Acervo Estadão
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Livro traz poemas inéditos da pioneira da aviação Amelia Earhart

Aviadora se tornou uma lenda entre pilotos após desaparecer em 1937

Christine Negroni, The Washington Post

29 de outubro de 2021 | 12h00

Recentemente fui convidada a escrever o prefácio de um livro de poesia escrito por aviadoras. A editora, a capitã da American Airlines Linda Pauwels, conhecia meu trabalho como jornalista que escreve sobre aviação. Eu não tinha lido muito além das primeiras páginas quando percebi que o livro de Pauwels trazia uma colaboradora de cair o queixo: entre os poemas escritos ao longo de um século de voo estão várias peças inéditas da aviadora mais famosa de todas, Amelia Earhart.

Dezenas, senão centenas de livros foram escritos sobre Earhart, a santa padroeira das aviadoras. Mas eu não estava sozinha na minha ignorância do desejo secreto de Earhart de publicar seus poemas. Apesar de suas muitas realizações, ela desapareceu em 1937 sem ter alcançado esse objetivo.

Tudo isso muda com a publicação do livro de Pauwels, Beyond Haiku: Women Pilots Write Poetry.

O marido de Earhart, George Palmer Putnam, escreveu em sua biografia da esposa: “Verdadeiramente, acho que entre todas as suas muitas ambições, AE teria desfrutado muito de todo o lazer para brincar com as amigas de que ela tanto gostava – as palavras”.

A história de como esses poemas e outros se tornaram públicos quase 85 anos após o desaparecimento de Earhart é fascinante. E, de acordo com Sammie Morris, arquivista da coleção Earhart da Purdue University, eles vão lançar uma nova luz sobre a aviadora.

Earhart foi uma das primeiras aviadoras, pioneira e recordista, professora universitária e bem à frente de seu tempo como defensora dos direitos das mulheres. No entanto, ela também é uma das figuras mais enigmáticas da história, não apenas por causa da maneira como morreu, na etapa final de uma volta ao mundo, mas também porque, ao longo de sua vida pública, foi sempre tenaz em proteger sua privacidade, até mesmo seu desejo de ser escritora. Putnam descreveu esse desejo como “quase secreto”.

“Quando li os poemas de Amelia Earhart, imediatamente percebi que ela era uma de nós”, disse Pauwels, observando que seus poemas abordavam os mesmos temas de outras aviadoras: força, resistência e amor pelo voo. “Nossas vozes falam coisas semelhantes”.

No poema “Do alto do avião”, Earhart escreve:

“Nem mesmo as colinas púrpuras e vigilantes / que dominam o lago / Conseguem ver o que vejo / A mancha da noite / Rastejando de seu coração / Os olhos redondos e amarelos do vilarejo / Crescendo, nublados sob as brumas”.

Embora duas revistas tenham publicado alguns dos poemas desde sua descoberta, cinco dos que aparecem em Beyond Haiku são inéditos, elevando um volume de poesia de nicho com certa inclinação feminista para a última reviravolta na misteriosa saga de Earhart.

Apenas um poema escrito por Earhart veio a público durante sua vida, contra sua vontade, de acordo com Morris, que também é professora de biblioteconomia em Purdue. Num artigo que ela escreveu para o Journal of the Society of Georgia Archivists, em 2005, Morris explicou que Earhart recusara, em 1928, um pedido da autora Marion Perkins para usar o poema “Courage” num artigo que ela estava escrevendo sobre Earhart, mas o poema apareceu mesmo assim.

Nenhum outro poema surgiu mesmo nas décadas desde que Earhart e seu navegador, Fred Noonan, desaparecerem em 2 de julho de 1937.

Poucas pessoas além de Putnam sabiam de sua existência. O segredo de Putnam pode ter ficado mais fácil porque em 1934 um incêndio na casa que ele e Earhart dividiam em Rye, Nova York, destruiu muitos de seus papéis pessoais. O que poucos perceberam foi que centenas de seus documentos sobreviveram ao incêndio, incluindo dezenas de poemas em vários estágios de conclusão. Putnam nunca revelou isso – nem mesmo para a família de Earhart.

Cinquenta anos depois da morte de Putnam, em 1950, esses documentos, que sua viúva deu à neta de Putnam, foram doados a Purdue – abrindo caminho para sua publicação.

