Guerra de versões

Guerra de versões

Papéis da Cruz Vermelha desvendam os campos de concentração brasileiros entre 1942 e 1945

Jamil Chade,, O Estados de S. Paulo

08 de agosto de 2009 | 18h43

Nos porões da sede do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), em um bairro afastado do centro de Genebra, na Suíça, o silêncio é quebrado apenas pelos passos dos poucos funcionários com acesso ao local. Ali, nos arquivos da entidade, escondem-se centenas de milhares de páginas que documentam a história das guerras. Boa parte do acervo é dedicada à 2ª Guerra Mundial, mas há também farto material sobre conflitos na África e América Central, regimes militares na América do Sul e guerras americanas no Afeganistão e Iraque.

 

O Estado teve acesso com exclusividade a um capítulo pouco conhecido da participação brasileira na última Grande Guerra: a história dos campos de concentração implementados no País pelo governo de Getúlio Vargas, entre 1942 e 1945. Marinheiros, espiões, engenheiros, banqueiros - supostos colaboradores do regime nazista - foram levados para instalações na Ilha das Flores, Ilha Grande, Casa de Correção do Rio de Janeiro e outras, como prova do alinhamento brasileiro aos Aliados, o que só ocorreria após forte pressão norte-americana.

 

Os documentos revelam que, mesmo distante do palco da guerra, o Brasil adotou uma postura de resistência à ajuda humanitária aos presos, recusou-se a dar nomes de detidos e transferiu muitos em sigilo para os campos de concentração nos EUA. Mas, cartas e relatos - impressos em delicados papéis de seda que não podem ser copiados nem escaneados - explicitam as contradições do governo de Vargas em relação à guerra. E fazem entender por que o Estado Novo em um primeiro momento não rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo. Só após o acordo de Vargas com a Casa Branca, em 1942, e a represália alemã no ataque a navios do País, a guerra é declarada e 25 mil soldados brasileiros vão para a Europa.

 

É nesse contexto que surgem os campos de concentração brasileiro, para onde foram levados cidadãos acusados de manter relação com os nazistas ou governos do Japão e da Itália. O Brasil alegava que esses civis representavam ameaça à segurança do Estado e os classificava de "presos políticos". O regime Vargas também tentou importar 38 mil soldados italianos que haviam sido capturados pelas tropas aliadas na África para trabalhar na lavoura em São Paulo, onde havia escassez de mão de obra.

 

O primeiro campo foi o de Ilha das Flores (RJ), e as notícias que chegaram à Alemanha puseram a alta cúpula do regime de prontidão. Cartas da Cruz Vermelha Alemã, controlada pelos nazistas, começaram a chegar a Genebra, cobrando investigações. É então que o CICV se oferece ao Brasil para intermediar a relação com o Eixo. O diálogo mostra que dentro do governo Vargas não havia um entendimento claro sobre como tratar esses prisioneiros. O Itamaraty, por exemplo, era a favor de que eles pudessem receber visitas. O Ministério da Justiça, contra. Um relatório de agosto de 1942 deixa claro que o chanceler Oswaldo Aranha aceitava a atuação da entidade, mas "com limitações". Só depois de seis meses de negociação o delegado suíço Eric Haegler foi autorizado a vir ao Brasil.

 

As primeiras informações davam conta de que a situação dos prisioneiros no Brasil era "delicada". Em uma carta de julho de 1942, o CICV informa ao governo suíço que o tratamento da polícia do Rio em relação aos prisioneiros "deixa muito a desejar". Mas após as primeiras visitas da agência humanitária aos campos brasileiros - que só ocorreram um ano depois de sua abertura - percebe-se que tais locais de forma alguma faziam lembrar as usinas de massacre adotadas pelos nazistas em seus campos de extermínio. As queixas dos prisioneiros em geral limitavam-se à obrigação de trabalhar na colheita ou às condições de moradia em estábulos adaptados.

 

Na Ilha das Flores, Baía de Guanabara, o CICV encontrou 161 prisioneiros que comiam quatro vezes por dia. "Café da manhã, carne ou peixe com legumes no almoço, o mesmo para o jantar e chá à noite", registra a entidade. Suas famílias eram autorizadas a levar alimentos e alguns dos prisioneiros chegaram a "ganhar peso". Para passar o tempo, os detentos "tomavam sol, jogavam pingue-pongue e cartas".

 

Alguns presos admitiram ter de fato relações com os nazistas, como um banqueiro que atuava como "informante oficial" e a esposa de um prisioneiro em um campo que admitiu que seu marido "hospedou um agente da Gestapo". Outros estavam ali simplesmente por serem alemães. E o CICV chama a atenção para o fato, ressaltando que muitos desses prisioneiros nem sequer foram interrogados, muito menos julgados. Na Ilha das Flores, Haegler concluiu que "muitos ainda não sabem por que foram presos". O delegado suíço registra ter ouvido das autoridades brasileiras que o País "sabia distinguir" entre os que viviam em paz e aqueles que "não retribuíam a hospitalidade brasileira".

 

Ainda assim, a entidade nunca conseguiu convencer o governo brasileiro a dar todos os nomes dos prisioneiros - pois estimava-se que, ao passar os dados das pessoas presas, o Reich saberia com quais espiões ainda poderia contar no País. Havia a presunção de que os dados colhidos pelos suíços seriam repassados à Cruz Vermelha alemã, ligada aos nazistas.

 

Diante da resistência do Brasil, o número de prisioneiros jamais foi estabelecido. O governo brasileiro alegava serem 483. O CICV especulou entre 2 mil e 3 mil. Já Berlim falava em até 8 mil. Estariam também em localidades como Manaus, Recife, Bauru, Guaratinguetá, Ribeirão Preto, Pirassununga, Florianópolis e Porto Alegre. O CICV contabilizou 85 presos no campo de concentração de Pindamonhangaba, vários oriundos do navio mercante Windhuk - retido pelas autoridades brasileiras ao atracar no País.

 

No dia 29 de julho de 1943, o CICV no Brasil alerta Genebra sobre 62 marinheiros capturados em um navio alemão, Annelise Essberger, em Recife, e os considera, de fato, "os primeiros prisioneiros de guerra". Na visita realizada em seguida, os delegados ouviram dos alemães que estes tinham dificuldades com os pratos brasileiros. "Alguns membros do navio se queixam do feijão, difícil de digerir para um alemão", diz o informe. Outros documentos revelam que o governo brasileiro usou os prisioneiros como moeda de troca para garantir a liberação de diplomatas do Itamaraty detidos na Alemanha.

 

Com a capitulação alemã assinada em 7 de maio de 1945, o Ministério da Justiça no Brasil informou ao CICV em agosto que libertaria os prisioneiros. Ainda assim, os detentos tiveram seu movimento limitado e cartas de 1946 apontam a permanência de presos políticos no País. Uma nova missão do CICV foi enviada ao Brasil. Já com o governo derrubado, os delegados deixam claro em seus relatórios que "todos qualificam o regime Vargas de ditadura". O Estado Novo não resistiu ao fim do conflito. Mas suas contradições continuam guardadas nos arquivos do CICV.

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