Grisalho e barrigudo, cumprindo prisão perpétua desde 97, o terrorista Chacal enfrenta julgamento na França

CAROLINA ROSSETTI

O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h08

Vladimir e Ilich foram os nomes escolhidos para os garotos pelo pai, um advogado venezuelano, em homenagem a Lenin, para desgosto da mãe, católica. Vladimir deu continuidade aos ideais paternos via militância na esquerda venezuelana e filiação ao partido do presidente Hugo Chávez. Hoje ele é engenheiro e organiza em Caracas passeatas pela repatriação do irmão. Ilich, nove anos mais velho, escolheu a luta armada, a bandeira palestina e o codinome Carlos, tornando-se o terrorista mais procurado do mundo nos anos 70.

O apelido que o deixou famoso, Chacal, foi obra de um repórter britânico do jornal The Guardian, em referência ao best-seller de Frederick Forsyth O Dia do Chacal. Os ditadores Muamar Kadafi e Saddam Hussein viraram seus fãs depois do sequestro dos 11 ministros da Opep em Viena, em 1975.

Carlos cumpre prisão perpétua desde 1997 pelo assassinato de dois agentes da inteligência francesa e um informante libanês. Neste mês, começou mais um capítulo da história do lendário terrorista venezuelano.

Desde o dia 7, o mais velho dos irmãos Ramírez Sánchez enfrenta um segundo julgamento em Paris. A promotoria francesa o acusa de arquitetar quatro atentados à bomba na década de 80 que deixaram 11 mortos e centenas de feridos. Dois dos ataques foram em trens franceses, outro em frente à redação de um jornal árabe em Paris e o quarto na estação Saint-Charles, em Marselha.

No primeiro dia do julgamento, Carlos, hoje um sujeito grisalho e barrigudo, em vez de culpado ou inocente se declarou "revolucionário profissional". Alguns aplausos vindos do fundo do tribunal irritaram o juiz Olivier Laurent. Vladimir não fazia parte do pequeno grupo de simpatizantes no Palais de Justice, mas, de Caracas, ele acompanha atento as audiências.

Os irmãos não se veem há 37 anos. A última vez foi na antevéspera do aniversário de 25 anos de Ilich, no apartamento da família em Londres. Retomaram o contato depois da prisão de Carlos em 1994 e agora conversam com frequência pela linha telefônica da penitenciária de La Santé.

"Ele me liga todo sábado. Está confiante, seguro de que a acusação não tem um caso sólido", diz Vladimir, que fundou a Brigada Internacionalista de Solidariedade Ativa Ilich Ramírez. "Foi a figura paterna da minha vida depois de a separação de nossos pais. Ele me ensinou a agir como homem."

Segundo Vladimir, Carlos passa bem, apesar da greve de fome de dez dias em protesto pelo isolamento penitenciário que o impediu de se reunir com os advogados antes do julgamento. A punição foi imposta por causa de um celular contrabandeado para a cela de Carlos. "Meu irmão já é um senhor de 62 anos que reclama de dores no nervo ciático. Sua saúde está abalada, mas a firmeza de seus ideais continua intacta."

A única estratégia da defesa até agora tem sido a de negar a validade do julgamento. Um dos argumentos é o de que já se passaram 17 anos, portanto os crimes prescreveram. Sua advogada e atual mulher, a francesa Isabelle Coutant-Peyre, diz que Carlos não é um criminoso, e sim um "político como Mandela". Ela argumenta que todo o procedimento jurídico, desde a operação de inteligência para encontrar e prendê-lo no Sudão, foi ilegal.

Em agosto de 1994, agentes da polícia secreta francesa capturaram o venezuelano em Cartum, capital sudanesa. Ele foi sedado e trazido para Paris vendado e dentro de um saco. "Foi um sequestro, uma violação dos direitos de meu irmão", diz Vladimir, que tem no episódio a principal base para pedir a extradição para a Venezuela.

O presidente Chávez recentemente fez azedarem as relações de seu o país com a França ao dizer que Carlos é um "digno seguidor" das lutas de libertação dos povos e seus direitos enquanto cidadão venezuelano têm de ser protegidos. Outra notícia que irrita Paris é a de que embaixada venezuelana nunca deixa faltar a Chacal seus charutos cubanos favoritos.

Os promotores franceses defendem que ele organizou os quatro atentados para forçar a França a libertar sua namorada alemã Magdalena Kopp, presa em 1982 por dirigir um carro recheado de explosivos. Como prova, a acusação apresentou uma carta anônima dirigida ao então ministro do Interior da França, Gaston Defferre, exigindo a libertação de Magdalena e de um amigo suíço, Bruno Bréguet. A defesa diz que a carta é falsa, embora contenha as impressões digitais de Carlos, que pode pegar mais uma prisão perpétua se condenado. Vinte testemunhas devem depor até 16 de dezembro, quando sai o veredito, inclusive Magdalena, com quem o venezuelano tem uma filha de 25 anos.

"Mas já está tudo decidido", reclamou a advogada e atual mulher, Isabelle, em entrevista coletiva. "Ele não consegue fugir do rótulo de terrorista".

O jornalista britânico John Follain, autor da biografia The Secret Wars of Carlos the Jackal (Trafalgar Square, 1998), vive hoje em Paris e diz que o julgamento, ainda que tardio, é um evento histórico e uma resposta do governo francês aos parentes das vítimas. "Chacal era o Bin Laden de seu tempo, ainda que sempre tenha rejeitado a imagem de terrorista playboy e mulherengo da imprensa e dos filmes. Ele é um homem congelado na década de 70 e ainda se vê como um revolucionário. Nunca mostrou sinal de remorso. E tratava suas vítimas como danos colaterais."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.