Paula Gaitán/Urca Filmes
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Glauber Rocha e a influência de 'Finnegans Wake', de James Joyce

Como o romance derradeiro do escritor irlandês inspirou cineasta brasileiro em 'Riverão Sussuarana' (1978)

Donny Correia*, Colaboração para o Estado

10 Junho 2017 | 16h00

Numa cena de arquivo do poeta e tradutor Haroldo de Campos, ele dizia “Tudo riocorrente”, em clara alusão ao “riverrun” que abre a Caixa de Pandora joyciana batizada Finnegans Wake. Uma viagem por tormentas, sem leme, em que James Joyce desperta o gigante Finn McCool, que repousa abaixo da Irlanda e, de mãos dadas com o pedreiro Tim Finnegan, reerguido do caixão a borrifos de uísque, reconta a história por folhas a fio. Estão ali, ao longo de um sonho desperto pelo trovão, todos os mitos do espólio da humanidade: Thor, Prometeu, Osíris, Cristo e Buda, para nomear alguns.

São as tantas páginas de uma loucura que autopsia o cadáver da modernidade em todas as suas ramificações culturais e linguísticas. Eis que tropeçamos, desavisados, já sôfregos, com a notação “A disincanated spirit, called Sebastion, from the rivera in Januero”. 

O encoberto ressurge de um Alcácer-Quibir barroco transcedental com espada em punho e sentencia como um Corisco: “Mais forte são os poderes do povo”, ou agoniza para purgar o terceiro mundo como um Paulo poeta: “O triunfo da beleza, e da justiça.”

Mastigado pelo feérico inconsciente coletivo, vive, na outra ponta desta “Idade do Caos”, em nosso imaginário, Glauber Rocha, por quem celebramos 50 anos de sua Terra em Transe. O mesmo Glauber que reencarnara Antônio Conselheiro no Santo Sebastião de Deus e o Diabo na Terra do Sol. O mesmo que deixou seguir rumo seu Antônio das Mortes, exilado no mundo para cumprir a sina e “morrer de Brasil”, como afirmava sua mãe, D. Lúcia Rocha.

Riverão Sussuarana (1978), o não romance antiestético que Glauber Rocha publicou em quase surdina. Um jorro “barrocotropykalysta”, como o próprio gostava de dizer. A tentativa desesperada de um ex-gênio. Tentativa de reconciliação consigo e com os demais. Em vão. Tentativa solenemente ignorada por quase 40 anos até que a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) trouxesse o livro novamente à baila em 2012. Sinal de que o ‘riocorrente’ exige o acerto de contas.

Glauber, com a reputação claudicante, crivada de críticas às suas posições ideológicas, e com o legado poético em cheque, prestes a ser sepultado por filmes um tanto desagregados, voltou ao Brasil, empunhou a pena colérica e declarou uma guerra pessoal ao cânone, marchando por narrativas tortas em que se imagina na companhia de Guimarães Rosa enquanto tange o sertão da história, ouvindo e contando lendas populares sobre cangaceiros, líderes messiânicos e exploradores yankees. 

Surge a figura do vaqueiro Riverão Sussuarana, desgarrado e solitário, cuja missão é impedir que um tal Karter Bracker destrua o Nordeste para levar para aos EUA urânio extraído à custa de trabalho escravo.

A antropofagia glauberiana se faz carne quando o “riverrun” joyciano se torna o Riverão meio São Jorge, meio dragão, em que a suçuarana crava as garras da latinidade na goela da escrita. Em Joyce, temos todos os idiomas que se possam ser pensados ou impensados. Em Glauber, a implosão do bom português: BRAZYL, POLYTYKA, HYPOKRYTA, KARNAVAL, BABYLONIA. No terço final da obra, o mergulho rumo às constelações do “Fimcomeço”: a queda de sua irmã, a atriz Anecy Rocha, no poço de um elevador, “no Marçabril de 1977, arrebentou a estrutura de Riverão Sussuarana”.

Daí por diante, Glauber se torna o detetive obcecado por descobrir como morrera, de fato, sua Anna Livia Plurabelle, enquanto retoma a narrativa do vaqueiro mito nas estrelas do céu. Um romance kamikaze decretando-se olvidado nas costelas partidas da HYSTORIA.

James Joyce despertou seu Finnegans Wake com o trovão: Bababadalgharaghtakamminarronnkonntonnerrontuonnthnntrovarrhounawnskawntoohoohoordenenthurnuk! Glauber dinamitou-se junto dos rincões da memória: IUAHRAUANHAIANANANANANANANANAHANANAHAHAHAHA – era o grito de dor da Sussuarana quando Riverão previu a morte despertado pelo grito e se dormisse pra sonhar a onça me comeria.

Tudunriocorrente só.

*Donny Correia é poeta, mestre e doutorando em Estética e História da Arte pela USP

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