Paradis Films
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Giorgio Bassani escreveu sobre excluídos na época da formação do partido Fascista

Romance do premiado autor de 'O Jardim dos Finzi-Contini' ganha nova edição no País

Aurora Bernardini, Especial para o Estadão

25 de junho de 2022 | 16h00

O escritor, editor e roteirista Giorgio Bassani (1916-2000), que se tornou mundialmente famoso com a filmagem de seu romance O Jardim dos Finzi-Contini (1962), dirigido por Vittorio de Sica e detentor de vários prêmios internacionais, é o autor, entre outros, desse delicado mas incisivo romance Os Óculos de Ouro (1958), que também foi um filme de sucesso dirigido por Giuliano Montaldo. Esse romance é o primeiro dos cinco livros de Bassani dedicados à “materna” Ferrara, antiga cidade da Emilia-Romagna, onde ele situa, lírica e evocativamente, os episódios vividos por seus personagens.

Episódios nem sempre felizes, pois na década de 1930, época em que se desenrola a trama, Ferrara já é oprimida pelo fascismo e povoada por uma burguesia muitas vezes complacente com o regime e malévola e excludente em relação a quem não se atém aos seus clichês (leia-se preconceitos).

É o que acontece com o médico otorrino Athos Fadigati, homem culto, refinado e amante das artes. Deixando sua Veneza natal em 1919, ele monta em Ferrara seu consultório que, ao longo dos anos, prospera. Em 1936, quando os acontecimentos começam a avolumar-se, Fadigati já passou dos 40. Os ferrarenses se perguntam como é que o doutor não se casou, como não constituiu família? Uma coisa puxa outra, e eles concluem que o doutor “é um daqueles”. “Com a mesma lentidão e quase relutância com que, subindo dos fundos lamacentos de certos pântanos, raras bolhas de ar emergem e explodem em silêncio na superfície, de vez em quando circulavam nomes, pessoas eram apontadas, circunstâncias eram detalhadas”, escreve Bassani, cujas referências à natureza são, aqui, uns dos pontos altos de seu estilo.

Depois de várias especulações, porém, os detratores chegam à conclusão que, afinal, todos têm algo a esconder e que o “estilo” do médico, sua conduta atenciosa e reservada, o resguarda de futuros dissabores.

Inesperadamente, entretanto, esses dissabores surgem. Fadigati resolveu elaborar sua livre-docência e, para tanto, toma semanalmente o trem que o leva à Universidade de Bolonha. No trem, encontra sempre uma comitiva de estudantes, entre os quais o narrador da história (e alter ego do escritor), com o qual faz amizade. Só que entre os estudantes está Eraldo Deliliers, um jovem fisicamente muito atraente, mas intimamente devasso, que começa a provocar o doutor, inclusive sexualmente. O doutor procura esquivar-se, mas acaba sucumbindo, se apaixona perdidamente e se torna joguete do rapaz. Por uma série de lances que se transformam em escândalos (Eraldo, no fim, rouba-o e dá-lhe um soco e “uma dupla rachadura atravessa a lente esquerda de seus belos óculos de ouro” – símbolo, aqui, da diversidade), o médico acaba sendo isolado pela gente “de bem” que antes o acolhia, sendo, inclusive, exonerado do hospital onde trabalhava e perdendo os pacientes do consultório.

Nesse estado de espírito desconsolado, uma noite, o jovem narrador o encontra, envelhecido, falando com uma cachorra: “Uma cadela vira-lata de porte mediano, branca com manchas marrom, que lhe retribuía de baixo, abanando o rabo desesperada, um olhar úmido, trepidante.” A cadela o havia seguido tão atormentada que o médico a havia recolhido em sua casa, mas – conta ele ao jovem – no meio da noite o animal começara a raspar a porta querendo sair e o médico descobrira, pelo volume das tetas, que ela devia ter filhotes para aleitar e era por isso que, apesar do abrigo, queria voltar para eles.

Nesse momento, esse novo símile prenuncia a “mensagem” crucial da história. Fadigati diz ao jovem, apontando a cadela: “Talvez fosse necessário ser assim, saber aceitar a própria natureza. Mas por outro lado, como fazer? É possível pagar um preço tão alto? No homem há muito do animal; entretanto, o homem pode se render? Admitir que é um animal, e apenas um animal?”

“Oh, não” responde o jovem — que há pouco o leitor descobriu pertencer a uma família judia, visada pelas leis raciais promulgadas por Mussolini, em 1938, e fica sabendo que os estudantes ‘gois’ da faculdade deram de evitá-lo. “Seria como dizer: pode um italiano, um cidadão italiano, admitir que é um judeu, apenas um judeu?”

“Permita-me dizer”, interrompe o médico, “se eu fosse o senhor...” “O que eu deveria fazer? Aceitar ser aquilo que sou? Ou melhor, adaptar-me a ser aquilo que os outros querem que eu seja?”

“Não sei por que não deveria”, rebate mansamente o médico. “Caro amigo, se ser aquilo que é o torna mais humano (do contrário, não se encontraria aqui, em minha companhia!) por que recusa, por que se rebela? Meu caso é diferente, o oposto exato do seu. Depois do que aconteceu no verão passado, não consigo mais me tolerar. Não posso mais, não devo. Acredita que certas vezes não suporto nem fazer a barba diante do espelho? Ouça, não há mais nada a fazer por mim.”

O jovem judeu volta para casa e pensa em Deliliers e Fatigati: um, o carrasco, o outro, a vítima. “A vítima como sempre perdoava, aquiescia ao carrasco. Mas eu não, quanto a mim Fadigati se enganava. Ao ódio eu nunca seria capaz de responder senão com ódio”.

E enquanto lê no jornal um fatídico título em corpo médio referente ao doutor, percebe que o sentimento de solidão que sempre o acompanhara naquele últimos meses se tornava total e definitivo: “Eu nunca retornarei de meu exílio. Nunca mais”.

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