Genérico, porém único

O corpo sem gorduras tornou-se uma propriedade aristocrática. Como a riqueza e a fama, pertence apenas aos sortudos ou esforçados

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2008 | 11h24

A Mulher Samambaia estendeu seus ramos para a avenida. Persona do programa Pânico na TV, ela cantou "o meu carnaval ôôô" da escola paulistana Tom Maior, que enalteceu as empresas ecologicamente corretas em tudo. Danielle Souza foi representar a natureza da mulher brasileira. Paira a dúvida, porém, se não significou mais uma das fiéis samambaias de tronco malhado, peitudo e bundudo que dominam os desfiles. Samambaias que vingam como ideais de beleza. Escultura para copiar nas mesas de cirurgia plástica. Espécies-modelo. Corpo padrão. "Quanto mais se impõe o ideal de autonomia, mais aumenta a exigência de conformidade aos modelos sociais do corpo", afirma a antropóloga Mirian Goldenberg, organizadora do recém-lançado O Corpo como Capital (Estação das Letras e Cores). Quem investe na "boa forma", banalizada pela mídia, é desejado e admirado, mas não necessariamente feliz. Assume postos reais e por vezes imaginários. "Quanto vale o corpo na busca pela satisfação pessoal?", perguntam-se outros oito especialistas ouvidos pelo Aliás.O antropólogo Gilberto Freyre, em seu Modos de Homem, Modos de Mulher, de 1987, já anunciava: "Pode-se dizer da mulher que tende a ser, quanto a modas para seus vestidos, seus sapatos, seus penteados, um tanto maria-vai-com-as-outras". Criticava o desejo generalizado das senhouras de rejuvenescer à custa de cosméticos. Mas ele mesmo exaltava um padrão de beleza brasileira: mulher baixa, pele morena, cabelos negros, longos e crespos, cintura afunilada, bunda grande, peitos pequenos. A Sonia Braga, portanto. Queria fazer o contraponto com as alvas, longilíneas e loiras, de cabelos "arianamente lisos", um modelo macaqueado da Europa. A Vera Fischer, à época. A Gisele Bündchen, hoje.Na planilha de Freyre certamente não constava a massa de silicones que povoa o carnaval. Lançado na avenida, como lembra Mirian Goldenberg, ele virou regra. Até quem é "da comunidade" tem. E, se não tem, parece que tem. "Existe um corpo ideal que virou uma lente, por meio da qual enxergamos além da realidade", explica Mirian. Ela quer dizer que, de perto, nem todos os peitos, quadris e bumbuns são esculpidos no molde, mas nossa câmera interna entende que sim. A câmera de TV e as revistas de famosidades também dão seu pitaco ao reprisar o padrão. Para Hans Gumbrecht, professor de literatura comparada na Universidade de Stanford, nos EUA, e autor de Elogio da Beleza Atlética (Companhia das Letras), a mídia iguala os gostos da classe média. Se bem que, ao gosto dele, "os minibiquínis são quase antiquados, um ideal dos tempos áureos da Playboy".Aqui, o vestuário do carnaval está mais para alegoria, por vezes descartada. "O corpo é a verdadeira roupa", define Mirian Goldenberg. Adriana Bombom, rainha de bateria da Tom Maior e também da Portela, veste um biquíni adornado com pingentes, "para ficar menos vulgar". Mas também não vai com tudo tapadinho. Reflete: se está podendo, por que se cobrir? "É uma hipocrisia no Brasil. Há liberdade para o corpo na avenida, mas nos 8 mil quilômetros de litoral não se aceita um topless", compara a editora de moda Lilian Pacce. "Será que brasileiro só agüenta a nudez do que entende como belo?"Bombom diz que pode porque se sacrifica. Três meses antes do desfile, ela se impõe uma dieta diária de oito claras de ovo e 50 gramas de batata cozida de duas em duas horas, adicionados de suplementos e vitaminas, galões d?