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'Gibi', a revista que virou sinônimo de quadrinhos, completa 80 anos

Primeira edição da publicação foi lançada em abril de 1939 no Brasil

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2019 | 16h00

Seus inventores, os americanos, chamavam as primeiras histórias em quadrinhos de “comics”, porque elas eram, quase sem exceção, cômicas. Aqui adotamos quadrinhos (com e sem o complemento) enquanto nossos hermanos se fixaram em “historietas”, deixando como exclusiva dos espanhóis a expressão “tebeo”. 

Influenciados pelos franceses, os portugueses traduziram literalmente “bandes dessinées” (bandas desenhadas) e deram-se por satisfeitos. Beneficiados pela língua mais eufônica do mundo, os italianos consagraram o delicioso vocábulo “fumetti”, inspirado nos balõezinhos. 

Os japoneses juntaram duas palavras, que deram “mangá”, traduzível por desenho descompromissado. Até que um dia surgiu o quebra-galho bissílabo que nos faltava. Está fazendo 80 anos que as revistas de histórias em quadrinhos editadas no Brasil passaram a ser chamadas de “gibis”. Assim como o espanhol “tebeo”, derivado de uma publicação chamada TBO, que soa como “te veo” (te vejo), o nosso gibi originou-se de uma epônima revista infanto-juvenil lançada em 12 de abril de 1939, que exibia ao lado do logotipo a figura de um molecote negro de calça curta azul, camisa vermelha e suspensórios. Em várias regiões do Brasil, gibi é sinônimo de negrinho.

Gibi, cinema e futebol (assistido, jogado e de botão). Para as gerações analógicas e pré-videojogos, uma trindade imbatível. Embora combatidas aqui e lá fora como deseducadoras, para mim e milhões de outras crianças os quadrinhos funcionaram como o mais produtivo estímulo à alfabetização. Só aprendi a ler precocemente premido pelo ardente desejo de entender o conteúdo dos balõezinhos, sem precisar recorrer aos alfabetizados da família.

Gibi, a revista, já existia havia bem uns sete anos quando comecei a soletrar por conta própria o que diziam os meus heróis de papel. Além das letras, ganhei nos quadrinhos meus dois primeiros coups de foudres infantis. Mesmo embeiçado pela sereia da Metro Esther Williams, arrebatei-me pela princesa Aleta do Príncipe Valente, desenhada por Hal Foster, e por uma odalisca com o rosto coberto por um véu que se insinuava numa aventura de Ricardo, o Rei da Polícia Montada. 

Nenhum desses personagens chegou até aqui através do Gibi, e sim pelo Suplemento Juvenil, nossa primeira revista de quadrinhos moderna, que também apresentou a petizada brasileira a Tarzan (ainda sem o til), Brick Bradford, Mandrake, Brucutu e ao trio consagrado com o traço genial de Alex Raymond: Flash Gordon, Agente Secreto X-9 e Jim das Selvas. 

Arrojado projeto de um judeu de origem ucraniana chamado Adolfo Aizen (1907-1991), o Suplemento Juvenil seria o embrião da Ebal (Editora Brasil-América), legendária usina de quadrinhos que a família Aizen manteve ativa até quando foi possível. Foi primeiro um encarte diário do jornal A Nação, depois publicação autônoma, com tiras compradas à agência King Features, e quase nasceu de uma associação de Aizen com O Globo, onde por uns tempos trabalhou. Ao voltar de uma viagem a Nova York, em 1931, Aizen, empolgado com as coloridas páginas de quadrinhos dos jornais americanos, propusera parceria ao redator-chefe de O Globo, Roberto Marinho, que não se mostrou nem um pouco interessado na ideia. O sucesso do Suplemento em formato tabloide, a partir de 1934, ouriçou Marinho, que sugeriu a Aizen uma sociedade desvantajosa o bastante para abalar a amizade entre os dois. 

Três anos mais tarde, Marinho entrou na competição com seu primeiro gibi avant la lettre: O Globo Juvenil. Tinha Brucutu, Ferdinando Buscapé—e, na redação, cuidando das traduções e adaptações, os jovens Antonio Callado e Nelson Rodrigues. Contrafeito com a concorrência, Aizen lançou, em maio de 1939, outra revista, Mirim, e, antes que o ex-quase futuro sócio pusesse nas bancas O Globinho, bolou uma terceira, chamada O Lobinho. A guerra dos quadrinhos estava apenas começando. 

Ninguém, até hoje, contou suas marchas e contramarchas, seus impasses e confrontos com a mesma riqueza de detalhes de Gonçalo Junior em A Guerra dos Gibis, editado em 2004 pela Cia. das Letras e a exigir faz tempo uma reedição. Foi para vingar-se de Mirim que Marinho tirou da manga o Gibi, com Charlie Chan na capa e o caubói Bronco Piller entre as demais atrações. Aizen acusou-o de plágio, meteu-lhe um processo, que não deu em nada. 

A batalha decisiva foi travada com um punhal enfiado nas costas de um dos contendores.

Informado de que o contrato da King Features com Aizen era de boca e estava para terminar, Marinho procurou o representante da agência no Brasil e convenceu-o a repassar-lhe os direitos sobre os seus heróis, mediante um ágio inalcansável pelo caixa de Aizen. De uma hora para outra, o ingênuo ucraniano perdeu o elenco de ouro que introduzira no mercado editorial brasileiro para as revistas do nascente império Globo. Daquela guerra sem Waterloo, Aizen escapou vivo e seguiu em frente sob a proteção de três heróis representados por outra agência — Tarzã (nem sempre desenhado pelo mestre Burne Hogarth), Terry e os Piratas (criação de Milton Caniff), Dick Tracy (de Chester Gould)—, e um quarto, que acabara de surgir na América, o Super-Homem. 

O melhor dessa história foi a exemplar lição de respeito aos leitores dada por Aizen, sempre os encaminhando aos gibis de Marinho para que pudessem continuar seguindo as aventuras que subitamente fora obrigado a interromper em suas revistas.

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