Para Morris, os poemas são “incríveis peças de quebra-cabeça”, embora criem mais quebra-cabeças.

Por que Earhart se arriscou a expor seus pensamentos íntimos ao escrevê-los, apesar de sua reticência? Já se sabia que a mãe de Earhart dera à luz um bebê natimorto em 1896, um ano antes do nascimento de Earhart, mas entre seus papéis se encontra um poema sem título, escrito à mão, que revela o impacto duradouro desse evento na aviadora:

“O filho primogênito da minha mãe / Morreu em poucas horas / Ela ainda o embala / como o teria embalado / Quando falhamos?”

“Ela era uma pessoa muito complexa, tinha um senso definido do que era e não era público, e os poemas talvez fossem a maneira como ela tentava se prender a essa linha”, disse Traci Brimhall, poetisa e professora da Universidade Estadual do Kansas. Brimhall encarou a poesia de Earhart para um artigo que ela escreveu para o Literary Hub.

Autora, entre outros livros, de Come the Slumberless to the Land of Nod, Brimhall desenvolveu um fascínio por Earhart, com quem ela compartilha o aniversário, durante uma visita à casa da infância de Earhart em Atchison, Kansas.

Brimhall se demorou nos poemas dos arquivos de Purdue. Eles foram escritos a lápis e crivados de rasuras e anotações. Parte investigadora literária e parte companheira de viagem, Brimhall extrapolou sua própria experiência enquanto tentava decifrar as palavras de Earhart.

“A poesia é um segredo obscurecido por metáforas, mas, ao transformar emoções em imagens, você transforma pensamentos e sentimentos numa forma de arte”, disse Brimhall. “O risco é que outras pessoas possam ver as coisas que você escondeu de si mesma, e um poema pode confessar algo privado, acidentalmente”.

Ainda assim, como Brimhall escreve em sua análise dos poemas, ela foi incapaz de transformar os fragmentos de poesia numa narrativa reveladora, deixando intacto o desejo de Earhart de opacidade, pelo menos por enquanto.

Em Beyond Haiku, os poemas de Earhart aparecem ao lado das obras de outras aviadoras do século passado, entre elas Louise Thaden. Seu poema sem título foi escrito após seu primeiro voo solo. Earhart e Thaden eram amigas íntimas e competidoras ocasionais.

Poucos conheciam Earhart tão bem quanto Thaden, disse Keith O’Brien, autor de Fly Girls: How Five Daring Women Defied All Odds and Made Aviation History.

“As duas não apenas eram aviadoras ótimas e ousadas numa época em que a maioria dos homens acreditava que as mulheres deveriam ficar firmemente plantadas no chão”, disse O’Brien. “Ambas as mulheres foram grandes escritoras que sabiam como transformar uma frase e fazer as pessoas pensarem com as palavras que escolheram”.

Earhart usava palavras para desafiar o pensamento tradicional sobre os papéis das mulheres e voltava os holofotes para a literatura que deixava as mulheres de fora da história.

“Ninguém consegue passar pelas prateleiras de livros de adolescentes sem se surpreender com o fato de que evidentemente ninguém espera que as garotas entrem na brincadeira”, ela escreveu em um discurso para um grupo de bibliotecários. “Não existem heroínas seguindo os brilhantes caminhos da aventura romântica como fazem os heróis dos livros para meninos”.

Ela colocou suas palavras em prática no outono de 1935, quando aceitou um emprego como consultora do programa de aeronáutica de Purdue e primeira conselheira de carreira para alunas da instituição. Na ocasião, ela disse: “Espero que este movimento se espalhe por todos os ramos das ciências aplicadas e da indústria e que as mulheres possam vir para compartilhar com os homens a alegria de fazer”.

Então faz sentido que os poemas de Earhart estreiem num livro dedicado a homenagear as aviadoras e incentivar as meninas a pilotarem aviões.

Morris, a professora de Purdue, foi a primeira pessoa a escrever sobre os poemas recém-descobertos de Earhart em seu artigo de 2005. Agora ela espera que a publicidade em torno dos últimos poemas de Earhart a serem publicados em Beyond Haiku desencadeie outras descobertas.

“É possível que em algum sótão de família haja algumas outras coisas que ela escreveu”, disse Morris. “Se houver outras coisas não publicadas por aí, seria um grande achado”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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