água e mais 40 minutos de exercício. Sai vitoriosa aos olhos de quem vê na banha caída sinal de desleixo próprio, coisa de preguiçoso, gente fraca. O médico Flávio Gikovate, um estudioso da felicidade, destaca que, antigamente, magreza era sinal de pobreza. Quem era de uma classe social mais baixa encolhia a barriga por falta de opção. Hoje a pouca gordura corpórea se tornou uma propriedade aristocrática. Pertence aos sortudos ou esforçados, como a riqueza e a fama. Assim, os menos favorecidos perdem, aparentemente, grandes chances de ascender socialmente. Perdem felicidade. Mas por que a beleza genérica precisa ser magra? O sociólogo francês Pierre Bourdieu entende que a dominação masculina ditou essa condição. A mulher existe primeiro pelo olhar do homem, que a deseja delicada, submissa, fina, magra. Não à toa elas criticam as regiões de seu corpo que percebem como grandes demais, enquanto eles se irritam com as partes que consideram pequenas além da conta. Aliás, para quem acha que a vaidade masculina é fenômeno recente, a psicanalista Maria Rita Kehl avisa: "Os homens sempre foram vaidosos. A novidade é que estão tão narcisistas que pouco se interessam pelas mulheres. A conquista de uma mulher bonita tem como intenção a confirmação do poder fálico". A neura para se encaixar na categoria "fêmea com pouca gordura" pode explicar, em parte, por que somos líderes mundiais em uso de medicamentos para emagrecer. No Relatório Anual da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes, órgão da ONU, divulgado há um ano e referente a 2005, 98,6% do fenproporex e 89,5% da anfepramona, duas das substâncias inibidoras de apetite mais usadas no globo, foram produzidos no Brasil e a maior parte consumida aqui. Confirmando a estatística, estudo divulgado pela Secretaria Nacional Antidrogas em novembro de 2007 revelou que o brasileiro engole quase 90% dos medicamentos para emagrecer feitos no mundo.?PRECISO VER CRISTINA?Para contrabalançar, a bunda. Não aquela murcha, mas a avantajada, de tanajura. Em um questionário aplicado a 444 homens, Mirian Goldenberg confirmou o que Tim Maia cantou pelos sete mares: os homens precisam ver Cristina. A Cristina de Tim Maia era uma mulata voluptuosa, empregada doméstica de uma amiga, que tinha (a mulata) uma super retaguarda. O compositor saía disparado do Grajaú até a cobertura da amiga em Copacabana, aonde chegava trôpego e cantarolando safadamente: "Preciso ver Cristina". Pois então, o bumbum está no topo da pesquisa de Mirian. Abaixo vêm o corpo como um todo e então os seios. Tudo liso, sem marcas indesejáveis como os sulcos das estrias ou o efeito casca de laranja da celulite. A antropóloga recorre a Bordieu para explicar a tara pelo traseiro das mulheres. Segundo o francês, a parte é sinal preponderante de natureza, sexualidade, animalidade, inferioridade. Do lado oposto, as mulheres apontam o tórax como distintivo de maior atração nos homens, seguido do corpo como um todo e do olhar. O único até então rei de bateria, Daniel Manzioni, que seguiu à frente dos ritmistas da Acadêmicos de São Paulo, malhou bastante o peitoral e mal comeu carboidrato para manter os músculos em dia. Mais do que proteção, ao eleger essa parte do corpo, as mulheres falam de hemisfério norte, de cabeça, de inteligência. "Assim como no caso da magreza", completa Mirian, "é como se a cultura inscrevesse no corpo as posições que homens e mulheres ocupam na sociedade."Quando a gordura não cede ao medicamento, nem as coxas à malhação, nem as rugas aos cosméticos, a brasileira e o brasileiro entram na faca. Ou entram na faca direto mesmo, sem pudores. A última pesquisa da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica foi divulgada em 2004 e relata o seguinte: 70% das operações estéticas foram feitas em mulheres. De 2002 a 2003, aumentou em 43% o número de jovens que se submetem à plástica, 15% deles com menos de 18 anos. Quanto à categoria, 54% são lipoaspiração, 32% contornam as mamas e 27% a face. Nos últimos 12 anos, o implante de prótese de silicone cresceu 360%, perdendo apenas para a lipo. Nos últimos dez, o número de cirurgias nos seios entre adolescentes aumentou 300%. No geral, perdemos apenas para os EUA, considerando que as americanas ganham 14 vezes mais dinheiro que as brasileiras.Em Making the Body Beautiful (Tornando o Corpo Bonito), o americano Sander Gilman marca a origem da cirurgia estética na epidemia de sífilis do século 16, quando se inventaram técnicas de enxerto de pele para reparar a degeneração do nariz dos sifilíticos. Três séculos depois, cirurgiões criaram procedimentos para mascarar o nariz novamente, mas o nariz amassado dos irlandeses, visto como marca inerente à raça. Daí Gilman associar as cirurgias plásticas à impostura, ao se fazer passar pelo que não se é. No centenário da imigração japonesa, a modelo Ângela