Reprodução/Twitter
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Ganhador do Booker Prize 2020 trata da pobreza na Escócia dos anos 1980; leia trecho

'A História de Shuggie Bain', romance de estreia de Douglas Stuart, chega ao Brasil

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2021 | 10h00

O livro A História de Shuggie Bain, romance de estreia do escritor escocês Douglas Stuart, saiu vencedor do prestigioso Booker Prize de 2020 e chega agora ao Brasil pela editora Intrínseca.

A obra traça um panorama das camadas populares da Escócia dos anos 1980, com enfoque nas questões de violência, intolerância religiosa e dependência química.

O livro chega primeiro pelo clube de assinaturas Intrínsecos no mês de outubro, inclusive para quem aderir à assinatura até o dia 30 de setembro. 

Leia um trecho de 'A História de Shuggie Bain'

O dia estava monótono. Naquela manhã a mente o abandonara e deixara seu corpo vagando lá embaixo. O corpo vazio cumpriu sua rotina com apatia, pálido e de olhar inexpressivo sob as luzes fluorescentes, enquanto a alma pairava sobre os corredores e só pensava no dia seguinte. O dia seguinte era algo pelo que ansiar.

Shuggie era metódico ao se preparar para o expediente. Todos os potes de pastas e molhos gordurosos eram despejados em bandejas limpas. Enxugava das bordas quaisquer gotículas que ficariam amarronzadas e arruinariam a ilusão de frescor. Os presuntos fatiados eram engenhosamente arrumados com ramos de salsinha fajutos, e as azeitonas eram viradas para que o sumo viscoso escorresse feito muco sobre a casca verde.

Ann McGee tivera a cara de pau de ligar de manhã para avisar que estava doente, deixando-o com a missão ingrata de gerenciar seu balcão de delicatéssen e a rotisseria dela sozinho. Dia nenhum começava bem com seis dúzias de frangos crus e, logo hoje, eles roubavam a doçura de seus devaneios.

Ele furava com espetos industriais cada uma das aves mortas, frias, e as alinhava impecavelmente em uma fileira. Ficaram ali, com as asas grossas cruzadas sobre os peitinhos gordos, como bebês descabeçados.

Houve uma época em que se orgulharia dessa organização. Na realidade, enfiar o metal na esburacada carne rosada era a parte mais fácil; a mais difícil era resistir ao ímpeto de fazer a mesma coisa com os clientes. Eles se aproximavam da vidraça quente e examinavam cada carcaça em detalhes. Só escolhiam a melhor ave, alheios ao fato de que a criação de galinhas em cativeiro tornava todas idênticas. Shuggie ficava ali parado, os molares beliscando a parte interna da bochecha, e cedia à indecisão deles com um sorriso forçado. Então a pantomima começava de fato.

— Só três peitos, quatro coxas e uma asinha, meu filho.

Ele rezava para ter forças. Por que ninguém mais queria o frango inteiro? Ele levantava a carcaça usando um garfo trinchante, tomando o cuidado de não encostar nas aves as mãos enluvadas, e depois se esmerava em dissecar os membros (a pele intacta) usando um pegador.

Ele se sentia um idiota parado ali contra as luzes da grelha. Seu couro cabeludo suava debaixo da rede e as mãos não eram fortes o bastante para quebrar habilidosamente as costas do frango com as lâminas cegas.

Encurvou um pouco os ombros para jogar a força dos músculos das costas na pressão dos punhos e continuou sorrindo o tempo inteiro.

Se tivesse muito azar, as pinças escorregariam, e o frango cairia com um baque e deslizaria pelo chão arenoso. Teria que fingir, em tom de desculpa, que estava recomeçando, mas nunca desperdiçava aquela ave suja. Quando as mulheres virassem as costas, ele o colocaria de volta entre suas irmãs sob as luzes amarelas quentes. Acreditava bastante em higiene, mas essas pequenas vitórias pessoais o impediam de começar um motim. A maioria das donas de casa julgadoras, com cara de homem, que compravam ali mereciam. O olhar de desprezo delas tingia sua nuca escarlate. Nos dias em que estava mais cabisbaixo, juntava todos os seus tipos de secreções corporais à taramasalata. Vendia uma quantidade sinistra dessa bosta burguesa.

