Garimpeiros do mar

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2014 | 16h00

Roberto Linsker, antes de fotógrafo, é geólogo, antropólogo e gosta de escutar histórias. Nascido em São Paulo em 1964, viveu perto do Mar Mediterrâneo, na Espanha, dos 3 aos 16. Portanto, seu olhar para os pescadores começou longe do Brasil. Mas ele acredita que lá mesmo, em Málaga, onde morava, a semente para a história destas páginas já estava plantada. O eixo de sua vida, conta, é o movimento, a descoberta. Estudou geologia para tentar descobrir as feições do planeta - e como companheira dessa viagem escolheu a fotografia. Depois da geologia foi estudar antropologia. Queria ouvir as pessoas, não apenas ler os depoimentos das rochas. 

Em 1992, nos Lençóis Maranhenses, fotografou pela primeira vez alguns pescadores, mas seu projeto Mar de Homens ainda não estava constituído. Sedimentando uma camada aqui e outra ali ao longo de diversas viagens pelo Brasil, levou mais de cinco anos para perceber que era aquilo mesmo que queria fazer. Estava sobrevoando Bitupitá, no Ceará, e se emocionou ao ver do céu enormes currais de pesca em forma de coração, lá embaixo, no mar. Voltou para a cidade e começou. Durante oito anos, de 1997 a 2005, fotografaria pescadores pelo Brasil. 

As imagens rodaram o País ao longo de dez anos, em exposições e livro, e agora serão exibidas na DOC Galeria, de São Paulo, para uma despedida. Mas despedida é uma palavra triste para um marco tão importante. As imagens ampliadas estavam em uma caixa, fechadas, no escuro. E Linsker prefere o movimento. Decidiu, então, que elas voltarão ao lugar para onde nunca foram, mas exatamente de onde vieram: ficarão expostas, até quando durarem, nas casas dos pescadores em Bitupitá, de frente para o mar.

De onde veio a vontade de fotografar pescadores?

Além de geógrafo, fotógrafo e de ter estudado antropologia, eu também escalo. Como na escalada, gosto de etapas, de pensar os processos com começo, meio e fim. Preciso pensar a logística completa para entender o todo. Intuitivamente, esse projeto me remetia a minha vivência de criança e adolescente na Espanha, à beira-mar. Depois então de um primeiro encantamento com Bitupitá veio essa vontade de preparar um projeto mais sólido. Dividi o Brasil em áreas com geomorfologias diferentes, selecionei pontos em todo nosso litoral e fui atrás dessas histórias. Comecei no Amapá, passei por dunas, pelo Rio Amazonas, pelo São Francisco, pela Serra do Mar e percorri as mais longas praias até o Chuí. Viajei literalmente do Oiapoque ao Chuí.

O que você descobriu?

Que aquela divisão geomorfológica, no fundo, não fazia sentido. Tudo bem, eu tinha o mar do Amapá com ondas e oscilações de maré imensas, e o mar calmo do Sudeste. Mas demorei quase oito anos para perceber que, no fundo, a relação do homem que lida com o mar diariamente é a mesma, seja onde for. Percebi que o trabalho era mais de identidade, do nosso País como um todo e daqueles bravos homens que saem no começo da manhã e voltam no fim da tarde, em um barquinho, muitas vezes sozinhos. Vi que podemos ser diferentes e eles eram diferentes entre si, mas no fundo, muito iguais. Quanto mais percorri, mais vi os laços que nos ligavam. Fui me encantando ao encontrar o outro. 

Como você escolheu as fotos para o livro e a exposição?

No livro são 92 imagens e na exposição, 42. Cada uma foi escolhida porque tinha um significado. Fotografei tudo em filme. Revelava, fazia as folhas de contato e as guardava. Se depois de um tempo elas ainda me provocassem algo, eram escolhidas. 

Quem é esse pescador brasileiro?

Ele tem um quê de garimpeiro. Parece diferente, mas no fundo aquele homem acha que algum dia vai tirar a sorte grande que vai mudar sua vida, que vai ganhar um monte de dinheiro. Esse sentimento é diário e é o motor que os leva de volta ao mar todos as manhãs. Tem o prazer da pesca também. Eles vão empolgados logo cedo e o dia sempre acaba mais árduo do que imaginavam. Vejo o pescador como um homem íntegro e sonhador na sua vontade de transformar a própria realidade. Ele joga a rede no mar com muitos desejos e tece a própria rede cheia de vontades. No fim, minhas fotos sobre eles não são crítica social, nem tentativa de resgatar, manter e preservar essa pesca artesanal que talvez deixe de existir. São só uma declaração de amor a esses homens.

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