Daniel Aguilar/REUTERS
Daniel Aguilar/REUTERS

Gênio do Microconto, Augusto Monterroso chega ao centenário

Projetado por 'O dinossauro', autor influenciou escritores contemporâneos, como Marcelino Freire

Bruna Meneguetti, Especial para o Estadão

21 de dezembro de 2021 | 10h00

Quando menos perceberam, o centenário havia chegado. No caso, o do escritor Augusto Monterroso, que nasceu em Honduras em 21 de dezembro de 1921, viveu a infância e juventude na Guatemala e se exilou no México em 1944, ao fugir da ditadura de Jorge Ubico. Sem dúvida, seu microconto mais célebre é O dinossauro: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. 

O dinossauro “é talvez o microconto mais conhecido, estudado, citado e parodiado de toda a história do gênero”, segundo Vanderlei de Souza na tese Pequeno como um dinossauro: microconto, gênero autônomo. Augusto Monterroso publicou o microconto em 1959 em seu primeiro livro, Obras completas (e outros contos). Na época, a narrativa era a mais breve da literatura hispano-americana e o projetou internacionalmente. 

De acordo com um ensaio do escritor mexicano Lauro Zavala, é provável que o dinossauro de Monterroso faça referência justamente a Ubico. Por outro lado, também pode apresentar uma intertextualidade com o conto O sonho, do escritor argentino Horacio Quiroga, cujo protagonista dorme ao perseguir o animal. 

Em entrevista ao Aliás, a escritora e titular de literatura brasileira na Unicamp Vilma Arêas dá um palpite mais arriscado: “Haverá algum traço de aproximação entre A Metamorfose, com seu ‘inseto monstruoso’  e o dinossauro de Monterroso? Afinal, Kafka afirma: ‘Isto não é um sonho’, mas quando despertou o inseto monstruoso estava ali, era ele próprio”. Apesar das especulações, quando questionado sobre o que O dinossauro queria dizer, Monterroso preferia não explicar. 

É só a partir da publicação de A ovelha negra (e demais fábulas), que Monterroso chega ao Brasil. O livro foi traduzido por Millôr Fernandes e teve duas edições: a primeira saiu em 1983, pela Record — 14 anos depois da publicação original — e a segunda em 2014, pela Cosac Naify. “As fábulas são funestas e violentas”, diz Arêas, “por isso Gabriel García Márquez disse que temos de ler Monterroso com ‘mãos ao alto’ (‘con las manos en alto’)”.  

As narrativas curtas de Monterroso carregam altas doses de ironia, sátira e sarcasmo. Para ele, a imperfeição e o silêncio faziam parte da escrita. Talvez seus textos sejam curtos em resposta à repressão que viveu. Para Arêas, as narrativas “são altamente complexas, pois nelas vemos entrelaçadas uma reflexão radical sobre literatura e a política trágica das sociedades sul-americanas”. 

É o que se nota no conto Mister Taylor, em que Monterroso imagina que cabeças reduzidas de pessoas começam a ser produzidas e exportadas em escala industrial, mas a situação vira um problema quando a demanda é maior do que a taxa de mortalidade local. O texto, escrito por volta de 1952, ironiza a intervenção norte-americana na Guatemala.  

No Brasil, Monterroso segue influenciando autores como Marcelino Freire, que em 2004, a partir de O dinossauro, organizou a antologia Os cem menores contos brasileiros do século (Ateliê Editorial), composto por contos de até 50 letras. “Monterroso me ensinou que ‘sem-palavras valem mais do que cem’. É preciso dizer menos para dizer mais. A toda hora o ‘dinossauro’ está nos acordando para essa lição”, afirma Freire. 

Questionado sobre o motivo que faz os microcontos serem tão populares, Freire explica: “A Bíblia é escrita em versículos. Machado de Assis escrevia capítulos curtíssimos. Kafka fez seus microcontos. Micronarrativas é o que lemos nos Twitters, nos Instagrans. A vida é curta feito um microconto”. Já para Nanete Neves, jornalista, escritora e editora, “assim como no poema, cada palavra tem peso e diversas camadas de interpretação. Nisso, Monterroso é quase uma oportunidade de transgressão”, declara. 

Para o escritor André Ricardo Aguiar, que publica microcontos quase que diariamente no Instagram, o maior desafio é “garantir o máximo de sentido com o mínimo de palavras. Convém, entender o que fica e o que sai para que tais efeitos perdurem”.

Com o centenário de Monterroso, a esperança é que cada vez mais microcontos de autores diversos sejam publicados e que outros livros do autor sejam traduzidos. No Brasil, atualmente há apenas publicações antigas, como o já citado A ovelha negra (e demais fábulas) e a única novela do autor: O resto é silêncio, publicado em 2011, pela Editora Novo Século. Nesse sentido, Vilma Arêas, em parceria com Samuel Titan, promete uma nova tradução em breve: “Esperem e verão, é uma promessa nossa para levantar os ânimos”, afirma.  

A Convite do Aliás, autores enviaram microcontos em homenagem a Augusto Monterroso

 

Extinto

“Quando acordou (ainda insone, barba por fazer, Monterroso dirigindo-se à mesa, uma bagunça, a janela arrombada, papéis no chão, pegadas...) o dinossauro deveria estar lá.”

André Ricardo Aguiar, escritor — @andrericardoaguiar   

“Ainda sonolenta, mas não saciada de todo, troquei a pilha e botei o animal para trabalhar outra vez.”

Nanete Neves, jornalista, escritora e editora. 

 

“A saudade já estava aqui quando eu cheguei.”

Marcelino Freire, escritor


 

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