Trabalhava para os Kilfeather fazia mais de um ano. Nunca planejara que durasse tanto. Só que precisava se alimentar e pagar uma parte das contas toda semana, e o supermercado era o único negócio que o aceitava. O sr. Kilfeather era um babaca parcimonioso: gostava de suprir a loja com qualquer pessoa a quem não precisasse pagar um salário integral de adulto, e Shuggie se achou capaz de pegar turnos curtos que se encaixavam no seu arremedo de vida escolar. Em sonhos, sempre tivera a intenção de seguir em frente. Sempre adorara escovar cabelos e mexer neles: era a única coisa que fazia o tempo voar de verdade.

Quando completou dezesseis anos, prometeu a si mesmo que cursaria a faculdade de cabeleireiros que ficava ao sul do rio Clyde. Tinha reunido todas as suas inspirações, os desenhos que copiara do catálogo de Littlewoods e as folhas rasgadas das revistas de domingo. Em seguida, fora a Cardonald para se informar sobre as aulas noturnas. No ponto de ônibus em frente à faculdade, ele descera com meia dúzia de adolescentes de dezoito anos. Usavam as roupas mais modernas, mais estilosas, e falavam com uma autoconfiança murmurante que mascarava o nervosismo que sentiam. Shuggie andava com metade da velocidade deles.

Viu-os entrar pela porta da frente, depois atravessou a rua de novo para pegar o ônibus que faria o caminho inverso. Começou na Kilfeather na semana seguinte.

Shuggie matava boa parte de seu intervalo matinal examinando as latas avariadas nas prateleiras de descontos. Achou três latinhas de salmão escocês que mal tinham defeitos, os rótulos estavam descascados e marcados, mas as latas mesmo estavam intactas. Com o último salário tinha pagado sua cestinha, e botava as latas de peixe dentro da velha mochila escolar, que voltava a trancar dentro do armário. Subia a escada até o refeitório dos funcionários e tentava aparentar indiferença ao passar pela mesa dos universitários que cumpriam os expedientes fáceis no verão e gastavam os intervalos sendo presunçosos, rodeados de pastas grossas de revisões de matérias. Ele fixou o olhar à meia distância e se sentou no canto, não com as garotas do caixa, mas bem perto delas.

Na verdade, as garotas eram três mulheres de meia-idade de Glasgow. Ena, a líder, era uma varapau, uma mulher inexpressiva de cabelo oleoso. Praticamente não tinha sobrancelhas, mas ostentava um leve bigode, o que Shuggie achava injusto. Ena era bruta até para aquele canto de Glasgow, mas também era amável e generosa como pessoas maltratadas pela vida muitas vezes são. Nora, a mais nova das três, estava sempre de cabelo puxado e preso por um elástico. Os olhos, assim como os de Ena, eram pequenos e aguçados, e aos trinta e três anos já era mãe de cinco. A última do grupo era Jackie. Era diferente das outras duas porque lembrava muito uma mulher. Jackie era uma bisbilhoteira barulhenta, um sofá grande, peitudo, em forma de mulher. Era dela que Shuggie mais gostava. 

Sentou-se perto delas e pegou o fim da saga do último namorado de Jackie. Era garantido que as mulheres estivessem sempre cheias de tagarelices bondosas. Elas já o tinham levado duas vezes às suas noitadas no bingo, e enquanto as mulheres bebiam e gargalhavam alto, ele ficava sentado entre elas como um adolescente em quem não se podia confiar para ficar sozinho em casa. Ele gostara de como ficavam à vontade juntas. Como o tamanho delas o cercara e a maciez da pele delas apertava as laterais de seu corpo. Gostava de como demonstravam afeto por ele e, embora protestasse, como tiravam seu cabelo dos olhos e umedeciam os polegares para limpar os cantos de sua boca. Para elas, Shuggie oferecia alguma forma de atenção masculina, e não importava se tinha só dezesseis anos e três meses. Sob as mesas de bingo de La Scala, todas tinham tentado pelo menos uma vez esbarrar em seu pau. Os golpes

eram longos demais, perscrutadores demais, para serem acidentais.

Para Ena-sem-sobrancelhas se tornava quase uma cruzada. Quanto mais se afogava na bebida, mais descarada ficava. A cada passada de suas juntas cheias de anéis, ela apertava a língua gorda entre os dentes e queimava a lateral do rosto dele com os olhos. Depois que Shuggie ficou vermelho de constrangimento, ela fez um muxoxo e Jackie empurrou duas notas de libras em direção a uma Nora sorridente, vitoriosa. Foi uma decepção, sem dúvida, mas depois de beber mais elas concluíram que não tinha sido exatamente uma rejeição. Tinha alguma coisa errada com o garoto, e pelo menos isso elas poderiam lastimar.

