Daniel Dorsa/The New York Times
Daniel Dorsa/The New York Times

Geração de artistas afro-americanos na casa dos 70 anos ganha destaque

Após décadas obscurecidos, artistas descobrem as alegrias e dores do sucesso

Hilarie M. Sheets, The New York Times

30 de março de 2019 | 16h00

McArthur Binion vem criando arte há quatro décadas. Quase completamente fora do radar, ele vende de vez em quando alguma coisa e cria dois filhos em Chicago, com um salário de professor. Agora Binion, primeiro afro-americano graduado pela prestigiosa Cranbrook Academy of Art, foi totalmente aceito pela corrente dominante na arte mundial – aos 72 anos. Seu marchand é uma importante galeria de Chelsea. Museus e colecionadores internacionais disputam suas grandes telas, com grades minimalistas pintadas a óleo sobre colagens de documentos pessoais. Com obras vendidas por mais de US$ 450 mil, ele hoje pode viajar em primeira classe manter facilmente a filha na Universidade Brown. Mas ele não estava totalmente preparado era para a dura realidade do atual mercado de arte. 

Binion rejeitou uma marchand quando sentiu sua atitude paternalista – na Bienal de Veneza, ela quis “ensiná-lo” a falar com curadores e com a imprensa. “Ninguém vai me dizer o que devo falar sobre meu trabalho”, disse ele. “Ou conversamos em meus termos ou não conversamos.” 

Binion pertence a uma geração de artistas afro-americanos na faixa de 70 e 80 anos que, após décadas de indiferença, goza da demanda do mercado. Museus estão montando exposições com suas obras e seus nomes. Em alguns casos, eles valem milhões em leilões de arte. 

Assim, numa idade em que muitos artistas saem de cena, eles estão bombando – e lutando para lidar com as novas pressões do sucesso.

Com a admiração do público vêm as exigências para comparecer a exposições, conferências, entrevistas, painéis de discussão, numa fase da vida em que viagens podem ser dificultosas - ou o artista prefere simplesmente estar em seu ateliê. Aqueles cujo trabalho nunca foi político ou didático ficam também apreensivos de serem rotulados de artistas negros, não apenas artistas. 

“Essa euforia eu curtiria 30 anos atrás, mas agora já passei do ponto”, disse a pintora Howardena Pindell, que aos 75 anos usa andador e não pode subir na escadinha para executar seus quadros, colagens cobertas com camadas de acrílico, tintura de cabelo, lantejoulas, glitter e pó de arroz. 

Como outros artistas de cor descobriram tarde na vida, a satisfação dela é de outro tipo. “É mais uma sensação de me sentir protegida e segura ante as mudanças do mundo da arte.”

Em entrevistas, muitos desses artistas reclamam da necessidade ininterrupta de produzir novas obras, algo que, embora revigorante, pode também ser fisicamente cansativo, e dizem que o novo dinheiro que entra teria sido mais bem-vindo enquanto criavam a família. De qualquer modo, estão felizes por poder dar alguma segurança aos filhos e netos. O que eles não podem é ir além de suas forças. Alexander Gray, marchand que representa Melvin Edwards, Lorraine O’ Grady e Frank Bowling, disse que se sente culpado por superestimar o ritmo de seus artistas mais velhos. “Ante o entusiasmo do mercado”, afirmou, “nós nos esquecemos da idade deles, de sua dificuldade física de viajar pelo mundo, e ficamos esperando que criem uma obra de arte ‘para ontem’. Isso pode ser massacrante.” 

Lorraine, de 85 anos, uma artista conceitual, tem sido sufocada por pedidos para participar de painéis e fazer apresentações. “Mas a esta altura ela declina de qualquer coisa que envolva viagens”, disse ela. Bowling, também de 85, que nasceu na Guiana e tem ateliês em Londres e Nova York, também já decretou moratória a viagens e entrevistas. “Para artistas em idade avançada o tempo é precioso, e não existe lugar em que seu tempo valha mais que no ateliê”, disse Gray. 

Exposições itinerantes recentes como Soul of a Nation: Art in the Age of Black Power (Alma de uma Nação: Arte na Era do Poder Negro), inaugurada no último sábado no museu Broad, de Los Angeles, dão nova vida ao panteão de artistas negros que começaram nos anos 1960 e 1970. “Existe todo um universo paralelo do qual as pessoas ainda não desfrutaram”, disse Valerie Cassel Oliver, curadora de arte moderna e contemporânea do Museu de Belas Artes da Virgínia, em Richmond.

Quebrando a barreira de US$ 2 milhões em leilão, novos limites foram estabelecidas no ano passado para Sam Gillian, bem como para Barkley Hendricks e Jack Whitten, ambos falecidos recentemente. Eles cresceram na esteira do sucesso de artistas afro-americanos mais jovens, como Kerry James Marshall, de 63 anos, que recentemente varou a barreira de US$ 21 milhões em leilão (embora os artistas não sejam diretamente beneficiados quando colecionadores põem à venda seus quadros em leilão, os altos preços valorizam suas novas criações.).

O sucesso de Howardena Pindell começou em 2014, quando ela assinou contrato com Garth Greenan, galerista de Chelsea. Desde então, exposições com suas obras tiveram lugar no Museu de Arte Contemporânea de Chicago e no Museu de Belas Artes da Virgínia. Trabalhos da artista estão agora expostos no Rose Art Museum.

No entanto, como artista abstrata negra, Howardena teve uma recepção hostil em Nova York após formar-se em Yale, em 1967. Ela detonou a então ideia corrente de que artistas afro-americanos tinham de trabalhar a partir de temas sociais. “Na comunidade afro-americana dos anos 1970, o artista abstrato negro era considerado um inimigo que bajulava os brancos”, disse Howardena. “Já os marchands brancos diziam que afro-americanos que se dedicavam ao abstrato não eram autênticos.” 

Desde que assinou com Greenan, Howardena tem sido solicitada a produzir mais obras para feiras e exposições do que era sua média. O lado positivo é que hoje ela pode pagar assistentes e um motorista para levá-la ao local onde dá aulas. “Estão cuidando bem de mim”, disse ela.

Melvin Edwards, cujas esculturas abstratas de metal e solda foram adquiridas por cinco instituições nos últimos 18 meses, incluindo o Museu Whitney e a Tate Modern, fará 82 anos em maio. Ele também diz que perseguir a abstração é um caminho solitário para um artista negro. 

Suas estruturas geométricas de arame farpado e correntes foram exibidas no Whitney em 1970, mas só duas décadas depois ele teria sua primeira exposição. A demanda por seus trabalhos cresceu fortemente em anos recentes como resultado de mostras em museus. “Já era tempo de o mundo da arte se atualizar”, disse Edwards, que lecionou por 30 anos na Rutgers University. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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