Go, Johnny, go

Em abril de 1958, Cheryl Crane, 14 anos, matou o gângster que namorava a atriz Lana Turner

Fred Melo Paiva, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2008 | 21h43

Era uma noite escura.Era uma noite escura e tempestuosa.A trama se adensa.No interior da mansão colonial de North Bedford Drive, em Beverly Hills, Lana Turner está fumando furiosamente. Uma lágrima espessa e ressentida escorre por sua face. Levanta-se do sofá e, num arranco, lança-se sobre as tamancas:- John mentiu novamente. A idade! Ele não tem 43 anos, tem 33! Droga, sou uma idiota! - Não chore, mamãe - Cheryl a acomoda no sofá.- Vou me livrar dele. Não será nada agradável, você sabe. Não quero ficar sozinha com ele nesta casa...- Eu estou aqui, mamãe.Cheryl sabia que John poderia chegar a qualquer momento. Vestiu então seus felpudos chinelos cor-de-rosa e o velho penhoar de náilon. Recolheu-se no quarto. Depois ouviu a porta da frente bater. Era John. Cheryl jogou-se na cama e puxou as cobertas até o topo de sua carcaça craniana.Lá embaixo, na sala, o gângster John Stompanato está diante da grande musa do cinema americano dos anos 40 e 50 - "A Maior Loura do Mundo", "The Sweater Girl", "A Loura de 18 Quilates", "The Platinum Blonde", Assim Mesmo, Tudo Com Letra Maiúscula. Antes de converter-se em Lana Turner, Julia Jean Mildred Frances foi descoberta por um produtor tomando Coca-cola na lanchonete Top Rat Café, em Hollywood. Esta é uma informação desprezível, porém presente em qualquer biografia, um aposto que seja, sobre Lana Turner. Aos 16 anos, ela fez seu primeiro filme, Esquecer, Nunca (1937), do qual ninguém se lembra. Nas décadas seguintes, participou de outras 59 produções. Destacou-se no thriller noir O Destino Bate à Porta (1946) e no melodrama Imitação da Vida (1959). Tão inescapável quanto o relato de sua descoberta é a opinião consensual de que foi "mais conhecida por sua beleza do que propriamente por seu talento".Talvez por isso Lana Turner tenha colecionado tantos maridos - além de sapatos, mas isso não importa, porque os calos vieram mesmo dos primeiros. Com o músico Artie Shaw, ficou casada apenas 4 meses. Já com o restaurateur Josef Stephen Crane, pai de Cheryl, contraiu matrimônio por duas vezes - antes e depois de Crane se separar da ex-mulher. Depois partiu para o milionário Henry Topping Jr, que faliu e parecia decidido a fali-la também, embora o verbo não permita esta flexão. Na seqüência temos o ator Lex Barker, o Tarzã, acusado de molestar Cheryl. Em seguida, o criador de gado Fred May, um dos poucos a não tratá-la como uma vaca. Ainda assim divorciou-se também deste, casando-se com o produtor Roberto Eaton, segundo ela "o primeiro ( ! ) a mostrar-lhe como o sexo pode ser maravilhoso". Lana, no entanto, não era a única a quem Bob Eaton demonstrava sua tese. E por isso foi substituído pelo especialista em hipnose Ronald Pellar. Este foi o melhor de todos: depois de 6 meses de casamento, roubou de Lana Turner um cheque de US$ 35 mil. Voltou arrependido e levou mais US$ 100 mil. "Meu sonho era ter um marido e sete filhos", revelou Lana certa vez. "Mas acabou acontecendo o contrário." No cômputo final, e excluindo os amantes (contam-se pelo menos nove), casou-se oito vezes e divorciou-se sete. Sem dúvida, uma mulher horizontal.Foi justamente entre Lex Bar-ker, o Tarzã molestador, e Fred May, o criador de vacas, que se deu o aparecimento de Johnny Stompanato. Um azar danado, até porque, na fila, chegou a constar um brasileiro de nome Luiz Santos Jacinto, "milionário", que Lana conhecera em uma de suas passagens pelo Brasil. Mas Johnny tinha pegado a senha primeiro. Apresentou-se como John Steele, negociador de peças de arte. Aos poucos foi se revelando - um gângster. Era violento a ponto de invadir o set de filmagem de Vítima de uma Paixão e apontar uma arma para Sean Connery, coitado, o par romântico de Lana Turner no filme de 1958. Connery arrancou-lhe a pistola e finalizou Johnny com um soco na boca. Em 24 de março do mesmo ano, depois da festa do Oscar em que recebera sua única indicação de melhor atriz (por A Caldeira do Diabo, ou Peyton Place, nada a ver com seu par de atributos), foi a vez de Johnny dar o troco. Não em Connery, mas em Lana Turner mesmo. Num quarto do Hotel Bel Air, aplicou-lhe um corretivo.No dia 4 de abril de 1958, 11 dias depois do acontecido no quarto do hotel, Lana Turner espera por John Stompanato na sala de casa. Quando Johnny adentra a mansão de North Bedford Drive, ela está decidida a armar o barraco . Como já se disse, fuma furiosamente. - Está tudo acabado, John.Na sala, o ar é tão pesado que poderia ser cortado com uma navalha. Mas Johnny tinha outras idéias com relação a isso.- Sua piranha desgraçada! Não vai se livrar de mim! Vou cortá-la primeiro. Encontrarei você onde estiver. Meu pessoal a encontrará, sabe como é? Se alguém vive das mãos, quebram-se as mãos. Se alguém vive do rosto, destrói-se o rosto. Por isso vou cortá-lo. Nunca mais poderá trabalhar. Tenho quem faça o serviço por mim, enquanto assisto.Johnny gargalha.