Bismarchi quer se passar pela gueixa Madame Butterfly na função de rainha da bateria da Porto da Pedra. Desfila de hoje para amanhã com olhos puxados no bisturi. Até lá, seu nariz restaurado duas vezes apoiará uma máscara ocular de cristais, para manter o suspense. Essa é a 42ª cirurgia estética de Ângela. Entre as incisões, aumentou as mamas cinco vezes, o bumbum duas, furou o queixo mais duas e alterou a intimidade outra dupla de vezes. Ela quer tirar o recorde da americana Cindy Jackson, que passou por 47 intervenções. A modelo, detida pelas autoridades em 2000 por ter desfilado nua com a bandeira brasileira estampada no corpo e em 2002 por ter "homenageado" o presidente Lula com as bochechas e o bigode dele desenhadas em si mesma, também nua em pêlo, foi objeto de comentário de sites estrangeiros pelos olhos puxados. O blog Dlisted disse, sem piedade, que a última cirurgia foi "a mais idiota que ela fez".Guinness à parte, o psicanalista Jorge Forbes usa o caso para tratar de identidade e da reação do povo às mudanças radicais. Para Forbes, a identidade atual é múltipla. "Foi-se a época em que era relacionada a um único valor." Hoje as pessoas se transformam e se reafirmam mudando roupa, cabelo, leituras, vocabulário. Quando, entretanto, alguém intervém sobre o corpo por um aspecto "leviano", pequeno no tempo e na importância, quebra o pacto social. Até pouco tempo, lembra Forbes, existiam limites naturais à manipulação. Se mexesse demais no corpo, a pessoa poderia morrer. Mas a tecnologia se superou. E, se a natureza não bota freio nisso, o homem o faz. Ainda que Ângela Bismarchi diga que o corpo é dela, o povo rebate que ele pertence à humanidade. "Submeter-se a riscos de infecção e afins para modificar a aparência por motivo temporário, que a priori duraria até a quarta de cinzas, é arriscar em grande potência a sobrevivência do ser humano", afirma.Ivo Pitanguy, o cirurgião dos cirurgiões plásticos brasileiros, classifica a operação estética como ramo nobre da cirurgia geral, "pois busca restituir ao corpo em sofrimento sua função e dignidade". Aos que passam por sua clínica implorando o queixo de uma celebridade acoplado à barriga de outra, ele vê o que pode fazer. Dependendo do caso, não opera, mas encaminha para tratamento psicológico. Em novembro, no lançamento de sua autobiografia, Aprendiz do Tempo (Nova Fronteira), Pitanguy disse que a última moda é a boca à Angelina Jolie. Mas confidenciou: "A Angelina é uma mulher bonita, mas da boca eu não gosto. Fazer boca grande com enchimento fica feio". O gosto mediano vai na mão contrária. A atriz lidera a preferência das mulheres que querem fazer plástica nos lábios. Se o nariz não agrada, dá-lhe Nicole Kidman. A bunda dos sonhos é a de Jennifer Lopez, mas Juliana Paes também ganha 10 nesse quesito. Essas referências constam de pesquisa da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética com 20 mil cirurgiões plásticos de 84 países, entre eles o Brasil, divulgada nessa semana. Ninguém cogitou o nome de Preta Gil, a bocuda da vez na reclamação contra a tirania dos corpos esbeltos. Preta levou um caldo dia desses no mar. "Disseram que eu sou uma baleia e fizeram uma montagem na internet com um trator amarrado a mim, me puxando da areia." Ela vai processar o autor da montagem. "Quando era jovem, queria ser magra, muitas vezes indo contra a minha natureza. Nem todo mundo tem estrutura para viver esse massacre. Não sou gorda, sou uma referência."Fica para os especialistas o dilema da samambaia. Até onde buscar um corpo perfeito é eficaz para o sucesso no ambiente que se quer conquistar? Para Forbes, o corpo padrão vale pouco sem o charme. "Hoje em dia, ou a pessoa oferece um efeito-surpresa, ou é genérica." Quem deseja fugir da cultura do rebanho precisa saber quem é, requisita a filósofa Marcia Tiburi. O fotógrafo J. R. Duran resgata São Tomás de Aquino para dizer que tudo está na intenção, "não só de quem se expõe mas também de quem observa". No carnaval, duas pessoas podem estar despidas, mas uma é vulgar e outra, não. O que torna uma mais cativante, ainda que ambas tenham as medidas parecidas, é a linguagem do corpo. Autônoma, exclusiva, única.

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