The New York Times
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Galeria faz exposição só com artistas negros

'Shattered Glass', na Galeria Deitch, em Los Angeles, tem visitantes indo à mostra mais de uma vez

Robin Pogrebin, The New York Times

13 de maio de 2021 | 05h00

LOS ANGELES – As pessoas têm voltado de novo e de novo. Elas trazem familiares e amigos. Não é todo dia que uma exposição em uma galeria provoca reações tão fortes. Mas essa parece ser diferente porque todos os rostos em cada pintura pertencem a uma pessoa negra. Todas as obras de arte foram criadas por uma pessoa negra. E a exposição foi organizada por dois jovens negros. Este é o primeiro grande trabalho de curadoria da dupla.

“Tive a sensação de uma reunião familiar calorosa em um dia no parque”, disse Alysia Cortez, descrevendo a primeira de suas três visitas à exposição, Shattered Glass, na Galeria Jeffrey Deitch, em Hollywood. “É mágico ver pessoas negras olharem para as paredes e se verem. Eu vi um casal que veio com seus pit bulls, vi senhoras que vieram para ver o que estava acontecendo e vi muitas crianças.”

A exposição, que vai até 22 de maio, foi montada no ano passado, quando seus curadores Melahn Frierson, que foi contratada pela Deitch em 2018 e se tornou diretora da galeria de Los Angeles em 2020, e AJ Girard, educador de artes, quiseram encontrar uma forma de processar tudo o que estava acontecendo nos Estados Unidos em relação à justiça racial e à pandemia.

“Foi tão avassalador e emocionalmente impactante”, disse Melahn, 34 anos, em uma entrevista na galeria. “Nós realmente só queríamos dar a todos a chance de fazer o que quisessem.”

Girard, 30 anos, trabalhava como coordenador comunitário no Underground Museum, que foi forçado a fechar temporariamente por causa da covid-19, viu-se sem "espaços seguros".

“Parecia que não havia lugar para ir”, disse ele. “Jovens negros e negras ficaram particularmente desamparados. As manifestações tornaram-se o novo ponto de encontro”.

Jeffrey Deitch disse que a resposta à exposição foi diferente de tudo o que ele viu desde Art in the Streets, mostra sobre grafite e arte urbana da qual participou da curadoria no Museu de Arte Contemporânea em 2011.

“Melahn e AJ realmente se conectaram com algo”, disse ele.

Ao montar a exposição com o trabalho de 40 artistas, a dupla entrou em contato com aqueles que conheciam e aqueles cujos trabalhos foram comentados ou vistos no Instagram.

Entre eles, está Raelis Vasquez, que pinta as pessoas com quem ele cresceu na República Dominicana - até mesmo misturando areia das praias de lá e de Nova Jersey, onde ele mora agora, com a tinta. Em uma tela, La Mesa Nuestra, aqueles reunidos em um restaurante incluem o próprio Vasquez como um menino, adormecido na ponta da mesa.

Em outra, Mercado en Dajabon, as pessoas estão reunidas em um mercado ao ar livre.

“Estou refletindo sobre minha experiência como imigrante nos EUA e a experiência de imigrantes haitianos na República Dominicana.”, disse Vasquez, 25 anos, que faz mestrado em Belas Artes na Universidade de Columbia. “Você luta e passa por muitas dificuldades e até mesmo traumas para ter melhores oportunidades.”

Os bustos de cerâmica de Murjoni Merriweather, com seus cabelos sintéticos trançados à mão e dentes cobertos com metais, retratam amigos e familiares.

“Eu me senti imortalizado”, disse Pink Siifu, um artista de hip-hop retratado por Murjoni em uma peça única, acrescentando: “Você realmente não vê dentes cobertos por metais preciosos representados em galerias. Nós os usamos há gerações. Mostra nosso brilho; é uma autoexpressão.”

A pintura de Gabriela Ruiz, La Lavada, é um ciclo de rotação gigante inspirado em suas inúmeras idas à lavanderia com sua mãe.

“Enquanto crescia nunca tive uma máquina de lavar em casa”, disse.

A pintura também inclui uma câmera de segurança que faz referência a “como as pessoas negras estão constantemente sendo vigiadas”, disse Melahn.

Os artistas estão pintando suas experiências, assim como as pessoas que fazem parte do seu dia a dia.

“As pessoas são a arte”, disse Girard.

“Cada sala está centrada em uma jovem escultora”, acrescentou. “Elas podem contar as próprias histórias dessa forma. Não é comum você ouvir falar de mulheres escultoras antes de haver uma retrospectiva com todos seus trabalhos ao longo dos anos. ”

Shattered Glass celebra o corpo negro, com imagens como Bliss: Americana Hot Mamma de Kezia Harrell, representando uma mulher reclinada confortavelmente em um arbusto sem se preocupar com seu tamanho e nudez, assim como imagens vívidas e ternas de Tyler Ballon de uma mulher acariciando o cabelo de uma garota , e um pai segurando uma foto de Dizzy Gillespie ao lado de uma criança tocando um trompete.

Dadas as difíceis discussões em torno de questões de igualdade e a dor após o assassinato de George Floyd, pode-se esperar que a exposição pareça pesada e sombria. Em vez disso, há uma alegria no trabalho, que atesta a resiliência dos artistas e das pessoas que eles retratam; do instinto humano para o alívio.

“As pessoas esperavam ver muita dor”, disse Melahn. “Demos aos artistas o espaço para mostrar qualquer coisa que estivessem sentindo.”

De certa forma, sugeriram os curadores, os efeitos da exposição são tão importantes quanto a arte que está nela.

“Ainda existe uma falta gigantesca de imagens de autoafirmação e representatividade para pessoas negras nas imagens retratadas pela arte tradicional”, escreveram os curadores em seu material sobre a mostra. “Como resultado, aqueles que estão fora dessa narrativa unilateral foram forçados a perceber sua história por meio de uma lente predominantemente branca considerada universal. É crucial que os integrantes da nossa comunidade, que historicamente se sentem desconfortáveis e indesejados em ambientes artísticos institucionais, finalmente se vejam representados nesses espaços e em outros.”

A exposição não consegue deixar de ser uma espécie de correção na tradição da programação do Studio Museum no Harlem e mostras inovadoras como 30 Americans, uma exposição de obras de artistas contemporâneos afro-americanos da Rubell Family Collection, que tem visitado museus por mais de uma década.

Já que a sociedade por tanto tempo não questionou exposições apresentando apenas artistas brancos, a mostra parece perguntar, por que não se acostumar da mesma forma com exposições apenas com artistas negros?

“Não há problema em nosso ponto de vista ser dominante”, disse Girard. “É como se lançássemos nossas âncoras.”

A questão daqui para frente é: "O mundo da arte vai se fechar novamente?", indagou. “Ou vai permitir que isso aconteça com mais frequência?”/ Tradução de Romina Cácia

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