Shuggie ficou sentado no escuro escutando os roncos irregulares através das paredes do prédio. Tentava, e não conseguia, ignorar os homens solitários que não tinham a própria família. Como o frio matutino havia deixado suas coxas nuas azuladas, ele se enrolou em uma toalha fina para se esquentar e mascou a ponta devido ao nervosismo, aplacado pela forma como chiava entre dentes. Pôs o último salário da loja na beirada da mesa. Organizou as moedas, primeiro pelo valor, depois pelo pouco uso e pelo brilho.

O homem de rosto rosado do quarto ao lado ganhou vida rangendo.

Em sua cama apertada, ele fazia muito barulho ao se coçar e suspirava uma prece pedindo forças para se levantar. Seus pés tocaram o chão com um baque, como sacos pesados de carne trazidos do açougue, e ele parecia fazer esforço para se arrastar pelo quartinho até a porta.

Atrapalhou-se com as trancas conhecidas e saiu no corredor sempre escuro, tateando o caminho às cegas, a mão deslizando pela parede e caindo contra a parte externa da porta de Shuggie. O garoto prendeu o fôlego enquanto os dedos percorriam as contas da toalha. Só quando escutou o pec-pec da cordinha da luz do banheiro foi que Shuggie voltou a se mexer. O velho começou a tossir e ressuscitar os pulmões ao se agachar. Shuggie tentou não ouvi-lo mijar e cuspir bolas de catarro no vaso ao mesmo tempo.

A luz da manhã era da cor de um chá com muito leite. Enfiava-se no quarto como um fantasma travesso, traspassando o carpete e se

aproximando devagar de suas pernas nuas. Shuggie fechou os olhos e tentou senti-la avançando, mas não havia calor em seu toque. Esperou até o momento em que achava estar coberto por inteiro e então reabriu os olhos.

Eles o encaravam também, uma centena de pares de olhos pintados, todos de corações partidos ou solitários, como estavam sempre. As bailarinas de porcelana com cachorrinhos, a garota espanhola com os marinheiros dançantes e o menino caipira de rosto rosado que puxava seu cavalo de carga preguiçoso. Shuggie tinha arrumado os enfeites direitinho na borda da janela da sacada. Tinha passado horas com as histórias que inventava. O ferreiro de braços grossos entre os coristas com carinhas angelicais, ou o seu preferido, os cerca de sete gatinhos gigantes que sorriam e ameaçavam o pastor preguiçoso.

Ao menos alegravam um pouco o ambiente. O quartinho era mais alto do que comprido, e sua cama de solteiro se destacava no centro

como uma divisória. Um canapé antiquado para duas pessoas, do tipo feito em madeira, cujas almofadas finas sinalizavam que você sempre sentiria as tábuas nas costas, ficava de um lado. Uma geladeira pequena e um fogão Baby Belling com duas bocas ficava do outro. A não ser pelas roupas de cama amarrotadas, nada estava fora do lugar: não havia poeira, nem as roupas da véspera nem sinais de vida. Shuggie tentava se acalmar enquanto passava a mão nos lençóis descombinados. Pensou que a mãe teria detestado aquela roupa de cama, as cores esquisitas e as estampas, empilhada uma sobre a outra como se ele não ligasse para o que os outros pensavam. A bagunça teria ferido seu orgulho. Um dia ele guardaria uma grana e compraria roupas de cama para si mesmo,

macias e quentinhas e de cores combinando.

Ele tivera a sorte de conseguir aquele quarto na pensão da sra. Bakhsh. Foi uma sorte de que o velho antes dele gostasse demais de

beber e tivesse sido preso por causa disso. A enorme janela de sacada se projetava orgulhosamente sobre a Albert Drive, e Shuggie imaginava que a certa altura o quarto tivesse sido a sala de estar de um grandioso apartamento de três quartos. Já tinha visto alguns outros quartos da casa. A copa que a sra. Bakhsh transformara em quarto ainda tinha o assoalho de linóleo quadriculado original, e os outros três quartos apertados ainda tinham o carpete puído original. O homem de cara rosada morava no que outrora devia ser um quarto de bebê, ainda com seu papel de parede de flores amarelas e uma moldura alegre de coelhos risonhos em torno da cornija. A cama do sujeito, seu canapé e seu fogão ficavam encostados na mesma parede, e todos se tocavam. Shuggie tinha visto uma vez, pela fresta da porta entreaberta, e ficou contente com sua sensacional janela de sacada.

