Guerrilha nas urnas

Negociações com as Farc envolvem não só o possível fim de um conflito de 50 anos, mas as pretensões do atual e do ex-presidente pelo poder na Colômbia

Miguel Ángel Bastenir, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2012 | 03h08

MIGUEL ÁNGEL BASTENIER

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, está jogando a partida decisiva de seu mandato: a partida que arruinou a presidência de Andrés Pastrana (1998-2002); a de Ernesto Samper (1994-98), que acontecimentos alheios à luta contra as Farc tornaram impossível; e na qual também apostou sem sucesso Álvaro Uribe (2202-2010), embora hoje se mostre diametralmente contrário a ela. É a negociação de paz com o movimento guerrilheiro, outrora comunista com causa, mas hoje basicamente narcotraficante. A aposta resume o embate entre Santos e Uribe sobre o futuro do país. Esse embate envolve, no caso do presidente, o desejo de conciliação com os vizinhos, a solução política de um conflito que se prolonga há 50 anos e a reeleição; no caso do ex-presidente, o alinhamento com posições ultraconservadoras no cenário internacional, a vitória sobre a guerrilha e o indubitável desejo de voltar a desempenhar o cargo máximo.

No início do ano, dois militantes das Farc em Bogotá expressaram o interesse dos guerrilheiros em iniciar conversações preliminares. O presidente Santos, que desde a posse em 2010 reconheceu que o final do conflito deveria ter um caráter político, aceitou o desafio. Para tanto, há semanas, ou mesmo meses, vêm sendo realizados contatos em Havana - que, para falar com a violência, é como um centro internacional de convenções - visando a decidir se existe alguma base que permita passar das preliminares para as negociações propriamente ditas, no que espera também o apoio do governo chavista. Os prováveis emissários de Santos, Frank Pearl, ministro do Meio Ambiente, e Sergio Jaramillo, assessor de segurança, pretendem estabelecer com seus ariscos interlocutores uma agenda fechada e uma divisão em frentes de discussão.

A posição dos guerrilheiros, ao que se sabe, é um território tão vasto quanto impreciso. Envolve a reforma agrária, sem que se saiba até que ponto reformar, quantos seriam afetados e se Santos dispõe de força suficiente para impor uma divisão da terra (ou se ele se limitará a devolver as propriedades aos camponeses que as perderam por causa da guerra); protagonismo dos movimentos cívicos, o que em geral significa a esquerda não organizada mais o partido comunista; uma política afirmativa na proteção do meio ambiente; recuperação da soberania na contratação com as multinacionais dos direitos de exploração das riquezas do país, no que são reconhecíveis ecos da frente bolivariana - Venezuela, Equador, de vez em quando a Argentina e, com seu estilo de arqueólogo do pré-colombiano, Evo Morales, da Bolívia.

As forças políticas apoiam majoritariamente o projeto, incluindo a esquerda que está aderindo à social-democracia e a direita, mas com a exceção dos partidários de Álvaro Uribe no Partido Liberal e no Partido Conservador. Eles veem em tudo isso uma traição criminosa a sua ideia de Colômbia. Ernesto Samper mostra-se cautelosamente favorável: "Há uma convergência que permite um razoável otimismo, como a solidariedade de Cuba e da Venezuela, a situação das Farc na defensiva e os paramilitares extraditados, bem como as leis sociais do presidente Juan Manuel Santos e sua capacidade de lidar com todos esses fatores".

A disputa entre o presidente e seu antecessor será seriamente afetada pela sorte dessa tentativa de paz, que precisa fracassar para que Uribe salve a cara, especialmente diante dos próximos problemas. O general Mauricio Santoyo, seu ex-chefe de segurança, está sendo processado nos Estados Unidos com grandes possibilidade de que seja condenado a muitos anos de cadeia pelo conluio com terroristas do movimento paramilitar. Parece estranho que um presidente que administrava em detalhes o país e se gabava de ter tudo sob controle desconhecesse as manobras do seu assessor militar.

A dura vida das Farc na selva, com a provável convicção de que não poderão ganhar militarmente - o que em grande parte se deve a Uribe - jogam a favor da negociação. Mas o desejo de manter os recursos obtidos por meios desonestos exclui pelo menos os quadros intermediários e superiores da disposição de submeter-se à ação da Justiça. É esse o grande risco ao qual se expõe Santos, o presidente em exercício que cunhou com inteligente moderação o slogan "a paz é a vitória". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.