Gênio da urna? Menos...

Na verdade, não foi o festejado blogueiro do 'New York Times' que acertou nos prognósticos: foram os institutos de pesquisa

DANIEL ENGBER/SLATE, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h09

Saiu o resultado: Nate Silver ganhou de lavada a eleição presidencial de 2012. A fórmula mágica que o estatístico criou para fazer previsões eleitorais, tão criticada em certas paragens nas últimas semanas, parece ter permitido que o autor do blog Five Thirty Eight, hospedado no site do New York Times, acertasse o resultado da eleição em todos os Estados americanos - e 50 acertos em 50 não é para qualquer um.

Agora o feed do meu Twitter não para de anunciar a coroação de Silver como o Imperador da Matemática, o todo-poderoso da nata da análise. Mas, esperem um pouco - estão dizendo que foi ainda mais do que isso: seus acertos representaram uma vitória para os blogueiros, um triunfo da racionalidade. Silver provou que os que se deixaram levar pela bile estavam errados! Mostrou que a ciência estava com a razão! O cara tirou a sorte grande ou o quê?

Ocorre que esse entusiasmo todo com o poder da estatística repousa sobre um mal-entendido. Não foi o blogueiro do New York Times que acertou em seus prognósticos. Foram os institutos de pesquisa. Os elogiados palpites de Silver - aqueles em que ele teve um acerto de 100% no dia da eleição - foram calculados a partir das médias dos dados gerados por sondagens com bases amostrais estaduais.

Segundo os números finais do Five Thirty Eight, Obama tinha vantagem de 1,3% na Virgínia, 3,6% em Ohio, 3,6% em Nevada e 1,9% no Colorado. O democrata venceu a eleição em todos esses Estados, do mesmo modo que saiu vitorioso nos outros Estados onde as pesquisas feitas com amostragens estaduais diziam que ele venceria.

Isso não quer dizer que o modelo mágico concebido por Silver funcione, mas sim que as pesquisas de opinião funcionam, desde que empreguem uma boa metodologia e sejam realizadas repetidas vezes.

A arte de extrair médias não é simples, diga-se em defesa de Silver. Não se trata apenas de vasculhar as notícias no Google e somar todos os números que aparecerem. Para chegar a uma soma válida, Silver determina quais pesquisas devem entrar em sua análise, e em seguida atribui a elas pesos distintos, segundo a percepção que tem de sua confiabilidade. Pode ser que ele seja muito bom nisso, mas outros analistas que recorrem a modelos estatísticos fazem mais ou menos a mesma coisa, e obtêm médias semelhantes. É verdade que Silver mostrava Obama na frente, mas os sites RealClearPolitics e Talking Points também o faziam; e nos Estados onde ele dizia que Romney ganharia, eles também indicavam a vitória do republicano. "Nossos prognósticos estaduais são muito similares aos elaborados por nossos concorrentes", escreveu Silver num post de duas semanas atrás com o título "As médias das sondagens estaduais em geral são um indicador muito confiável para determinar o resultado da eleição". E essas previsões se confirmaram, como costuma acontecer.

De modo que apontar o vencedor Estado por Estado era a parte mais fácil da coisa. Qualquer um que analisasse os dados teria feito as mesmas projeções. Mas o modelo de Silver oferecia mais do que isso: ele indicava o grau de segurança que o estatístico tinha nas previsões que fazia para cada Estado.

O fato de que Obama liderasse as pesquisas em Ohio tornava seu favoritismo óbvio, mas e se essas pesquisas estivessem erradas? Que risco havia em confiar em médias de âmbito estadual? Essa foi a engenhosa contribuição de Silver: com base em alguns outros fatores, como tendências eleitorais e características demográficas locais, ele atribuía uma probabilidade a esse risco.

Tome-se o exemplo da Virgínia, onde Obama tinha uma vantagem de 1,3%. Dizer que o candidato democrata venceria a eleição no Estado era moleza, já que era isso que as pesquisas indicavam. Mas Silver usou sua fórmula secreta para calcular a probabilidade de que essas pesquisas estivessem erradas. Segundo seus cálculos, o risco era de 21%, o que significava que as chances de Obama vencer no Estado eram de aproximadamente 4 para 1.

E o que os resultados da eleição nos dizem sobre a confiabilidade do modelo de Silver? Não muito mais.

O fato de que Obama tenha sido vitorioso na Virgínia leva água para o moinho dos prognósticos feitos com base em médias de sondagens eleitorais. De fato, ele parece ter ficado alguns pontos porcentuais à frente de Romney, que é mais ou menos o que se previa. Mas nunca saberemos sobre aquela outra parte: Obama tinha realmente 79% de chance de vencer?

Para avaliar o acerto dessa estimativa, seria preciso transformar a eleição numa espécie de experimento laboratorial, repetindo-a 10 mil vezes para verificar com que frequência Obama venceria.

Como isso é impossível, o jeito é conviver com a incerteza. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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