GULOSA E LIBIDINOSA

Magali, a devoradora de melancias, quem diria, virou motivo de escândalo na semana que passou. Se você ainda não sabe da história: a Escola Luiza Batista de Souza, em Rio Branco (AC) resolveu usar uma tira de quadrinhos da Mauricio de Sousa Produções numa prova do 4º ano do ensino fundamental.

DAGOMIR MARQUEZI, DAGOMIR MARQUEZI É ESCRITOR, JORNALISTA , E ROTEIRISTA. AUTOR DE LIVROS COMO AUIKA!, , O OCIDENTE É VERMELHO, O CASO DA MULHER , DRAGÃO. ACABA DE LANÇAR A COLETÂNEA DE , ENSAIOS EU SOU ANIMAL (AMAZON/KINDLE), O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2013 | 02h19

A tira original mostrava os inocentes Cebolinha e Magali num carrinho de pipoca. Cebolinha diz: "Eu quelo um saco de pipocas". O pipoqueiro pergunta: "E a garotinha?" No quadrinho seguinte Magali respondia: "O que sobrar!". Na prova, a questão perguntava qual a expressão do pipoqueiro em reação à fala de Magali: a) alegre b) triste c) emocionado ou d) espantado.

Acontece que na tira usada para a prova, Magali tinha uma resposta bem diferente: "Uma pica!". O que poderia gerar indagações diferentes sobre a expressão do pipoqueiro: a) chocado b) estupefato c)intrigado ou d) atônito. A tira virou sucesso nas redes sociais, claro, reproduzida e compartilhada como uma praga, sempre acompanhada dos habituais "kkkkkkkkkkkkkkks" e "rsrsrsrsrsrsrsrsrs".

A própria direção da escola explicou o acontecido em comunicado oficial: "O erro, que a equipe escolar reconhece e assume com humildade, resultou de uma operação de 'copiar e colar' na internet. O original da referida prova, anexo, traz a tirinha original da Turma da Mônica do escritor Mauricio de Sousa. Ao acessar a internet não se teve o cuidado devido de observar a versão que estava sendo copiada, cujo conteúdo é impróprio e não recomendado para uma instituição escolar".

O funcionário da escola do Acre provavelmente nem prestou atenção ao que estava fazendo. Ou teria percebido que estava copiando e colando uma tira em quadrinhos já modificada por algum engraçadinho, que trocou as palavras do balão final. Provavelmente na hora em que realizou a operação o funcionário estava lendo o Twitter, postando no Google+, conversando no Facebook, atualizando o perfil no Linkedin, dando upload no Pinterest e download no Instagram, tudo ao mesmo tempo. A internet é uma fonte natural de distração, especialmente nesse terreno hiperativo das redes sociais.

A professora que aplicou a prova, uma senhora de 50 anos, declarou, segundo o portal G1: "Quando a gente recebeu a prova, vi a expressão e não achei maldade nenhuma. A gente trabalha com as crianças para tirar a maldade, esse mau pensamento, essa coisa ruim do pensamento deles". Hierarquicamente acima da professora, a coordenadora pedagógica acreditou que "como se tratava de uma questão de interpretação, o uso da palavra era intencional". Nenhuma das duas autoridades pedagógicas nem os alunos ou a grande maioria dos pais achou estranho que Magali estivesse pedindo "uma pica" ao pipoqueiro.

O episódio parece reforçar o clima de vale tudo ético tão presente na cultura brasileira. Ninguém se responsabiliza por nada nem reconhece o próprio erro. Uma das mães foi reclamar com a professora. "Eu expliquei que no linguajar popular a expressão é usada como um termo pejorativo do órgão masculino. Porém, ela disse que a maldade está na cabeça do adulto e não da criança e que isso não era um palavrão". Só depois de muita pressão (e gozação na internet) a escola resolveu admitir o erro.

A direção da Escola Luiza Batista de Souza ainda teve que ouvir (pela imprensa) uma bronca do autor da tira original, Mauricio de Sousa, pelo uso não autorizado de seu trabalho. Para completar o clima de galhofa e esculacho, o site NãoSalvo publicou uma seleção de quadrinhos autênticos da MSP com cenas no mínimo dúbias e falas suspeitas. Como Cascão dizendo "encaixa no cabeção e vai descendo!". Ou Chico Bento declarando que tem "mão boa prá outras coisa". Ou Mônica ansiosa para fazer uma tal "cena da linguiça". São falas tiradas do contexto, mas somos um povo fundado na malícia do duplo sentido. Não resistimos a ele.

As crianças do Luiza Batista de Souza provavelmente não vão sair dessa experiência traumatizadas ou pervertidas para o resto de suas vidas por causa de uma fala modificada de Magali, em versão pornô. Mas o episódio revela uma característica cada vez marcante no Brasil: a aceitação de que uma cadeia de erros pode ser apagada com uma frase tola e demagógica como "a gente trabalha com as crianças para tirar a maldade".

Como diria um velho amigo da Magali, o episódio todo foi uma velgonha.

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