Tivera a sorte de encontrar as paquistanesas. Nenhum dos outros senhorios queria alugar para um garoto de quinze anos que fingia ter completado dezesseis na véspera. Os outros não diziam de cara, mas faziam perguntas demais. Olhavam de cima a baixo,  desconfiados, para a sua melhor camisa da escola e os sapatos engraxados. Tem alguma coisa errada, diziam seus olhos. Pelo canto da boca de todos, percebia que consideravam uma desgraça um menino da idade dele não ter mãe, não ter uma família.

A sra. Bakhsh não se importara. Olhara para a mochila da escola e o aluguel do mês que ele ia adiantar e voltou a se preocupar com a

alimentação dos próprios filhos. Com uma caneta esferográfica azul ele decorara aquele primeiro envelope com o aluguel especialmente para ela. Shuggie queria demonstrar que se importava em ser bom, que era confiável a ponto de fazer tal esforço extra. Então pegou um pedaço de papel do caderno de geografia e desenhou caxemiras em redemoinho, entrelaçadas em torno do nome dela, e coloriu entre as linhas para que as figuras pavoneadas se destacassem na glória de seu tom cobalto.

A proprietária morava em frente, em um apartamento idêntico, muito bem mobiliado e aquecido pela calefação central. No outro

apartamento, frio, ela mantinha cinco homens em cinco quartos por dezoito libras e cinquenta centavos por semana, pagos semanalmente, só em dinheiro vivo. Os dois homens cujos aluguéis não eram pagos pela assistência social tinham que enfiar o salário por baixo da porta dela na noite de sexta-feira, antes de começarem a gastar o resto na bebida. De joelhos, no capacho dela, eles curtiam um pouco a satisfação que irradiava de dentro: panelas borbulhantes e cheirosas cozinhando frango, o barulho feliz de crianças brigando por canais de TV e o som das risadas de mulheres gordas falando palavras estrangeiras ao redor das mesas da cozinha.

A proprietária nunca incomodou Shuggie. Nunca botava os pés no quarto dele a não ser que o aluguel estivesse atrasado. Então ela entrava com outras paquistanesas de braços robustos e batia com força nas portas dos homens. Na maioria das vezes, aparecia apenas para passar o aspirador no corredor sem janelas ou limpar o banheiro. Uma vez por mês, despejava água sanitária no vaso e, de vez em quando, botava um novo retalho de tapete na sua base para absorver o mijo.

Shuggie encostou o rosto na porta e ficou escutando, esperando que o homem de rosto rosado acabasse sua ablução. No silêncio, ele o ouviu abrir a tranca da porta do banheiro e sair para o corredor. O garoto enfiou os pés nos velhos sapatos da escola. Por cima da cueca, pôs a parca, um troço barulhento com forro de náilon que tinha um capuz de pelo emaranhado. Fechou o zíper até o alto, e nos enormes bolsos enfiou uma sacola da Kilfeathers e dois panos de prato finos.

Havia um suéter da escola enfiado na fresta debaixo da sua porta. Ao tirá-lo, ele sentiu o cheiro dos outros homens sendo trazidos pela corrente de ar frio. Um deles andava fumando a noite inteira outra vez; outro tinha feito peixe para a janta. Shuggie abriu a porta e se esgueirou pela escuridão.

A sra. Bakhsh pegara a única lâmpada do lustre de cima, dizendo que os homens tinham desperdiçado uma boa grana deixando-a acesa o dia inteiro. Agora o cheiro dos homens continuava no corredor feito um rastro de fantasmas, sem brisa ou luz para atrapalhá-lo. Anos passados fumando onde dormiam, jantando frituras em frente a lareiras a gás e passando os dias de verão de janelas fechadas. Os cheiros azedos de suor e sêmen misturados ao calor estático de televisores em preto e branco e a picada de uma loção pós-barba âmbar.

Shuggie começava a ser capaz de diferenciar os homens. Na escuridão, seguia o homem de rosto rosado quando este se levantava para

raspar o rosto e passar Brylcreem no cabelo, e sentia o aroma do sobretudo bolorento do homem de dentes amarelados que só comia o que cheirava a pipoca com manteiga ou peixe com molho. Mais tarde, quando chegava a hora de os pubs fecharem, Shuggie sabia dizer quando cada um chegava em casa são e salvo.

