Graças aos filhos de Shahzad

Algo no íntimo do terrorista impediu-o de se matar. Por que ele partiu sem se explodir no carro-bomba e foi em direção à família?

ANTHONY DEPALMA, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2010 | 02h18

Os nova-iorquinos tiveram muito a agradecer desde a noite quente de sábado quando Times Square - que eles gostam de imaginar como a Encruzilhada do Mundo - estava repleta de turistas, escolares, frequentadores de teatro e pessoas de outros países que realmente fazem de "Gotham" uma cidade global. Eles sabem que a terrível bomba improvisada de gasolina, gás propano, fogos de artifício e fertilizante - todos ingredientes do terror - que estavam acondicionados num antigo veículo utilitário esportivo estacionado displicentemente no meio-fio, falhou. Ouviram falar sobre como vendedores ambulantes pensaram rápido e policiais diligentes reagiram prontamente ao perigo. E estão duplamente aliviados porque as autoridades identificaram o suspeito do atentado, Faisal Shahzad, antes que ele pudesse fugir em um jato com destino ao longínquo Oriente Médio.

Também sou grato a isso tudo. Mas agradeço, sobretudo, a Deus pelos dois filhos de Faisal Shahzad. Ainda não sabemos qual foi a verdadeira motivação de Shahzad para sua desventura assassina, mas podemos estar certos de que não pretendia se matar com todos os homens, mulheres e crianças inocentes cujas vidas teriam sido extintas se ele decidisse se explodir dentro da velha e enferrujada Nissan Pathfinder que comprou por US$ 1.300 algumas semanas atrás. A tranquilidade com que ele dirigiu para Times Square sem ser detectado é um lembrete inevitável de que todas as câmeras de vigilância do mundo não serão suficientes para captar cada futuro assassino disposto ao crime, mas absolutamente não preocupado em fugir.

Shahzad, contudo, pretendia fugir. Saiu apressado da Nissan sem se assegurar de que os explosivos haviam detonado. Como qualquer um dos milhões de usuários do transporte público que transitam pela região, ele seguiu às pressas para o Terminal Grand Central para pegar um trem e voltar para sua casa no confortável Connecticut suburbano. Aí, dois dias depois, com as notas de US$ 100 que ainda tinha no bolso, comprou uma passagem no último minuto, presumivelmente para se reunir com a mulher e os dois filhos no Paquistão.

Shahzad viveu quase 12 anos nos Estados Unidos, desfrutando das benesses do sistema que o país representa e ele tentou destruir. Com diplomas de universidades americanas, conseguiu obter bons empregos em grandes corporações, ganhando dinheiro suficiente para ele e a mulher, paquistanesa de origem americana, comprarem uma casa nova em folha num subúrbio americano afluente. Eles aparentemente haviam planejado mudar da casa e vendê-la pelo preço mais alto possível antes de a bolha estourar - um sinal de verdadeiro espírito capitalista e a assinatura de um jovem pai pensando no bem-estar futuro de sua família.

O que quer que tenha acontecido no ano passado quando Shahzad voltou ao Paquistão e, segundo o próprio relato, foi de carro com amigos para o deserto ocidental do Waziristão para ser treinado em terrorismo e fabricação de bombas, está claro que ele não comprou a velha ideia de que se sacrificar pela jihad lhe garantiria uma passagem para o paraíso. Alguma parte de Shahzad permaneceu enraizada neste mundo onde seus filhos vão crescer. Seja lá como for que ele pretendia justificar para a família sua tentativa assassina, a relutância em morrer pela causa política ou religiosa o impediu de garantir que o terror que buscava infligir a Nova York fosse seu último legado.

É insondável para mim, como pai, associar a tentativa de Shahzad em Times Square com sua vida na América. Não longe de onde ele estacionou o carro fica o teatro da Broadway onde está sendo encenado O Rei Leão. Do outro lado da rua fica uma enorme loja Toys "R" Us onde crianças fazem fila para entrar na roda-gigante interna. Seguramente crianças teriam ficado feridas, talvez mortas, se Shahzad não tivesse se preocupado em voar de volta para estar com os próprios filhos. Difícil de imaginar.

O ministro da Justiça, Eric Holder, chamou a missão de Shahzad de "um claro lembrete da realidade que enfrentamos hoje neste país". Desde o 11 de Setembro, autoridades policiais dizem que frustraram 11 diferentes ataques potenciais em Nova York. Nós que vivemos aqui tentamos rir da situação, falando depreciativamente de como Shahzad foi tão incompetente que usou um tipo não explosivo de fertilizante e deixou tantas pistas no carro em Times Square que até um de detetive cego conseguiria rastreá-lo.

Mas sabemos que tivemos sorte até agora, apesar de estarmos perfeitamente conscientes de que a boa fortuna não durará para sempre. Sabemos que estamos vivendo com o laser vermelho do fuzil de um franco atirador assinalando nossos corações. Cada tentativa frustrada como a de Shahzad aumenta o risco de que um dia os terroristas acertarão.

As autoridades pareciam estar nos preparando para essa eventualidade, lembrando-nos de que continuamos sendo alvo. "Não seremos intimidados", bravateou o prefeito Michael Bloomberg, "e mesmo que um terrorista consiga se infiltrar, continuaremos vivendo nossas vidas."

Só nos resta esperar que o próximo Shahzad também tenha filhos, e uma hipoteca, e um pedaço do sonho americano guardado em algum lugar entre as páginas do fim de seu Alcorão. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

ANTHONY DEPALMA É JORNALISTA AMERICANO E AUTOR DE CITY OF DUST, SOBRE AS CONSEQUÊNCIAS DO 11 DE SETEMBRO, A SAIR EM BREVE NOS ESTADOS UNIDOS

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