NANCY SIESEL/THE NEW YORK TIMESS
NANCY SIESEL/THE NEW YORK TIMESS

George Steiner foi um grande intelectual de ontem e de amanhã

Intelectual pertencia ao gênero de espíritos que conhecemos, admiramos, mas do qual não sabemos muito onde colocar porque eles abarcam muitos saberes

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2020 | 16h00

Os comentaristas dos jornais franceses às vezes reclamam e deploram o fato de o século no qual ingressamos ser tão escasso de gênios. Onde estão os homens dos quais a França era tão pródiga nos anos 1950? Na época, tínhamos à escolha figuras como Claude Lévi-Strauss, Roland Barthes, Jacques Lacan, Alexandre Kojève, Georges Dumézil ou Jean-Paul Sartre, esses “faróis”, como disse o poeta Charles Baudelaire, esses gigantes cujas luzes iluminavam as alcovas do tempo, as luzes da modernidade, de ontem, hoje e do amanhã. É verdade que hoje temos de engolir Bernard Henry Lévy, ou um Alain Finkielkraut. Temos de admitir que pessoas aquele mesmo formato passam pelo nosso binóculo e mal percebemos.

George Steiner, que nos deixou esta semana com 90 anos de idade, pertencia a esse gênero de espíritos que conhecemos, admiramos, mas do qual não sabemos muito onde colocar porque eles abarcam muitos saberes.

No caso de Steiner era a poesia; Platão, Don Quixote, o teatro, a Grécia, as literaturas comparadas, filosofia, história contemporânea e história dos primeiros séculos, ensino.

De onde surgiu esse intelectual atípico que se considerava “um ateu da cultura e tradição judaicas"?

Era de família checa. Judia e checa (o que é perigoso) nos anos 1930. Seus pais ouvem cedo os grunhidos do Mal e partem para Paris antes da guerra de 1940, se bem que Georges Steiner é de nacionalidade francesa. E a família, já em 1940, se instala em Nova York. George trabalha no The Economist. Depois reside em vários lugares, acompanhando os cursos que ministra nas grandes universidades: Oxford, Harvard, Genebra e outros lugares. Mas em que língua ele se exprime? Em francês, mas também em inglês, língua que venera, em alemão por causa de Goethe, Nietzsche e Heidegger, em grego antigo, em latim, e, sem dúvida, alguns outros dialetos de passagem na sua cabeça.

Ele conheceu os grandes espíritos desse tempo, Koestler, Dumézil, como também o grão mestre da cabala judaica, Gershom Scholem. Deu aulas em muitos lugares e foi em Cambridge, onde residia, que a morte acabou por encontrá-lo.

Talvez seja essa a explicação da admiração um pouco tímida, como se amedrontada, que o acompanhou durante toda a sua vida.

Rico demais e múltiplo demais. Um vagabundo de luxo. Amizades às vezes estranhas. Steiner, inimigo feroz das ideologias mortais do século 20, era capaz de manter relações calorosas com pessoas aparentemente incompatíveis com o seu percurso. Por exemplo, ele amava Pierre Boutang, grande espírito da extrema direita, às vezes tentado pelo antissemitismo e, talvez pior, se opunha a esse sábio cosmopolita que se definia assim: “sou judeu, meus ensinamentos, meus escritos, giram em torno da catástrofe de Auschwitz”.

Dois espíritos incompatíveis, a não ser na simpatia e na paixão compartilhadas da alta cultura.

Steiner nem sempre era inteligível. Ele transmitia um pouco de medo. Sua vida foi tão profusa e tão ardente que hesitamos nos aprofundar nas suas digressões e nos seus segredos. Mais ou menos como, há milhares de anos, os gregos experimentaram fascinação e pânico quando se vissem perdidos no Labirinto construído por Dédalo e no qual reinava o monstro, o Minotauro.

A paixão de conhecer e explorar territórios não demarcados aparece no simples enunciado de suas grandes obras. Um inventário ao estilo de Jacques Prévert, barroco, mas organizado, em torno de algumas obsessões. Podemos citar o belo “Presenças Reais, que trata da fascinação do deus ausente, do qual adoro essa frase de um homem que amou ser romancista, mas renunciou depois de um ensaio infrutuoso e se dedicou à crítica: “O poema vem antes do comentário”. Ou então, Passions Impunies, no qual ele pretende fazer uma comparação, mas em vez de comparar duas civilizações, duas literaturas, ele associa dois grandes criadores aparentemente distantes, por exemplo Beethoven e Sócrates. Outros títulos como Tolstói e Dostoiévski, publicado primeiro nos Estados Unidos, em 1960, como também Babel, O Castelo do Barba Azul, ou o empolgante Os Livros que não Escrevi (Gallimard, 2008).

Eu poderia falar de “O livro de Steiner que não li”.

Minha sorte é que um dos críticos franceses que leu tudo de Steiner, Sébastien Lapaque,  nos dá água na boca ao citar alguns livros que George Steiner não escreveu: Monografia do filósofo escocês Joseph Neham, A inveja dos homens de letras, A gramática da vida erótica, Geografia sentimental da vida animal, etc.

O mesmo Sébastien Lapaque oferece uma passagem de um livro de Steiner, irônica e comovente: “No fim da minha vida eu me pergunto se valeu a pena sofrer para me tornar Mandelstam ou Pasternak. Eu teria força de criar sob essa pressão? Lembro-me que um dia Arthur Koestler me disse: Sabe por que seus livros são tão medíocres? Porque você jamais esteve numa prisão. No século 20 não ter sido preso era não ter estado entre os vivos. Eis um julgamento irrevogável que me lembro constantemente às três horas da manhã, nas horas em que dizemos as verdades, como explicava São João da Cruz”.

Conheci um pouco George Steiner, não o bastante porque ele estava sempre distante. Nos anos 1980, me parece, eu o recebi junto com seu amigo Pierre Boutang num programa na rádio France Culture, pois tinham escrito juntos uma obra sobre a tragédia grega. O tema era um debate em torno da figura perturbadora de Antígona, a intratável, imarcescível Antígona, e o sacrifício de Abraão na Bíblia. O diálogo foi belo, entre dois amigos, o realista de extrema direita e o judeu jamais cicatrizado do impensável acontecimento que foi Auschwitz. Mas no final eles começaram a falar grego, o grego antigo, de Sófocles. Eu ouvia boquiaberto e mudo, claro. O acaso me proporcionou um presente suntuoso: no século 20, sem nenhum aviso prévio, um diálogo se desenrolava naquela emissão na rádio France Culture em grego antigo, para comparar a Bíblia e a tragédia grega. Um momento de graça. Não entendia uma palavra, mas o debate era magnífico. Penetramos estupefatos num lugar onde toda a palavra faz silêncio e onde todo silêncio fala.

Tradução de Terezinha Martino

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