O banheiro compartilhado tinha porta de vidro texturizado. Ele passou a tranca e ficou um instante girando a maçaneta, verificando se estava mesmo fechada. Abrindo o zíper da jaqueta pesada, ele a pôs no canto. Virou a torneira de água quente para sentir a água, e um resto de água morna escorreu. Depois, ela cuspiu duas vezes e desceu mais fria do que o rio Clyde. O choque gelado fez com que Shuggie pusesse os dedos na boca. Ele pegou uma moeda de cinquenta centavos, virou-a com pesar, colocou-a no aquecedor de imersão e ficou observando a chamazinha do gás ganhar vida.

Quando tornou a abrir a torneira, a água saiu gelada e, depois, com uma tossida, jatos de água fervendo se derramaram. Ele molhou o pano de prato úmido, esfregando-o no peito frio e no pescoço branco, contente pelo calor vaporoso. Mergulhou o rosto e a cabeça naquele calor raro, ficou ali e sonhou em encher uma banheira até a borda. Pensou em se deitar sob a água quente bem longe dos cheiros de outros inquilinos. Fazia muito tempo que não sentia o corpo inteiro degelar, todo ele quente ao mesmo tempo.

Levantando o braço, passou o pano do punho até os ombros. Tensionou o músculo do braço e passou os dedos em torno do bíceps. Caso realmente tentasse, poderia quase fechar a mão inteira em volta dele, e, se apertasse com força, sentiria os contornos do osso. O sovaco estava polvilhado de fiapos fininhos, feito plumas de filhote de pato. Aproximou o nariz dele: o cheiro estava doce e limpo e de absolutamente nada. Ele beliscou e apertou, ordenhando a pele macia até ela ficar vermelha de frustração. Cheirou os dedos de novo, nada. Esfregando com mais força, ele repetiu baixinho:

— Os resultados da Premier League Escocesa. Gers venceu 22, empatou 14, perdeu 8, 58 pontos no total. Aberdeen venceu 17, empatou 21, perdeu 6, 55 pontos no total. Motherwell venceu 14, empatou 12, perdeu 10.

No espelho, seu cabelo molhado estava preto como carvão. Ao escová-lo sobre o rosto, ficou surpreso em perceber que estava quase

batendo no queixo. Ele fitou e tentou achar algo de masculino para admirar em si mesmo: os cachos pretos, a pele leitosa, os ossos saltados nas bochechas. Flagrou o reflexo dos próprios olhos no espelho. Tinha algo errado. Não era assim que os garotos de verdade deviam ser.

Esfregou-se outra vez.

— Gers venceu 22, empatou 14, perdeu 8, 58 pontos no total. Aberdeen venceu 17, empatou…

Então escutou passos no corredor, o rangido conhecido dos sapatos pesados de couro, e depois nada. A porta fina insistia em se mexer contra o fecho. Shuggie pegou a parca militar e enfiou o corpo úmido dentro dela.

Assim que se mudara para o quarto da sra. Bakhsh, só um dos outros inquilinos de fato prestou atenção. O homem de rosto rosado e

o homem de dentes amarelados estavam cegos demais ou destruídos demais pela bebida para se importar. Mas, naquela primeira noite, quando Shuggie estava sentado na cama comendo a ponta de um pão branco com manteiga, houve uma batida à sua porta. O garoto ficou bastante tempo em silêncio até resolver abri-la. O homem do outro lado era alto e robusto e cheirava a sabonete de pinho. Trazia na mão um saco plástico com doze latas de cerveja que tilintavam como sinos de capela abafados. Com uma pata dura, o homem se apresentou como Joseph Darling e esticou a sacola para o menino com um sorriso. Shuggie tentara dizer não, obrigado, daquele jeito educado que lhe fora ensinado, mas o homem tinha algo que o intimidava, e deixou-o entrar.

Ficaram sentados juntos, em silêncio, Shuggie e o visitante, empoleirados na beirada da cama de solteiro arrumada, olhando para a rua cheia de prédios. Famílias protestantes comiam seu jantar olhando a televisão, e a criada que morava em frente comia sozinha em sua mesa dobrável. O par bebia em silêncio e observava os outros cumprindo sua rotina normal. O sr. Darling não tirou o casaco grosso de tweed.

Seu peso na cama jogava Shuggie para o costado. De soslaio, Shuggie olhava as pontas amareladas dos dedos grossos do outro trocarem golpes por causa do nervosismo. Ele só tinha tomado um gole da cerveja para ser educado e, enquanto o homem falava, só conseguia pensar na bebida enlatada, no gosto azedo e triste que tinha. Fazia com que se lembrasse de coisas que gostaria de esquecer.

