Guia prático para resistir a Trump: os EUA se preparam para enfrentar o novo governo

Uma mobilização está em curso nos EUA para enfrentar os anos Trump, unindo democratas, republicanos e libertários em geral

Lúcia Guimarães, Impresso

31 Dezembro 2016 | 16h00

A sexta economia do mundo declarou guerra à guerra contra a ciência do clima feita pelo presidente eleito dos Estados Unidos. A sexta economia do mundo é o estado da Califórnia. Num discurso passional, no dia 16 de dezembro, diante de 25 mil cientistas em São Francisco, o governador Jerry Brown disparou: “Trump vai desligar os satélites que coletam dados climáticos? A Califórnia vai lançar seus próprios satélites”.

Se o próximo governo federal tentar perseguir cientistas, Brown prometeu defendê-los. “Nós temos os cientistas e os advogados, estamos prontos para a luta!,” bradou, sob aplausos. Brown possivelmente se referia a um pedido que partiu da equipe de transição do candidato eleito: solicitaram ao Departamento de Energia uma lista de todos os funcionários e profissionais terceirizados que participaram de reuniões internacionais sobre o clima nos últimos cinco anos. O Departamento, sob instrução do governo Obama, recusou, mas o recado sinalizando uma possível caça às bruxas provocou um coletivo frio na espinha da comunidade científica. Mesmo antes de a lista ser recusada, numa iniciativa de crowdfunding, cientistas começaram a copiar freneticamente os dados de mudança climática compilados pelo governo federal, temendo que sejam perdidos quando um gabinete de notórios céticos sobre o aquecimento do planeta assumir em Washington.

Uma grande mobilização para enfrentar os anos Trump está em curso nos Estados Unidos e, pela primeira vez, em décadas de polarização partidária, vemos republicanos, democratas e libertários compartilhando abertamente posições, assim, como fizeram antes da eleição. Uma frente de ação propõe usar as lições do Partido Republicano de Trump em sua incansável campanha de oito anos para bloquear iniciativas de Barack Obama. Um exemplo? As táticas do Tea Party de micromilitância em legislativos locais. Um grupo de ex-funcionários democratas do Congresso lançou o amplamente circulado manual Indivisível: Um Guia Prático para Resistir à Agenda Trump, com sugestões, passo a passo, para fazer minorias serem ouvidas em Washington. O Partido Republicano controla as duas casas do Congresso. Assim como a única agenda nacional do Tea Party era ser anti-Obama, os democratas acham que ser anti-Trump é o ponto de partida para enfrentar as inúmeras promessas de desmonte de políticas sociais, regulação financeira, seguro saúde e meio ambiente.

Ao contrário da explosão de descontentamento pós-crash de 2008 que impulsionou o Tea Party, a oposição a Trump navega em águas nunca testadas, uma vez que o bilionário vai quebrando diariamente o protocolo da função, não só provocando crises internacionais via Twitter, mas testando a Constituição como nenhum outro eleito para o cargo.

Um grupo de 42 especialistas, entre eles proeminentes acadêmicos especializados em Direito Constitucional, enviou uma carta a Donald Trump, no último dia 13, alertando que suas promessas de campanha em diversas áreas, como liberdade de imprensa, independência do Judiciário e discriminação racial são inconstitucionais. O professor de Direito David Cohen e a editora Dahlia Lithwick, uma das mais respeitadas jornalistas do país na área constitucional, acusaram o Partido Democrata de apatia e de deixar o debate nacional para acadêmicos. Num artigo de opinião no New York Times, Lithwick e Cohen argumentaram: se Trump tivesse a vantagem de quase 3 milhões de votos populares, obtida por Hillary Clinton, um batalhão de advogados do Partido Republicano estariam disputando o resultado da eleição? Especulação vazia? Foi exatamente o que fizeram na Flórida na eleição de George W. Bush em 2000, lembram os autores.

Uma outra tática usada por republicanos e que deve ser imitada pela oposição é a de ações judiciais. Um grupo de Procuradores Gerais eleitos com apoio democrata deve mover ações coordenadas para enfrentar o presidente eleito. O Procurador Geral de Nova York, Eric Schneiderman, processou Trump por fraude em sua defunta Trump University e obteve uma indenização de US$ 25 milhões, que ele vai pagar na véspera da posse, no dia 20. Na mesma rica e combativa Califórnia, o novo Procurador-Geral Xavier Becerra, um filho de imigrantes mexicanos, desafiou Trump a “vir até nós” se quiser deportar imigrantes sem documentos.

Pelo menos 37 “cidades santuário”, que protegem imigrantes sem documentos, já se declararam dispostas a enfrentar as ameaças de deportação em massa feitas por Trump. Assim, cidades como Nova York, Los Angeles e São Francisco estão sob risco de perder milhões de dólares de ajuda federal, outra ameaça feita por Trump para os primeiros cem dias de governo.

Nas noites de terça-feira, em Nova York, ativistas têm se reunido em igrejas e ainda não decidiram o nome de seu grupo. Mas sabem o nome de sua fonte de inspiração: o Act Up, nascido há 30 anos para combater a epidemia de Aids, um flagelo que o então presidente Ronald Reagan fez tudo para ignorar. O movimento Act Up era disciplinado, bem informado e não fugia de confrontos. Sobreviventes da militância do Act Up, escolados na aberta hostilidade que boa parte da população demonstrava no começo da epidemia associada aos gays, oferecem sua experiência no engajamento dos atores certos. Fosse nos corredores de Washington, nas manifestações de rua ou na definição de alvos precisos, o grupo teve papel relevante no combate à Aids.

Uma pesquisa da rede NBC e do Wall Street Journal revelou que a maioria dos norte-americanos (54%) expressa pessimismo ou incerteza sobre a presidência Trump. É um índice de apreensão bem mais alto do que os registrados no começo das eras Bush e Obama. Difícil é prever se o mal-estar que não foi suficiente para tirar muitos eleitores de casa vai ser transformado em ações consequentes.

LÚCIA GUIMARÃES, JORNALISTA E COLUNISTA DO CADERNO 2. VIVE EM NOVA YORK DESDE 1985

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