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Genocídio americano

Terríveis eventos históricos sempre levam a grandes mudanças. Mas por que tudo fica igual depois de uma matança de inocentes nos EUA?

Lee Siegel, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2016 | 06h00

Ultimamente, os americanos se tornaram afeiçoados ao uso do termo “segurança armada” em vez de “controle de armas”. A simples existência do eufemismo politicamente correto é uma prova de que a ideia de restringir o acesso às armas por qualquer meio significativo e consequente nunca vai acontecer. Assassinos em massa, que tentam não atirar em si mesmos ou em seus entes queridos antes de concluírem suas matanças, também estão interessados na “segurança armada”.

Meus companheiros americanos deveriam parar de esperar que leis sejam criadas para conter esta infindável profusão de armas. Deveriam parar de se enganar com a crença de que – por intervenção divina em nosso semialquebrado sistema político – a verificação de antecedentes para potenciais proprietários de armas se transforme em lei e que armas semiautomáticas sejam proibidas. Os americanos devem aceitar o fato de que estamos vivendo um estado de genocídio. Ao contrário de outros genocídios da História, os nossos não vão terminar. Em vez de fingir que a questão vai desaparecer num dia desses, temos de começar a aprender a viver com isso e a nos proteger.

Terríveis eventos históricos quase sempre levam a grandes mudanças. A Depressão, por exemplo, deu aos americanos as proteções sociais do New Deal e da seguridade social. A Segunda Guerra Mundial teve como efeito a substituição das oligarquias da Europa ocidental por governos socialistas democráticos.

Mas o assassinato, com um rifle semiautomático, de 20 crianças do ensino básico e de seis professores em Newtown, Connecticut, três anos atrás não levou a qualquer mudança substancial.

Ainda é possível comprar o tipo de arma usada para matar aquelas 20 crianças em praticamente qualquer canto do país. Ainda é possível adquirir um cartucho de grande capacidade para colocar em sua arma. Ainda é possível comprar a quantidade de munição desejada pela internet. Na maioria dos Estados americanos, ainda é possível comprar um rifle semiautomático sem verificação de antecedentes.

Pense a respeito. Vinte crianças foram assassinadas em tempos de paz. Vinte crianças foram assassinadas em tempos de paz. Num país sensato e racional, tal evento teria transformado a vida das pessoas. Mas nenhuma alteração significativa aconteceu. Nada de relevante. Ainda vibramos com a violência armada nas telas. Ainda permitimos sermos governados por pessoas que não se importam nem um pouco com a matança implacável de inocentes por armas de fogo.

O mais inacreditável de tudo isso é que ainda permitimos que nossos companheiros americanos sejam mortos a tiros a cada dia, sem parar. Desde Newtown, acontece um tiroteio em massa após o outro. Ao mesmo tempo, os disparos de um indivíduo contra outro são tão numerosos que a maioria deles não é relatada pela mídia.

A continuidade da violência armada sem precedente numa sociedade que se sente tão consternada pela Guerra Civil é tão previsível quanto repugnante. Se o assassinato de 20 crianças não incita uma profunda alteração social e política, nada o fará. As coisas chegaram a tal estado de absurdidade que muitas pessoas se dividiram a respeito do tipo de violência armada que estão dispostas a tolerar.

Condene os ataques armados em Paris e San Bernardino para os liberais e eles irão, de forma indignada, lembrar dos massacres em Charleston e Colorado Springs. Condene os massacres de Charleston e Colorado Springs para conversadores e eles irão, de forma indignada, lembrar os disparos feitos em Paris e San Bernardino. Em vez de levantarem-se em fúria contra a violência armada, estamos nos tornando mais sutis, refinados e discriminatórios a respeito da questão.

A grande bênção da vida é que as pessoas podem se acostumar com quase tudo. Mas esta é também a grande maldição da vida. Nossa passividade em relação à violência armada é uma maldição. Estamos no processo de padronizar nosso genocídio americano.

Obviamente, devemos manter a esperança e continuar a tentar restringir o acesso a armas. Mas o tipo de guerra civil que faria nossa verdadeira Guerra Civil parecer um jogo de beisebol, esta loucura, febre e amor pelas armas, juntamente com centenas de milhões de armas, sempre estará conosco.

A coisa mais lógica a se fazer, tendo em vista nossas circunstâncias, é enfrentar a realidade e parar de nos distrairmos com delírios irracionais de sanidade coletiva. Precisamos nos adaptar a uma situação permanente. Precisamos nos adaptar a uma situação na qual a matança desenfreada com armas é um meio de vida.

Felizmente, algumas companhias empreendedoras estão, de verdade, fazendo isso. A esse respeito há, pelo menos, um raio de esperança. Uma empresa está vendendo para escolas lousas brancas que os professores podem usar para ensinar matemática e inglês em um minuto e que se transformam em escudos à prova de balas no momento seguinte. Outra companhia vende cobertores à prova de bala para sonecas no jardim da infância. Mochilas blindadas também estão disponíveis. Agora pode-se comprar um conjunto de plugues para aquelas ocasiões em que você é baleado, mas não tem tempo de chegar a um hospital antes de sangrar até a morte. Estou particularmente animado com isso. Pode-se levar os plugues para onde você for.

Todas são inovações animadoras. Elas são exemplos da ingenuidade americana e do empreendedorismo, na melhor das hipóteses. Mas elas não vão longe o suficiente. Da mesma forma há uma lista de desejos – ao alcance do engenho americano – de proteção de última geração para nossos entes queridos e para nós mesmos. Estes não são fantasias.

Se superarmos nossas diferenças e trabalharmos juntos, podemos chegar lá: revestimentos de Kevlar, cirurgicamente implantados para todos os principais órgãos; aparelhos ortodônticos antibalísticos para crianças; treinamento subsidiado pelo governo sobre como responder quando você for questionado, por um homem armado, se é cristão, judeu ou muçulmano, dependendo do contexto cultural da pessoa que estiver realizando o ataque; implantes digitais que irão, no caso de você ser assassinado durante um tiroteio, enviar alertas automáticos para seus amigos no Facebook e seus seguidores no Twitter, notificando que você morreu.

E para o fatídico dia no qual cada americano será proprietário de uma arma: artilharia doméstica, em dezenas de cores, padrões e estilos; irrigadores de jardim na forma de metralhadoras giratórias; smartphones que convertem, ao toque de um botão, em smartbombas; cápsulas de cianeto – incluídas na maioria dos planos de prescrição de medicamentos – para serem usadas no caso de você ser capturado por um vizinho hostil.

E, finalmente, um superavançado kit, estilo faça você mesmo, para se transformar num cidadão de outro país, porque nosso genocídio americano é uma atrocidade histórica, uma vergonha aos olhos do mundo. Na Síria, as pessoas matam porque estão em guerra, elas não matam em tempos de paz como nós fazemos. Trata-se de uma doença no coração de nosso país que vai, no final, nos destruir a todos. / TRADUÇÃO DE PRISCILA ARONE

LEE SIEGEL É ESCRITOR E ENSAÍSTA AMERICANO, ESCREVE NO JORNAL THE NEW YORK TIMES E EM REVISTAS COMO NEW YORKER E THE NATION. É TAMBÉM AUTOR DE VOCÊ ESTÁ FALANDO SÉRIO? (PANDA BOOKS)

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