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Guerra esculachada

Com seu jeito debiloide, Seth Rogen, estrela do vetado ‘A Entrevista’, debocha das ditaduras

Pablo Miyazawa, O Estado de S. Paulo

20 Dezembro 2014 | 16h00



Como dizer a um cara tão legal como Seth Rogen que ele foi longe demais? Antes de A Entrevista, filme que escreveu, codirigiu e estrelou, jamais um ditador da vida real havia sido morto em um produto de Hollywood. Quando Tarantino esburacou Hitler em Bastardos Inglórios, pouca gente reclamou do fato - o carrasco nazista já estava morto havia seis décadas. Neste caso, o líder norte-coreano Kim Jong-un está vivo, o bastante para poder assistir a ele próprio explodindo em pedaços em A Entrevista. E é improvável que encontre graça na cena.

Mesmo pressionado de leve pelo estúdio Sony Pictures (que bancou o longa), Rogen jamais cogitou reescrever o roteiro e poupar o “vilão”. Se o assassinato de Kim Jong-un é o pilar do enredo, como poderia o filme terminar de outro jeito? Essa provavelmente seria a conclusão que passou pela cabeça desse canadense de 32 anos, que com o vozeirão de barítono bonachão soltaria um “se tudo acaba bem, então qual é o problema?”, seguido de uma gargalhada debiloide saída do fundo da garganta.

É essa a ideia que o mundo tem de Seth Rogen: um cara desleixado e infantil, um pouco acima do peso, com um preguiçoso ar de “tá tudo bem”. Está sempre sorrindo feito bobo, carregando uma piada de duplo sentido e um baseado no bolso pronto para ser aceso. Em uma das cenas de A Entrevista, o personagem de Rogen, um produtor de TV, precisa esconder um pequeno míssil dentro do ânus (o que, a propósito, consegue). Esse tipo de piada digna de alunos de quinta série é algo comum nas histórias criadas por Rogen. A maioria dos personagens e tramas que inventou nos últimos 15 anos foram inspirados no próprio Seth Rogen. Mas hoje em dia ele parece diferente. Está casado, emagreceu, passou a se vestir melhor, encaretou o cabelo degringolado. Mas continua a não pegar papéis de galã. A maconha permanece como acessório obrigatório de sua persona pública e ficcional, mas essa imagem também começa a virar fumaça aos poucos - em A Entrevista, o personagem dele não fuma uma única vez.

Seth Rogen faz o que quer em Hollywood porque é um tipo raro: o cara autêntico que parece legal e genuinamente o é. Seu padrinho de carreira foi o produtor Judd Apatow, que conheceu Rogen em 1998, quando este mal tinha 17 anos, em um teste para o elenco do seriado Freaks and Geeks. Rogen ganhou a vaga para um papel coadjuvante no grupo dos freaks, contracenando com outros atores que seriam seus parceiros e amigos mais tarde - James Franco, ao lado de quem estrela A Entrevista, e Jason Segel, dos recentes Muppets. A série foi cancelada depois de um ano, mas Rogen já tinha entrado no clubinho de protegidos de Apatow, um dos nomes mais poderosos de Hollywood. 

Após anos de preguiça e tentando carreira como roteirista de séries de TV, começou a arrecadar papéis em comédias. A primeira foi O Virgem de 40 Anos, primeiro longa dirigido por Apatow. Em 2007, emplacou um roteiro, Superbad - É Hoje!, escrito na adolescência com o amigo de infância Evan Goldberg. A dupla produziu mais um punhado de scripts de cunho autobiográfico e conteúdo polêmico, como o emaconhado Segurando as Pontas (2008) e o apocalíptico É o Fim (2013), além de A Entrevista, o qual também dirigiram a quatro mãos. 

A maioria dos filmes dos quais Rogen participa inclui o mesmo grupo de atores de origem judaica com quem trabalha desde sempre (a quem gentilmente apelida de The Jew Tang Clan, trocadilho com a palavra “judeu” e o nome do grupo de rap de Nova York). É famoso ainda por não ter filtro e falar mal de quem lhe der na telha. Já xingou publicamente donos de estúdio, produtores, redes de lanchonete e até o compatriota Justin Bieber. 

Também é notória a predileção dele por histórias estranhas e exageradas, determinadas pela total falta de modos. Seth Rogen é grosseiro, sem noção e não está nem aí para o que pensam dele. Os filmes que faz denotam esse descompromisso com o bom senso. Mas será que entraria nos eixos se tivesse bastante a perder? Melhor dizendo, será que Seth Rogen ficará de boca fechada agora que seu filme não será mais lançado?

Ficou claro que A Entrevista já fez mais estrago do que se poderia prever. Um ataque do grupo hacker Guardiões da Paz, que expôs a privacidade de arquivos digitais da Sony, pode ou não ter sido causado como forma de protesto ao filme. O FBI levou alguns dias para atribuir oficialmente a investida à nação liderada por Kim Jong-un.

Rogen e Goldberg, seu parceiro de crime, não queriam crer que exageravam na dose. Ou quiseram ver até onde poderiam chegar antes de o circo pegara fogo. As notas de repúdio ameaçadoras vindas do gabinete de Kim Jong-un jamais foram levadas muito a sério, e foi por isso que o ciberataque fulminante atingiu a Sony de surpresa. 

As ameaças de atentados terroristas que vieram em seguida ao vazamento acabaram com as dúvidas: a distribuidora cancelou o lançamento de A Entrevista, previsto para o Natal, e ainda não marcou nova data. É possível até que o filme jamais veja o escuro dos cinemas, nem mesmo um lançamento em home vídeo. Obama interveio, dizendo que a Sony deveria tê-lo consultado antes do cancelamento e que vai “responder proporcionalmente” ao ataque. A Sony afirmou que fez o que fez porque as salas de cinema se recusam a exibir o filme.

Até o fechamento deste texto, Seth Rogen permaneceu surpreendentemente de boca fechada. Mas, por mais inconsequente e porra louca que seja, no fundo previa que sua comédia estava destinada a grandes propósitos. Para a reportagem de capa da atual edição da revista Rolling Stone, ele comentou sobre a possibilidade de A Entrevista vazar e ser assistido pela população norte-coreana. “Na melhor das hipóteses, fará um país se tornar livre. Na pior, vai causar uma guerra nuclear.” E gargalhou, soando como uma motocicleta engasgada.

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