Galvanizando fileiras

GIRISH GUPTA

MAIQUETA, VENEZUELA, GIRISH GUPTA É JORNALISTA. ESSE TEXTO , FOI PUBLICANO ORIGINALMENTE NO , GLOBALPOST, DISTRIBUÍDO PELA SALON, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2012 | 03h07

Milhares de pessoas vieram a esta cidade litorânea, a uma hora de viagem de carro de Caracas, para se reunir no aeroporto nacional da Venezuela, que recebeu recentemente o duvidoso título de pior da América Latina. Usando camisetas azuis e brandindo bandeirinhas tricolores vermelhas, amarelas e azuis, a animada multidão cantou e dançou, esperando pela chegada do homem que representa a primeira ameaça séria ao presidente Hugo Chávez em 13 anos de governo.

Henrique Capriles Radonski está na liderança das primárias que devem ocorrer no domingo, um preparativo para as eleições presidenciais de outubro. Pela primeira vez na sua desordenada história, a oposição que ele está prestes a comandar conseguiu se unir para desafiar o presidente socialista.

Quando Capriles chega, o povo se reúne em torno dele. Aos 39 anos, Capriles subiu a escada política na Venezuela no decorrer da última década, ocupando os cargos de prefeito e agora governador do Estado de Miranda, o segundo mais populoso do país. Isso confere a Capriles credibilidade entre aqueles que ele busca atrair.

Capriles construiu sua campanha com base nas melhorias na educação, algo que ele considera uma solução de longo prazo para a falta de segurança e a extrema pobreza em seu país. Os métodos de Capriles não buscam ganhar de Chávez no grito - na verdade, ele elogia ideias do presidente -, e sim mudar as coisas pouco a pouco, lidando com um caso por vez, disse ele. Mas será extremamente difícil - ou talvez impossível - tirar do poder El Comandante, como Chávez é chamado. Com o preço do petróleo na casa dos US$ 120 o barril, Chávez, líder de um país rico em reservas de energia, tem dinheiro de sobra para investir na campanha. Nessa semana, a estatal de petróleo da Venezuela relatou aumento de 35% nos lucros em 2011.

A popularidade do presidente continua alta, em boa parte graças aos numerosos programas sociais implementados por ele, financiados pela fartura de petróleo na Venezuela.De acordo a Hinterlaces, que faz pesquisas de opinião no país, o presidente goza de impressionantes 64% de aprovação. Programas de habitação e saúde, entre outros, têm sido os alicerces do governo de Chávez.

Os críticos afirmam que os programas oferecem apenas um auxílio temporário, sendo desprovidos de uma visão de futuro. "Por que Chávez não propõe uma solução real, em vez de consertar uma casa ou outra para conseguir publicidade positiva?", disse Yesman Utrera, falando de seu próprio bairro na zona leste de Caracas. Ele acrescentou: "Todos têm um amigo de um amigo que foi beneficiado pelo governo".

A ascensão de Chávez foi possibilitada pela imensa desigualdade de renda que havia na Venezuela. Enquanto ele estudava na academia militar de Caracas no fim dos anos 80 e início dos 90, os venezuelanos se tornavam cada vez mais frustrados com o governo, que açambarcava toda a riqueza proveniente do petróleo ao mesmo tempo que promovia reformas neoliberais para as massas. Chávez se valeu dessa frustração na sua tentativa de golpe contra o então presidente Carlos Andrés Pérez, em 1992. Apesar de ter sido preso após o fracasso do golpe, Chávez se tornou um herói nacional, encarnando a luta contra a elite corrupta. Isso o conduziria ao palácio presidencial de Miraflores.

"Não faço parte do antigo establishment", disse Capriles. Ele também se esforça para se manter distante de quaisquer laços com os EUA. Por mais que seja fluente no inglês, reluta em falar o idioma diante das câmeras, defendendo-se preventivamente dos ataques de Chávez e afastando acusações de simpatia pelo "império ianque".

Demonstrando uma mudança mais ampla na política latino-americana, Capriles está também se inspirando nas lições do ex-presidente brasileiro. Lula passou a representar uma esquerda mais moderada, capaz de ajudar os pobres ao mesmo tempo que trabalha com o empresariado e com Washington - diferentemente de homens como Hugo Chávez e Fidel Castro, que se apresentam como adversários do Ocidente. A admiração de Caprile por Lula é evidente nos projetos sociais de Miranda.

É o apoio popular conquistado por meio de projetos que vai consagrar Chávez ou Caprile como o vencedor das eleições de outubro. "Desejo a Chávez uma vida longa", disse Capriles, referindo-se ao diagnóstico de câncer anunciado pelo presidente no ano passado. "Para que ele possa ver as mudanças que estão chegando." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.