naturalmente chegar às pessoas do outro lado é um desafio que nem a obra de arte, nem o argumento racional conseguem sempre atingir. Mas Laing tem fé no papel que a arte pode desempenhar.

“A questão era o que sucederia agora, como conviver com a perda e a raiva, como não ser destruído por forças manifestamente destrutivas”, ela escreveu em uma coluna em 2017. Recentemente ela assistiu a Planes, performance de Richard Porter que, no palco, revisita uma tragédia pessoal que ocorreu ao mesmo tempo que uma pública. “A impressão era de que a sala se ampliava à medida que ele falava até que nos vimos todos sentados num espaço enorme, uma catedral potencial em que o futuro até então não estava delineado”.

*John Glassie é o autor de autor de A Man of Misconceptions: The Life of an Eccentric in an Age of Change.

Tradução de Terezinha Martino

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