Metropolitan Museum of Art
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Gertrude Stein tem romance, peça, palestra e ensaio reunidos

'Ida Um Romance' e 'O que São Obras-primas e por que São Tão Poucas' trazem várias facetas da escritora americana

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

25 de janeiro de 2020 | 16h00

Gertrude Stein é Gertrude Stein é Gertrude Stein é Gertrude Stein e não poderia ser diferente em Ida um Romance, uma coletânea de textos da escritora norte-americana que, além do romance que dá título ao livro, traz um roteiro, uma peça teatral, uma palestra, entre outros escritos, reunidos pela primeira vez em livro no Brasil e em excelente tradução de Luís Protásio. 

Nos textos que compõem o volume, Stein se mantém fiel ao seu estilo, que se vale da supressão quase total de pontuação (a começar pelo título do romance, que abole a vírgula) e de repetições, que levam a um estado de inércia, ou, como Stein gostava de dizer, levam a um presente contínuo, em que patinamos sempre no mesmo lugar: “Ele pediu para falar com Ida porque não conhecia Ida. Quase pediu para falar com Ida. Bem de certa forma pediu para falar com Ida”.

A propósito do presente contínuo, ele está ligado, na obra de Stein, às artes plásticas. A escritora costumava dizer que apreciava um texto (principalmente o teatral) que desse ao leitor a impressão de estar contemplando um quadro. Em Lucrécia Bórgia uma peça, texto teatral que integra o livro, nada parece se movimentar no palco, como indica a seguinte rubrica: “Tenha cuidado com oito. O nome de Lucrécia tem oito letras, tenha mesmo muito cuidado com oito. Com Winnie e com Jenny não precisa tanto cuidado ”.

Outra característica da escrita de Stein são as afirmações contraditórias e ilógicas: “Não lembrava nem mesmo quando tinha estado lá com ele porque quando tinha estado lá não contava, quer dizer sabia contar até dez mas não dava prazer contar daquela vez”. 

Essas particularidades na escrita da autora norte-americana deixam as frases ambíguas e criam um ritmo bastante peculiar que se assemelharia, na minha opinião, ao do compositor francês Erik Satie, contemporâneo de Stein e, como ela, morador de Paris. Stein usa poucas palavras, como Satie usava poucas notas musicais em suas composições.

Stein explica esses e outros procedimentos na palestra Como a Escrita É Escrita, proferida em 1935 e que faz parte do livro. A escritora afirma que, quando começou a escrever, a “pontuação era uma questão crucial”, mas logo percebeu que a vírgula, por exemplo, era uma “pedra no caminho”, pois “quando pensamos em uma coisa como um todo e a vírgula continua aparecendo, ela começa a dar nos nervos; porque, no fim das contas, ela destrói a realidade do todo”. Nessa palestra, Stein discorre ainda sobre o conceito de contemporaneidade e seu papel fundamental para pensar a escrita: “Toda a questão da escrita é o problema de viver nessa contemporaneidade. Cada geração tem que viver nela. O que importa é que ninguém sabe o que é contemporaneidade. Em outras palavras, as pessoas não sabem para onde estão indo, e de todo modo elas estão indo a seu modo”. 

Em O que São Obras-primas e por que São Tão Poucas, texto que integra outro livro da escritora norte-americana, recém-publicado pela editora Graphia, Stein discute o estatuto da obra-prima, começando com a psicologia humana: “Qualquer mulher em qualquer cidadezinha ou homens também se preferirem ou mesmo crianças conhecem tanto da psicologia humana quanto qualquer escritor que tenha vivido”, afirma ela, mas “não é esse conhecimento que faz obras-primas”. 

Segundo a autora, a identidade não faz da obra uma obra-prima, a qual, para existir, tem que resistir a um conceito. Stein lembra, contudo, que o tempo é importante em relação à obra-prima, pois ele cria uma identidade para essa obra, “e a identidade de fato cessa a criação de obras-primas”.

Chama a atenção o tema de Ida um Romance, inspirado, segundo a escritora, na vida da Duquesa de Windsor, cujo terceiro marido, Eduardo VIII, do Reino Unido, abdicou do trono para se casar com ela. Ida, que tem uma irmã gêmea, representaria, contudo, muitas mulheres do início do século 20. A protagonista tem uma vida tranquila – “Ida levava uma vida muito tranquila, quer dizer se levantava e se sentava e entrava e saía e descansava e ia para a cama” – e ainda assim é uma mulher revolucionária, que contesta, por exemplo, o papel da maternidade, o qual, no início do século 20 e, diria, ainda hoje, é visto como algo que as mulheres almejam ou devem aceitar com naturalidade: “Tudo o que acontecia com ela não era estranho. O tempo todo nada era estranho Ida não era estranha. É muito fácil não ser mãe. Isso também aconteceu com Ida. Ela nunca foi mãe. Nunca”.

Casamento também estava fora dos planos de Ida: “Ida ia ficando mais velha. Às vezes pensava em ter um marido mas sabia que um marido queria dizer casar e casar queria dizer mudar e mudar queria dizer o nome e queria continuar com ele”. Mas, como tudo é paradoxal em Stein, Ida casa-se muitas vezes.

Ida poderia ser também uma espécie de alter ego da própria Gertrude Stein, que fugiu dos padrões da época ao abdicar da maternidade e ao manter uma relação amorosa duradoura com uma mulher, Alice Toklas. 

Ida um Romance oferece um importante paratexto que conta com a tradução de um texto clássico do escritor norte-americano Sherwood Anderson sobre Stein, com prefácio da cantora e compositora Badi Assad e do dramaturgo e diretor teatral Luiz Päetow, além de posfácio de autoria do tradutor. Deixa a desejar, contudo, o projeto gráfico do livro, cujo formato, bastante estreito e longo, não permite que ele seja aberto e manuseado com naturalidade. Para que o livro permaneça aberto, é preciso forçar essa abertura com as duas mãos e o leitor não pode relaxar, pois ao menor descuido o livro se fecha. Nessa edição, em competente tradução de Protásio, não será certamente o texto de Stein que fará o leitor desistir do livro, mas o cansaço braçal.

IDA UM ROMANCE

AUTORA: GERTRUDE STEIN

TRADUÇÃO: LUIS PROTÁSIO

EDITORA: PONTO EDITA 

224 PÁGINAS

R$ 79,40 

*DIRCE WALTRICK DO AMARANTE TRADUZIU, ENTRE OUTROS, GERTRUDE STEIN, JAMES JOYCE E EDWARD LEAR

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