Geddel e o sagrado direito à preguiça

Ministro da Integração Nacional já aparecia pouco no ministério. Aí resolveu diminuir o ritmo de trabalho

Marco Antonio Villa*, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2007 | 22h06

Paul Lafargue, genro de Karl Marx, publicou em 1880 o célebre O Direito à Preguiça. O livro trata da luta dos trabalhadores por oito horas de trabalho, oito horas de descanso e oito horas de lazer, bandeira histórica do movimento operário no século 19. Porém, no governo do presidente Lula, alguns ministros dão a impressão de ter somente lido o título do livro de Lafargue. Um deles é o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA). Tomou posse no dia 16 de março de 2007 no Ministério da Integração Nacional, pasta responsável pelo acompanhamento dos graves problemas do semi-árido nordestino que, no momento, tenta viabilizar a discutível transposição de parte das águas do Rio São Francisco. No discurso de posse disse que "a mim jamais faltou coragem e força de trabalho para encontrar soluções (para os problemas) e superá-los". Enfático, o ministro fez questão de citar Miguel de Cervantes e Raul Seixas, Fernando Pessoa e Gilberto Gil. Estranhas citações.Mas a vontade de trabalhar acabou só ficando no discurso. Pena. Se a posse foi numa sexta-feira, o primeiro dia de trabalho ocorreu somente na terça-feira. E para não ficar cansado, a agenda ministerial só identifica uma atividade, às 9 horas da manhã. No dia seguinte, certamente mais animado, teve três audiências pela manhã, depois um intervalo de cinco horas e, às 18 horas, outra audiência. Na quinta-feira (dia 22) teve três atividades. Sumiu por uma semana, até o dia 29. Trabalhou uma hora e meia pela manhã, parou três horas para o almoço e reservou uma hora para duas audiências. E foi tudo. Ou seja, em 15 dias do mês de março - do dia 16 ao dia 31 - apareceu quatro vezes no ministério, em um total aproximado de nove horas de trabalho. O otimismo nacional faz com que todos nós imaginemos que o ministro Geddel estava pouco habituado ao trabalho ministerial e, no mês seguinte, iria finalmente assumir o ministério. Ledo engano. Só apareceu duas vezes no ministério. Duas. No dia 11 despachou das 9 às 12 horas. Almoçou e às 14 horas deu mais uma audiência e depois foi embora. No dia seguinte chegou às 15 horas, deu duas audiências e antes das 18 horas já estava na rua. Portanto, em 30 dias, apareceu somente 2, dos quais trabalhou, no máximo, 7 horas. Em maio, a agenda identifica a primeira atividade no dia 22! Isso mesmo: nas primeiras três semanas o ministro esteve ausente. No dia 22 permaneceu duas horas e meia despachando. Interrompeu o trabalho às 12 horas, voltou as 15h30 e trabalhou mais uma hora e meia. No dia 23 o ritmo foi idêntico. Aí Geddel desapareceu de novo: ressurgiu no ministério uma semana depois, no dia 30 - e só teve um despacho, às 14 horas. Em junho só trabalhou entre os dias 11 a 16, isso mesmo, 6 dias, e o mês tem 30! Fez uma viagem pelo Rio São Francisco, claro que começando em Belo Horizonte e terminando em Salvador, onde mora. Em julho resolveu diminuir a carga de trabalho. Apareceu no ministério três dias (9, 10 e 31) em um total de seis horas. Preocupado, escrevi para o ministério e fui informado que o ministro estava em férias. Não entendi. Ou melhor, entendi. É uma espécie de padrão de governo: o ministro Mangabeira Unger assumiu a Secretaria de Planejamento de Longo Prazo, em junho, e imediatamente tirou duas semanas de férias, fato absolutamente insólito. A SPLP é tão de longo prazo que o site da secretaria até hoje não existe, mas cem cargos de assessores especiais foram criados e imediatamente ocupados. Sem alongar estes dados, o preocupante é que Ministério da Integração Nacional esteja sem ocupante efetivo. E isso em um momento que a seca se espalha pelo Nordeste. Segundo dados da Secretaria de Defesa Civil, em estado de emergência e de calamidade pública estão 542 municípios. A trágica liderança está com a Paraíba, com 145 municípios, seguida de perto pelo Ceará, com 130, e o Rio Grande do Norte, com 94. A burocracia para que o governo reconheça o estado de emergência é complexa e a vigência é de apenas 90 dias. Muitos prefeitos têm enorme dificuldade para renovar o pedido.Em vários municípios a agricultura está destruída e a pecuária resiste com dificuldade. Não há efetivamente atividade produtiva em grande parte do semi-árido. A população sobrevive da aposentadoria rural e do Bolsa-Família. Não há sequer água para o consumo doméstico. O governo não se interessou em apoiar o projeto de 1 milhão de cisternas, organizado pelas ONGs que atuam na região. Lula divulgou em 2005, como se fosse uma grande vitória, que o governo tinha feito uma parceria com a Febraban para construir 25 mil cisternas. As cisternas reservam água da chuva para consumo doméstico de uma família. Hoje, a população tem de comprar água - algumas gastam R$ 25 só para ter o mínimo para consumo humano. Não há nenhuma atuação organizada do governo federal que articule os diversos órgãos públicos que atuam na região. O Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) está sem atividade desde o final do século passado (foi criado em 1909). Contudo, pelo edital 16/2007, contratou um motorista, por um ano, para servir o escritório de Brasília por R$ 50 mil. Para que um escritório no Distrito Federal? Já a Sudene, por incrível que pareça, foi recriada pelo presidente Lula, como se ainda vivêssemos em plena década de 50. Continua sem nenhuma função executiva, porém pagando centenas de funcionários (o link tratando da questão não é sequer atualizado desde 2003). O Banco do Nordeste (que foi fundado em 1952) desenvolve diversas atividades que nada têm a ver com os objetivos para o qual foi criado. Hoje patrocina a edição de livros, shows, revistas e prêmios para concursos de jornalistas, como se o sertão vivesse em um mar de rosas. Em 2005, todos se lembram, o banco esteve envolvido no tristemente célebre episódio dos dólares na cueca (que até hoje não foi devidamente esclarecido). Além dos órgãos citados tem de ser lembrado o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, Embrapa, Chesf, Codevasf, etc. Vê-se que não falta presença do Estado ou recursos. Faltam projetos. Falta vontade de transformar a região, libertando o Nordeste da oligarquia (independente da coloração política) que apresa, que controla em proveito próprio a presença do Estado na região. Geddel é omisso, ausente e pouco afeito ao trabalho: a agenda do ministro (disponível na internet) é prova irrefutável. Mas, além da agenda, o mais importante é que o governo não tem um projeto para a região. A presença efetiva da União é condição indispensável para a mudança. E, infelizmente, a oposição não fica atrás: não tem a mínima idéia do que fazer. E ao sertanejo só resta pedir socorro. Nem migrar resolve mais sua situação. Os tempos da expansão econômica no sul - ou da Amazônia - são parte da história. *Marco Antonio Villa é historiador, professor da UFSCar e autor, entre outros livros, de Vida e Morte no Sertão - História das Secas no Nordeste nos Séculos 19 e 20 (Ática)

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