AMY DICKERSON/NYT
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Garotão forte

Nem milícias nem bombardeios barraram o sul-sudanês Ger Duany na corrida até Hollywood

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

08 Agosto 2015 | 16h00

Recrutado antes dos 10 anos de idade para lutar numa guerra que sequer entendia e obrigado a fugir sozinho e percorrer centenas de quilômetros à pé em uma das regiões mais pobres do mundo, simplesmente para sobreviver. A vida de Ger Duany tem sido uma longa caminhada. Do Sudão do Sul ao Quênia, passando pela Etiópia, o africano perambulou durante anos entre acampamentos de milícias, barracos e campos de batalha. Finalmente, aos 15 anos, ele recebeu uma chance: o status de refugiado nos Estados Unidos.

Pela primeira vez, ele iria para a escola. Pela primeira vez, poderia parar de correr. “Foi como ganhar uma nova vida”, contou Ger ao Estado. Ele fez parte da parcela mais pobre e desesperada da população. Mas se transformou em ator, modelo e, mais de uma década depois de fugir da guerra, é embaixador especial da ONU e uma das principais vozes pela paz em seu país. Até que chegasse a esse ponto, Ger quase só fez fugir.

Ele nasceu em 1978 no vilarejo de Akobo, no Sudão do Sul, e logo aos 8 anos teve de deixar o país, acossado por uma guerra. A numerosa família distribuiu-se pela África e Ger desembarcou na Etiópia, primeiro destino de uma longa caminhada. Foi também o primeiro percalço. O campo de refugiados que o acolheu era, na verdade, base de uma milícia. “Cada vez que a ONU aparecia, escondíamos as armas”, disse. “Aprendi a carregar uma arma antes de aprender a ler. O Ak 47, aliás, é muito fácil de usar.”

Em 1991, eclodiu o conflito entre Etiópia e Eritreia e não houve outra saída a não ser, novamente, botar o pé na estrada. Aos 13 anos, ele já não guardava sinais da infância. “Eu era um garotão forte que sabia correr rápido. Isso bastava.” Ger tentou voltar à terra natal, assim como milhares de outros meninos, que passaram a ser conhecidos como “garotos perdidos do Sudão”.

“Caminhei até perder todas as unhas dos dedos do pé”, contou. “O chão queimava os pés e poucos tinham sapatos. Para sobreviver a opção era essa.” Ger andou durante meses, atravessou estação seca e estação chuvosa. Os bombardeios no caminho, patrocinados pelo próprio governo do Sudão, obrigaram-no a mudar o rumo: seguiu para o Quênia, até o campo de refugiados de Dadaab, a 1.000 quilômetros de onde estava. Como mapa, apenas o curso do rio Nilo. “Passei semanas escondido na floresta, onde todos roubavam a todos.” Quando se deparava com cadáveres, em vez de se impressionar, ele se aproximava. Queria pegar os sapatos. “Quando conseguia dormir era dentro do rio, com o corpo na água e a cabeça apoiada em alguma pedra seca.”

Caminhou durante meses até chegar a Dadaab, um dos maiores campos de refugiados do mundo. Foi uma opção acertada. Aos 15 anos, Ger foi selecionado para um programa de reassentamentos de jovens refugiados nos Estados Unidos. Ele podia respirar sossegado: a correria acabara. Mesmo?

Agora era hora de o garoto acostumado à morte enfrentar o desajuste. “Apesar de fugir tanto, nunca me senti perdido. Ao pousar nos EUA, aí sim, pensei: ‘aqui estou perdido’.” Ger tem 1,90 metro e conseguiu encontrar-se nas quadras de basquete. “Foi como consegui entrar na universidade.”

Os chamativos traços do jovem ajudaram-no a tomar um novo rumo em 2004. O diretor David Russell buscava alguém para fazer o papel de um refugiado no filme Huckabees: A Vida é uma Comédia e escolheu o sul-sudanês. Em 2010 voltou a atuar sob direção de Russell, em O vencedor, e de lá para cá, já foram seis filmes e vários convites para atuar como modelo.

Entre um trabalho e outro, ele conseguiu retornar ao seu país. Em 2011, votou no referendo que marcou a independência do Sudão do Sul. Finalmente reencontrou os pais e alguns familiares, que ele define como “um retrato das guerras na África”. “Meu pai teve 63 filhos. A maioria está espalhada por campos de refugiados.” 

No ano passado, Ger gravou o filme que mais lhe tocou. Em A Boa Mentira, com Reese Witherspoon, ele interpretou o papel de si mesmo. “É um filme sobre os garotos perdidos do Sudão do Sul. Quando soube, não tive como não chorar.” Era parte de suas andanças, agora retratada nas telas.

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