O sr. Darling tinha um jeito ponderado, meio ensimesmado. Shuggie fez o possível para ser gentil e prestar atenção quando o homem lhe contou que tinha sido bedel de uma escola protestante que tinham fechado e juntado com a católica para economizar o dinheiro do conselho. Ao contar a história, o homem parecia mais espantado que as crianças protestantes andassem com as católicas em paz do que com o fato de estar desempregado.

— É difícil de acreditar! — disse ele, mais para si mesmo. — Na minha época, a religião da pessoa tinha importância. Pra chegar na escola, você tinha que lutar por um lugarzinho no ônibus cheio de imbecis católicos que se entupiam de repolho. Era motivo de orgulho. Agora tem mocinha que topa dormir com esses irlandeses imundos que nem toparia dormir com um cachorro.

Shuggie fingiu dar um golinho na cerveja, mas de modo geral bochechava a bebida e a soltava de volta na lata. Os olhos do sr. Darling

percorriam as paredes em busca de um sinal. Então ele deu uma olhada de soslaio para o garoto e perguntou, de repente inseguro de sua plateia:

— Então, em que escola você estudava?

Shuggie sabia o que ele estava procurando.

— Não sou nem uma coisa nem outra, e ainda estou estudando.

Era verdade, não fazia parte nem dos católicos nem dos protestantes, e ainda frequentava a escola, quando podia se dar ao luxo de não estar no supermercado.

— Ah é? Em que matéria você é melhor, então?

O garoto deu de ombros. Não era modéstia, de modo geral não era bom em nada. Sua presença era irregular, na melhor das hipóteses, e por isso era difícil acompanhar o fio do aprendizado. Na maioria das vezes ele ia e ficava quieto no fundo da sala para que o Conselho Educacional não fosse atrás dele por absenteísmo. Se a escola soubesse como ele vivia, era obrigada a fazer alguma coisa.

O homem terminou a segunda lata e foi logo começando a terceira.

Shuggie sentiu a queimação do dedo do sr. Darling na lateral de sua perna. O homem tinha apoiado a mão no colchão dele, e o mindinho, com seu anel de ouro com o símbolo da maçonaria, encostava nele bem de leve. Não se mexia ou se retorcia. Simplesmente estava ali, e isso o fazia queimar ainda mais. 

Agora Shuggie estava de pé no banheiro úmido, segurando a parca fechada. O sr. Darling puxava a beirada da boina de tweed em uma

saudação antiquada.

— Só queria saber se você vai estar aqui de dia.

— Hoje? Não sei. Tenho algumas mensagens pra entregar.

Uma nuvem de decepção cruzou o rosto do sr. Darling.

— Péssimo dia pra isso.

— Eu sei. Mas combinei com um amigo de me encontrar com ele.

O sr. Darling sugou os enormes dentes brancos. O sujeito era tão alto que ainda estava se esticando para chegar à estatura total. Shuggie imaginava gerações de crianças protestantes alinhadas em uma fileira e apavoradas com aquela longa sombra. Agora via que o rosto do homem estava enrubescido, um fio de suor de beberrão na beirada da testa.

Shuggie teve certeza de que o cara tinha se curvado diante da fechadura.

— Que pena. Vou só dar uma saidinha pra receber minha pensão, talvez dê uma parada no Brewers Arms, faça umas apostinhas. Mas estava torcendo pra gente tomar umas latinhas juntos. Quem sabe ver os resultados do futebol na telinha? Eu podia ensinar um pouco sobre as ligas inglesas pra você... — O homem olhou o garoto de cima, enfiou a língua nos molares.

Se ele jogasse direito, o homem sempre renderia algumas libras.

Mas demoraria demais aguardar que o sr. Darling embolsasse o seguro-desemprego, fosse da agência do correio para a casa de apostas, para a loja de bebidas e depois para casa — isso se conseguisse achar o caminho de casa. Shuggie não tinha como esperar tanto tempo.

O garoto soltou a parca, e o sr. Darling fingiu não encarar quando o casaco se abriu um pouco. Mas ele parecia ser incapaz de se conter, e Shuggie viu quando a luz cinza de seus olhos verdes mergulhou.

Shuggie sentiu-a queimar seu peito pálido quando o olhar do homem desceu da cueca frouxa para as pernas nuas, aquelas coisas brancas desinteressantes, sem pelos, que pendiam como linhas não cortadas dabarra de seu casaco preto.

Só então o sr. Darling sorriu.

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