- Monstro! Não toque em mim! Saia daqui! Fora! Fora!- Sua p..., você vai morrer!Johnny Stompanato, o Handsome Harry, nasceu em uma família ítalo-americana do Illinois. Era uma criança problemática e por isso o pai o colocou num colégio militar exclusivamente masculino. Aos 18 anos, servindo entre os marines, foi mandado para o Pacífico Sul durante a 2ª Guerra Mundial. Quando o conflito terminou, seu grupamento desembarcou na China. E por lá Johnny resolveu ficar, administrando um nightclub que naturalmente foi à falência. Para casar-se com uma turca por quem tinha se apaixonado, converteu-se ao Islã. De volta aos Estados Unidos, abriu em Westwood, Califórnia, uma loja que comercializava toda sorte de picaretagens como sendo obras de arte. A nova profissão fez com que se aproximasse de Michael "Mickey" Cohen, o lendário gângster que era amigo de Frank Sinatra, Sammy Davis Jr. e William Randolph Hearst - este, o poderoso editor de jornais que inspirou o personagem de Orson Wells em Cidadão Kane.Na Hollywood dos anos 50, Mickey Cohen era o rei do jogo ilegal e o responsável pelo tráfico de drogas. Foi vítima de uma série de atentados e acabou preso em Alcatraz acusado de burlar o fisco. Johnny Stompanato era uma espécie de guarda-costas de Cohen, além de oportunista barato e gigolô. "Era bonito como um ator de filme B, mas passava despercebido numa cidade em que qualquer garçom tinha perfil de galã", descreve Cheryl Crane em Detour (Arbor House, esgotado), autobiografia publicada por ela em 1988. "Johnny era muito forte, mas falava manso e usava frases curtas, para disfarçar seu inglês precário. Raramente ria alto e parecia sempre perturbado. Mas poderia ele realmente navalhar uma mulher?" Nunca se sabe. Na mansão de Beverly Hills, Cheryl Crane acaba de se desvencilhar de suas cobertas. Com Lana Turner, porém, ocorre justamente o contrário: ela está em maus lençóis. Cheryl sai de seu quarto e desce as escadas. Está tomada por vastas emoções e pensamentos imperfeitos. Escuta a voz de Johnny ecoar nervosa na penumbra:- Você vai morrer, sua p...Sobre a pia da cozinha, Cheryl vislumbra um facão de carne. O facão brilha. A trama se adensa.Cheryl tem apenas 14 anos. É alta e forte. De chinelo felpudo, penhoar e facão de carne, ela sobe as escadas da mansão colonial de North Bedford Drive. Pára em frente ao quarto de Lana Turner, onde o bicho está pegando (the animal is catching). Johnny continua a rugir:- Não pense que esse é o fim, porque você não vai viver para ver o fim! Cheryl bate à porta.- Por favor, Johnny, não fale assim com a minha mãe. A porta abre-se repentinamente. Lana Turner está com a mão na maçaneta. Johnny está atrás dela, o braço pronto para golpeá-la. Cheryl dá um passo adiante. Johnny também. A lâmina penetra na barriga de Johnny. Por três horríveis segundos, os dois corpos se fundem.- Meu Deus, Cheryl, o que você fez? - indaga Johnny, olhando-a fixamente. Em seguida, ele próprio retira da barriga o facão. Caminha para trás. Depois desaba como um tigre ferido, arrasta-se como uma barata doente. Cheryl segura pelo cabo um aço vermelho e brilhante. Deixa o facão cair. Lana Turner joga-se sobre Johnny, acudindo-o com uma toalha molhada sobre o furo abaixo do mamilo direito. Mas um som terrível e catarroso emerge de seu interior. Johnny está morto como um faraó. Sobem os caracteres:Lana Turner viveu anos de depressão e alcoolismo depois da morte de Stompanato. Superado o vício, tornou-se militante contra o consumo de bebidas. Seu depoimento à polícia depois da morte de Johnny é considerado por muitos sua melhor performance. Nunca parou de fumar. Morreu de câncer na garganta em 29 de junho de 1995, em Century City, Califórnia. Cheryl Crane foi declarada "culpada de homicídio justificado". Mandada para um reformatório do Estado, fugiu em 1960. Recapturada, foi solta em 61. Oito anos depois, voltou a ser presa com três pés de maconha no banco traseiro do carro. Mais tarde declarou-se publicamente "lésbica". Sua companheira Jocelyn Josh LeRoy era considerada por Lana "uma segunda filha". Cheryl é corretora de imóveis em Palm Springs, LA . Localizada pela reportagem, negou-se a dar entrevista.Johnny ficou estendido no chão do quarto onde morreu por uma hora e meia, até que a polícia fosse finalmente chamada. Antes dos policiais, pelo menos seis pessoas tiveram acesso à cena do crime, entre eles o maior advogado crimalista de Los Angeles, Jerry Giesler. Não havia sangue no quarto nem impressões digitais na faca usada. Johnny descansa há 50 anos no cemitério Oakland, em Woodstock, Illinois. Os diálogos desta matéria foram retirados da tradução de um trecho de Detour feita pela revista Nova ( ! ) em 1988, sob o título "Eu matei o amante de minha mãe". COLABORARAM ROBERTO MUNIZ, SNOOPY E RAYMOND CHANDLER

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