George Washington vai vestir o pijama?

Reunião dos Brics é só um capítulo no círculo crescente de especulações sobre a aposentadoria do dólar

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2009 | 00h30

Para o economista e historiador Michael Hudson, a cúpula dos Brics, no início da semana, foi o mais importante encontro do século 21 até agora. "Um turning point", previra num artigo para o Financial Times, dias antes do encontro em Ecaterimburgo. Hudson considera inevitáveis a desdolarização da economia mundial, o surgimento de uma nova ordem financeira internacional, mais estável, previsível e diversificada, e, como consequência, o fim da hegemonia militar-financeira dos EUA.

Pois é, o fim da hegemonia americana. Logo em Ecaterimburgo, onde o czar Nicolau II, a mulher e cinco filhos foram executados pelos bolcheviques em 1918. "Venham visitar Ecaterimburgo, a joia dos Urais, que já serviu de palco para a queda de dois impérios!", poderão alardear os panfletos da Uraltour, daqui a alguns anos. E Obama ainda estará no primeiro mandato, estimam os arúspices mais apocalípticos da economia e da mídia.

Um deles, Chris Hedges (CounterPunch, Truthdig), estribado nas avaliações de Hudson e John Lanchester (v. "It''s Finished!", London Review of Books, 28 de maio de 2009), proclamou esta semana: "O império americano faliu". Sua antevisão da América pós-reinado do dólar é um primor de distopia: carestia, desemprego em massa, impostos e juros estratosféricos, epidemia de falências e execuções de hipotecas, comércio às moscas, shoppings fechados, multidões sem teto, serviços públicos reduzidos ou suspensos por falta de verba, intermináveis filas para descolar uma sopa de graça, como na Grande Depressão. "Os Estados Unidos lembrarão a República de Weimar ou Zimbábue", vaticinou Hedges, sem arriscar prever se Obama será sucedido por um Hitler ou um Mugabe. Não dá para acreditar, concordo; mas Hedges não está sozinho nesse minarete.

Quanto às predições sobre o futuro do dólar, para certos analistas, elas soam, no mínimo, prematuras. A substituição do all mighty dollar por uma moeda supranacional ou uma cesta de divisas fortes (com o dólar reforçado pelo yuan, a libra e o euro) exigiria um bocado de tempo e paciência para evitar a desvalorização dos ativos das economias do Brasil, Rússia, Índia e China, que hoje têm 70% de suas reservas em dólar. Ainda que de forma lenta e em doses homeopáticas, a aposentadoria do dólar como moeda de referência comercial parece líquida e certa.

Assim como é líquida e certa a consagração de Ecaterimburgo como o lugar onde ela foi posta mais abertamente sobre a mesa de discussões. O passivo histórico de Ecaterimburgo é dos mais peculiares da Rússia: além do fim do czarismo, a suposta Bretton Woods dos Brics já era chamada de Sverdlovsk, seu nome entre 1924 e 1991, quando nela esconderam o acervo do museu Hermitage, durante a invasão nazista, e em seu espaço aéreo abateram o U2 do espião da CIA Francis Gary Powers, em maio de 1960, um dos highlights da Guerra Fria. Que carma!

O presidente do Banco Central chinês já havia sugerido, meses atrás, que o dólar fosse trocado pela cesta de moedas (euro, dólar, yuan e libra) adotada por aquela quota de retiradas, o SDR (Special Drawing Right), do Fundo Monetário Internacional. Todos querem fugir do dólar. E a China, com US$ 2 trilhões de reservas cambiais, é o Bric mais apressado; muito mais que a Rússia, que também já anunciou sua intenção de fazer negócios em rublos e moedas locais.

A China vem torrando suas reservas em dólares na compra de fábricas e propriedades, em várias partes do mundo, e iniciou acordos bilaterais com o Brasil e a Malásia para trocas comerciais lastreadas em yuan, libra ou euro. As recentes e surpreendentes concessões que sua indústria de alumínio fez aos mineradores australianos tinham um propósito: desovar alguns bilhões de dólares, antes que a moeda americana fosse fazer companhia à lira italiana.

Os Estados Unidos chegaram a um beco aparentemente sem saída (Hedges e Hudson diriam abismo), com uma economia em pandarecos e duas guerras suicidas sem prazo para terminar. Seu maior rombo vem dos gastos na área militar, que chegaram, no ano passado, a US$ 623 bilhões, sem contar os investimentos em pesquisa nuclear. É quase dez vezes mais do que a China, segunda nesse ranking, gastou no mesmo período. Começou assim o declínio do império soviético.

Para sustentar sua gastança militar, cobrir seu espantoso déficit fiscal, segurar o dólar inflado e remediar os fracassos do "capitalismo de cassino", da tavolagem financeira montada em Wall Street, os Estados Unidos inundaram o mundo de dólares, obrigando os bancos centrais estrangeiros a "compensá-los" comprando dívidas do Tesouro americano; do contrário, a hegemonia econômica e militar dos Estados Unidos iria para o brejo.

"Pagamos caro por uma proteção militar que muito nos incomoda", desabafou um comentarista sul-coreano presente ao encontro dos Brics. Ele não deve ter se surpreendido com a notícia de que China, Rússia, Índia, Paquistão e Irã aventam a hipótese de formar uma área financeira e militar autônoma na Eurásia, para fazer frente à influência americana na região. Se todos os integrantes dos Cripis afinal vão se entender, são outros quinhentos. De yuans ou de rublos ou de rúpias ou de riais; de dólar, não.

TERÇA, 16 DE JUNHO

Quem sabe na próxima...

A criação de uma moeda internacional para substituir o dólar no comércio exterior é debatida pelos governantes dos Brics. A China, porém, fica em silêncio e nenhum avanço é feito por ora, embora ninguém descarte a possibilidade da troca no futuro.

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