Godard comandou 1968, o ano da virada no cinema brasileiro e mundial

Godard comandou 1968, o ano da virada no cinema brasileiro e mundial

Cineasta francês teve cinco de seus filmes lançados no Brasil no ano em que Nelson Pereira dos Santos e Rogério Sganzerla fizeram suas obras-primas

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

10 Março 2018 | 16h00

1968 não teve início no primeiro dia de janeiro, mas em 28 de março. Às 18h30 daquela quinta-feira, o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, 18 anos, foi morto por policiais militares, durante uma invasão do restaurante de estudantes do Calabouço, no Rio. Dali em diante, a reação ao regime militar ganhou as ruas, a repressão recrudesceu, culminando, cinco meses depois, com a primeira manifestação de massa contra a ditadura, e a decretação do AI-5, em 13 de dezembro, quando 1968, efetivamente, chegou ao fim. 

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Em todas as esferas, instâncias e circunstâncias, aqui e na maior parte do Ocidente, 1968 foi um ano inesquecível, um turning point político, estético e comportamental, que teve o cinema como seu mais saliente protagonista. Ao mítico mês de maio de 68, auge da agitação estudantil nas ruas de Paris, precedeu um chienlit cinematográfico, envolvendo o então ministro da Cultura, o escritor André Malraux, e o intocável diretor da Cinemateca Francesa, Henri Langlois. 

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Por motivos políticos, Malraux afastou Langlois da Cinemateca em fevereiro, mas teve de engolir seu triunfal retorno no início de maio, sob pressão de cineastas, críticos, atores e diretores, que, motivados por reivindicações mais amplas e radicais, acabariam montando uma frente de ação revolucionária, ao estilo 1789, e fechando o Festival de Cannes, após sua sessão de abertura. À frente da luta e do motim festivalesco, os cineastas Jean-Luc Godard e François Truffaut. 

Godard sempre foi e continuaria sendo mais politizado do que Truffaut e também o mais original, audacioso e polêmico cineasta francês. Revolucionara a maneira de se fazer filme e refletir sobre o mundo com uma câmara, e vivia o apogeu de sua petulância quando se tornou o mais extremado “soixante-huitard” da Nouvelle Vague. Mas sua utopia de um cinema marxista, de parceria autoral com a classe trabalhadora, resultou tão frustrada quanto a aliança dos estudantes com os proletários da Renault.

Idolatrado e execrado por boa parte da crítica, Godard teve cinco filmes inéditos lançados no Rio em 1968: A Chinesa (La Chinoise), Tempo de Guerra (Les Carabiniers), Duas ou Três Coisas que Eu Sei Dela, Masculino-Feminino e Made in U.S.A. Parecia até combinado. Na semana em que que Edson Luís foi morto pela polícia, um deles, Tempo de Guerra (Les Carabiniers), estava em cartaz no cinema Paissandu, o mais frequentado templo da cinefilia carioca nos anos 1960, em cujo altar-mor nenhuma outra deidade fazia sombra a Godard. Era uma sala de 742 lugares, entregue ao desvelo de um bonachão gerente de nome bressoniano, Baltazar, e foi um dos pontos de encontro da turba que em 26 de junho partiu rumo ao centro da cidade para engrossar a Passeata dos 100 mil contra a ditadura. 

Les Carabiniers — com apenas três homens, um velho jipe e uma paisagem invernal — é o mais antiespetacular filme de guerra imaginável. Godard aborda a guerra como um fenômeno cotidiano, como uma atividade tão normal que sua ausência poderia parecer absurda. Zero de grandiloquência, romantismo e sentimentalismo. Gerou controvérsias na França, onde Godard ganhou até a pecha de fascista, mas aqui foi melhor metabolizado do que A Chinesa, o mais discutido dos cinco filmes do cineasta lançados naquele ano. 

A facção maoísta da Geração Paissandu sentiu-se desconfortável com o tratamento caricatural dado por Godard à chinoiserie ideológica assumida pela juventude leninista francesa ao sabor da Revolução Cultural. Enquanto o Vietnã explodia em chamas de napalm, os maoístas parisienses, entrincheirados em pilhas de livrinhos vermelhos de Mao, trocavam slogans e palavras de ordem num apartamento do 8º arrondissement. Tachado de “subversivo” pela nossa Censura, terminou liberado pelo ministro da Justiça do governo Costa e Silva, que o entendeu como “uma inteligente sátira à esquerda festiva”.  

Dos demais filmes de Godard exibidos no Rio em 1968, todos desconcertantes — Made in U.S.A. era um thriller político em que se mesclavam o rapto e assassinato, em Paris, do líder oposicionista marroquino Ben Barka e a agressão americana ao Vietnã; Duas ou Três Coisas que Eu Sei Dela explorava a desintegração social promovida pelo consumismo —, Masculino-Feminino revelou-se o mais próximo de nossa realidade e nossas preocupações. Menos por sua pauta abrangente (perplexidades juvenis, Marx, Coca-Cola, sexo, Vietnã, Black Power), do que pelo destaque dado ao episódio dos “Oito do Glória”, ocorrido três anos antes, quando oito (na verdade, nove) intelectuais, entre os quais Antonio Callado, Carlos Heitor Cony e Glauber Rocha, foram presos durante uma manifestação contra o governo Castello Branco, defronte o Hotel Glória.

Nas listas de “melhores do ano”, Godard marcou presença com pelo menos um título (A Chinesa), às vezes com dois ou três, façanha particularmente notável numa temporada pródiga de grandes criações de Bergman (Persona), Buñuel (Bela da Tarde), Jacques Tati (Playtime), Pasolini (Édipo Rei), Rivette (A Religiosa). Foi ainda em 1968, inaugurado com o lançamento de A Primeira Noite de um Homem (The Graduate), que os brasileiros viram 2001, Bonnie e Clyde, três obras capitais de Robert Bresson, o mais moderno filme de Nelson Pereira dos Santos (o marcusiano Fome de Amor), e foram apresentados a Marco Bellocchio (De Punhos Cerrados) e ao histórico manifesto, Cinema Fora da Lei, de um jovem paulista de 22 anos, chamado Rogério Sganzerla, por coincidência ou não, divulgado em maio e posto em prática no inventivo O Bandido da Luz Vermelha, que só não entrou na lista dos críticos cariocas porque sua estréia no Rio só se daria em maio do ano seguinte.

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