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Georg Simmel, mestre de Walter Benjamin, tem ensaios lançados no Brasil

'Cultura Filosófica' mostra como o mestre de Walter Benjamin usava o cotidiano para navegar entre a filosofia, a sociologia e a estética

Gutemberg Medeiros*, Especial para o Estado

06 de março de 2021 | 15h00

Os 60 anos de morte de Walter Benjamin em 2020 traduziu-se em lançamentos, reedições e lives a expressar a sua presença nos mais diversos ramos de conhecimento. Momento mais do que propício para ler a primeira edição brasileira da coletânea de ensaios Cultura Filosófica, única organizada por Georg Simmel (Editora 34) na tradução competente de Lenin Bicudo Bárbara. Benjamin não apenas foi aluno de Simmel, mas o mestre está presente em boa parte de sua obra. Como um dos fundadores da Sociologia alemã ao lado de Max Weber, provavelmente foi primeiro a dar verdadeiro cavalo de pau na filosofia Ocidental ao deixar a tradição dos modelos sistêmicos construídos a partir de conceitos ao erguer ampla produção basicamente a partir de ensaios e de elementos da vida cotidiana. A coletânea vem se somar a outra organizada por Jessé Souza e Berthold Öelze (Editora da UNB, 2014). 

O berlinense Simmel (1858-1918) foi um dos pensadores mais populares de sua época entre final do século 19 e começo do 20 justamente por sua produção ensaística completamente inserida no melhor do gênero inaugurado por Michel de Montaigne, aliando a refinada carpintaria de texto ao teor inclusivo atraindo leitores interessados e não iniciados. A sua matéria prima foi a Modernidade e seu palco a Metrópole, analisando as suas mais diversas manifestações e ritmo frenético. E justamente o ensaio foi o mais hábil a captar este cenário feito de fragmentos em seu complexo puzzle, analisando o que realmente é “moderno” na modernidade ocidental na esteira de Charles Baudelaire. Além de Benjamin, o seu pensamento está impresso em autores dos mais variados matizes como György Lukács, Ortega y Gasset, Siegfried Kracauer, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni e – de forma velada – no aluno de Weber, o brasileiro Sérgio Buarque de Holanda.

Quando publicou Cultura Filosófica em Leipzig (1911), Simmel tinha a sua popularidade alicerçada em mais de 100 artigos e ensaios. Não apenas em alemão, mas em jornais e revistas em francês, inglês, russo e italiano. Sua inserção também foi beneficiada pela áurea fase das conferências que lotavam teatros para ouvir pensadores e escritores em Berlim e Viena, concorrendo com o jornalista e crítico Karl Kraus – pouco publicada no Brasil a sua arrojada reflexão igualmente sobre a Modernidade. 

Na rica introdução de Leopoldo Waizbort – autor de As Aventuras de Georg Simmel (Editora 34, 2013), esta produção é central na vasta obra do autor ao apresentar um modelo de pensamento, pois transita entre a sociologia, filosofia e estética ao localizar determinado espaço dito como “cultura filosófica” trilhando caminho próprio em relação às tradições alemães até então, “sem se fixar em lugar algum, sempre em busca de algo novo, sempre penetrando em novos recantos” – atendo a inquirir seu tempo. Tal mobilidade materializava a noção grega de skepsis, dúvida filosófica quanto à realidade objetiva dos fenômenos, perspectiva ou atitude cética. Pois o lugar desta produção e quase toda a de Simmel É o exercício da skepsis reside no gênero ensaístico. Como destaca Waizbort, este pensamento encapsulado é posição mestra, caminho percorrido entre desvios e meandros, onde o que menos importa é o ponto de chegada, mas o percurso desvelado. 

A seleta é composta de seis blocos temáticos. O primeiro é intitulado Para uma Psicologia Filosófica com os textos A Aventura e A Moda. Este é um dos mais presentes em publicações de ou sobre Simmel, causou tanto impacto a ponto de ser citado várias vezes em editorias femininas nos jornais diários de São Paulo e Rio de Janeiro, entre as décadas de 1930 e 1950. Simmel alude à tendência da imitação seja como hereditariedade psicológica ou transferência da vida do grupo para a individual. A moda é compreendida como manifestação universal na história da espécie humana, ao proporcionar o universal em traduzir a conduta individual como exemplo. Ao mesmo tempo em que satisfaz a necessidade de diferenciação quando a pessoa se destaca do grupo. Observa ainda como as modas são sempre de classe social, sendo que as camadas superiores a abandonam no momento da apropriação das classes subalternas. 

O bloco seguinte é Para uma Filosofia dos Sexos com os ensaios O Relativo Absoluto no Problema dos Sexos e A Coqueteria. Nesta investigação, Simmel parte da lição insuficiente de Platão sobre o amor, sendo este sentimento uma etapa intermediária entre o ter e não-ter e emerge nos mais variados nuances da arte de flertar, englobando linguagens específicas no palco social. 

Especialistas na obra de Benjamin acreditam que o diálogo mais marcante entre ele e Simmel foi no campo da estética, tema trabalhado no terceiro bloco Para a Estética com A Asa do Jarro, A Ruína e Os Alpes e o bloco seguinte Sobre Personalidades Estéticas dedicado a Michelangelo e Rodin. Por exemplo, ele parte do caso singular e concreto do papel de uma asa de jarro para pensar os rumos da estética contemporânea, em jogo pendular do papel deste elemento na realidade e na representação de um quadro. 

O leitor chega à quarta parte nomeada Para uma Filosofia da Religião com A Personalidade de Deus e O Problema da Situação Religiosa. A coetânea é encerrada com Para uma Filosofia da Cultura trazendo O Conceito e a Trajetória da Cultura e Cultura Feminina. Simmel fez da cultura – seus conceitos e seus fenômenos – o objeto de reflexão filosófica talvez de forma inédita até então. No vital ensaio “O conceito e tragédia da cultura” descreve a cultura como a arena de conflitos entre a alma e as construções do espírito objetivo que essa própria alma criou originalmente. 

A tragédia em questão leva seu curso onde os produtos objetivos da alma se fecham mais e mais para formar um cosmos independente. A Cultura não é exceção à tendência geral da Modernidade de isolar vários setores da sociedade uns dos outros como consequência do avanço da divisão do trabalho– ou seja, em fragmentos. A importância deste trabalho levou ao filósofo Vladimir Jankélévitch (1903-1985) a escrever Georg Simmel, Philosophe de la Vie (1923), inédito aqui. Para o franco-russo, o projeto de Cultura filosófica é uma espécie de atitude perante o mundo capaz de se opor à esta tragédia. Outra obra fundamental inédita no Brasil é o estudo Fragments of Modernity Theories of Modernity in the Work of Simmel, Kracauer and Benjamin do sociólogo David Frisby.

Waizbort traduz a síntese de Theodor Adorno: “Mas George Simmel foi então o primeiro a realizar aquela virada na filosofia rumo aos objetos concretos, que permanece um cânone para aqueles que não se contentam com o matraquear da crítica do conhecimento ou da história do espírito”. Descobrir este autor é tão necessário quanto o crescente movimento dos leitores de Benjamin. Pois, apesar do que dizem, a Modernidade ainda nos constitui. 

*Gutemberg Medeiros é jornalista, pós-doutorando na ECA/USP e professor da UEL

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