Gustave Doré/Editora 34
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'Pantagruel e Gargântua' evidencia François Rabelais como humanista sui generis

Rabelais reinventou a língua francesa, enriqueceu-a com um vocabulário excrementício e sexualizado, razão primeira de seu banimento das escolas e das bibliotecas dos bem-pensantes, nos séculos imediatos à sua publicação

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2021 | 15h00

Por que ler os clássicos? 

Muitos já se ocuparam dessa indagação (recomendo a resposta de Italo Calvino, traduzida pela Companhia das Letras), e, por não ter nada de original a acrescentar ao que já foi dito e repetido, emendo com outra pergunta que não tenho meios de responder: quem hoje se predisporia a embarcar numa ficção de praticamente mil páginas e 500 anos de idade? 

Levante a mão e vá ler Rabelais, s’il vous plaît. 

Saiu, faz pouco tempo, uma nova tradução de Pantagruel e Gargântua, assinada por Guilherme Gontijo Flores, com o selo da Editora Garnier-Itatiaia, e ainda encontra-se à venda a tradução que Elide Valarini Oliver (premiada com o Jabuti em 2007) fez do terceiro e quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel, lançados pela Ateliê Editorial. 

Pai e filho gigantes, emblemas da glutonaria e da incontinência etílica, Pantagruel e Gargântua são os pilares da mitologia cômica rebelaisiana, as encarnações mais célebres do epicurismo à outrance que o dublê de vigário franciscano (depois beneditino) e médico risoterapeuta François Rabelais (1494-1553) defendia e praticava de forma dogmática. Gaulês “de formato sobrenatural”, seu apetite, de tão poderoso e abrangente, conheceu as raias da antropofagia.

Com aquelas duas goliardas criaturas Rabelais criou a obra literária primordial da Renascença e o livro mais “divertido e indecente” da literatura francesa, na avaliação de Otto Maria Carpeaux, que também o via como um épico humanista que celebra o humor e seus efeitos curativos, o corpo e suas limitações grotescas, o sexo, a comida, até a doença e a morte, e também consagra a liberdade total, desmistificando a monarquia, a falsa pompa cavalariana, os preconceitos burgueses, a hipocrisia monástica e seu celibato forçado, o “latim bárbaro” dos escolásticos, a futilidade das guerras, entre outras seculares instituições. 

No exuberante, irreverente e eruditíssimo relato das aventuras, façanhas e patacoadas de Pantagruel e Gargântua beberam Cervantes (com seu quixotesco cavaleiro), Jonathan Swift (o gigantismo de mão dupla de As Viagens de Gulliver), Voltaire (e suas sátiras), Henry Fielding (Tom Jones), Laurence Sterne (Tristram Shandy), e, se avançarmos no tempo até o século passado, Joseph Heller (Ardil 22), Kurt Vonnegut (Matadouro 5) e Martin Amis (Dinheiro). 

Acrescentem-se a essa estirpe os baianos Gregório de Matos (tido, por bons motivos, como “o Rabelais dos trópicos”) e João Ubaldo Ribeiro, em especial o de Viva o Povo Brasileiro e A Casa dos Budas Ditosos

O interesse por Rabelais ressurgiu mundo afora nos anos 1960-70, no dorso de um magistral ensaio do crítico soviético Mikhail Bakhtin, A Obra de François Rabelais e a Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, âncora e bússola de incontáveis estudos antropológicos sobre a pujança da cultura popular e a carnavalização da realidade, que entre nós encontrou em Roberto DaMatta seu mais fecundo praticante, vide Carnavais, Malandros e Heróis, leitura fundamental para melhor entendermos o Brasil e sua pervagante fuzarca.

O livro de Bakhtin, traduzido do inglês pela Hucitec, virou best seller acadêmico, enriqueceu os estudos sobre a paródia em suas várias manifestações, mas não multiplicou os leitores da prosa barroca de Rabelais, que deles exige fôlego e redobrada atenção, dada a riqueza enciclopédica de suas referências, de suas formas verbais, de sua mescla de gêneros, de seu acúmulo de piadas, trocadilhos, pilhérias, poemas galantes e trovas grosseiras, entremeados por documentos legais, tratados de alquimia, charadas obscuras e insultos de beira de calçada e tabernas medievais. 

Não fui o único a me sentir como se estivesse a ouvir a transcrição de um áudio gravado nas ruas de uma cidade europeia do século 16. 

Rabelais reinventou a língua francesa, enriqueceu-a com um vocabulário excrementício e sexualizado, razão primeira de seu banimento das escolas e das bibliotecas dos bem-pensantes, nos séculos imediatos à sua publicação. 

Contrário à opressão dos instintos naturais pela disciplina clerical, é possível que não se opusesse a uma Reforma integral da Igreja, mas nunca fez menção de deixá-la, de tornar-se um défroqué. Impossível imaginá-lo nas hostes calvinistas; seu visceral antipuritanismo seria uma barreira intransponível. 

Unindo a grosseria do monge medieval à do médico de aldeia, acostumado a lidar com gente inculta e acabando por assimilar-se aos costumes dessa gente, Rabelais foi um humanista sui generis, que, sem abandonar a cultura livresca, cito ainda Carpeaux, “saiu para o ar livre, descobrindo o povo, a realidade”. 

Defensor alegre da liberdade humana completa, Rabelais tem um lugar especial na história da humanidade. Seu objetivo maior era libertar as pessoas de superstições disseminadas na Idade Média, sem, contudo, ir contra o Evangelho e contestar o valor divino. Mas a “religião” que mais a sério levou foi a que acredita no homem e suas possibilidades, simbolizadas em seus dois gigantes.

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