Carlo Allegri/Reuters
Carlo Allegri/Reuters

Gay Talese documentou a extinção da privacidade em seu trabalho mais polêmico

Escritor e repórter de 90 anos é lembrado por obras como o perfil 'Frank Sinatra Está Resfriado' e a biografia do jornal The New York Times, 'O Reino e o Poder'

Matheus Lopes Quirino, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2022 | 16h00

Quando Gay Talese lançou em 2016 O Voyeur houve um estardalhaço na crítica norte-americana. Dentro do próprio jornalismo, discutiu-se os limites da apuração e as fronteiras entre ética e o profissionalismo que exige a conduta do repórter. Com exageros, acusavam o autor de clássicos como Honra Teu Pai, de cúmplice de Gerald Foos, protagonista da trama, como se, juntos, eles estivessem cometendo crimes abomináveis. 

Acontece que Talese e Foos se viram, no máximo, três vezes, embora tenham trocado cartas e telefonemas durante anos. Para refresco da memória, O Voyeur traça o perfil de Foos, dono de um pequeno hotel chamado Manor House, em Denver, e a fresta secreta instalada um dos quartos para espionar os hóspedes. A justificativa de Foos para elaborar um experimento (ilegal) sobre a sexualidade americana pode colocá-lo em pé de igualdade com um sociopata. O homem era absolutamente passivo em seu alçapão, como descreve Talese, e precisava se provar impassível, a ponto de persuadir o escritor a voar ao Colorado para ver a engenhoca. 

Gay Talese sabia no que estava se metendo e aceitou o desafio sem frio na barriga, a ponto de ele mesmo observar os hóspedes pela fresta, evidentemente, para comprovar que o artifício bizarro dava certo. Décadas depois, em 2015, o hotel foi demolido depois de comprado.

Talese, autor de A Mulher do Próximo, reportagem definitiva que se tornou leitura obrigatória do New Journalism (jornalismo literário, gênero que o autor ajudou a criar), colocou-se na linha de frente em suas investigações. Virou administrador de uma casa de massagens em Nova York para tentar construir um retrato fiel (e atraente) o mais perto possível das fontes, em sua crônica da permissividade da vida americana. Foi além: visitou comunidades naturistas, entrevistou mafiosos, arrancou segredos de políticos, celebridades e cidadãos comuns. 

Talese, filho de um alfaiate, nasceu em Nova Jersey em 7 de fevereiro de 1932. A elegância veio de berço (desde sempre Talese aparece de terno bem cortado, chapéu, lenço na lapela e abotoaduras), com o pequeno observando o trato dos pais com os clientes, a ouvir histórias, para depois as escrever e virar dono de uma prosa saborosa. Ele começou como mensageiro no New York Times, jornal que, anos mais tarde, segundo o autor, perderia o barato de publicar reportagens profundas e analíticas, o que o levou a trocá-lo pela revista Esquire, onde colaborou por anos. Seu período no Times serviu como passe livre para todo material que se encontra em O Reino e o Poder, biografia do jornal. De Talese, Fama e Anonimato, coletânea de artigos sobre a sociedade norte-americana, é uma espécie de bíblia para os estudantes de jornalismo. Ali está o perfil mais famoso do autor: Frank Sinatra Está Resfriado

Aos 90 anos, Gay Talese é um homem absolutamente analógico. Em uma entrevista publicada na Paris Review, a repórter desce as escadas da casa germinada em que o jornalista vive com sua mulher e editora, Nan, no Upper East Side, Nova York, e revela um cavalheiro cheio de manias, como escrever suas anotações em cartolinas de camisas sociais.

Ao traçar o perfil do QG de Talese, ela põe em xeque a pecha das “invencionices” atribuídas ao autor: seus arquivos são como um HD feito de quilos de celulose. Eram centenas, talvez milhares, de caixas de papelão abarrotadas com anotações, recortes, fotografias, xerox, cadernetas, entre outras evidências daquele desejo compulsivo de escrutinar a notícia por vários ângulos. 

Atualmente, são raras suas aparições e entrevistas, mas não é de hoje que o autor é considerado um visionário por colocar no chão todos os protocolos de uma sociedade segura, democrática, igualitária e limpinha. Talese expôs a hipocrisia dos puritanos e a mesquinharia do sistema em perfis publicados em jornais e revistas, como a New Yorker. Em seu último livro, ele alerta para a sociedade observada intermitentemente. E coloca em seu livro, respondendo aos críticos, acerca do que seria ética em nossos tempos, o quão ambígua se tornou a privacidade -- quando a todo momento há algum flash sendo disparado, sem consentimento, sem qualquer escrúpulo. 

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