Haja emoção, amigos! Em um 2016 superlativo no esporte, o que deveria ser alegria se tornou emoção

Em um 2016 superlativo no esporte, com Olimpíada e tragédia impensável, o brasileiro sem dúvida se emocionou. E onde tudo deveria ser alegria, tudo virou emoção – palavra dúbia, de múltiplos e perigosos significados

Ugo Giorgetti, Impresso

31 Dezembro 2016 | 16h00

Houve duas grandes tragédias no esporte em 2016. Começo pela tragédia já mais distante: a Olimpíada. Muitos não a classificariam como tragédia, mas apenas porque esperavam que fosse muito pior. Esperavam-se atentados, assaltos, ataques indiscriminados, que caíssem estádios, que ruíssem alojamentos, etc. Nada disso aconteceu e por isso ficamos muito gratos e aliviados. Fruto de uma arquitetura política inteiramente fracassada, da qual fazia parte junto com a Copa de 2014, como esta a Olimpíada acabou mal para quem a planejou. Deu-se num momento já extremamente conturbado politicamente e, se a Copa teve uma presidente da República vaiada na abertura, na Olimpíada o presidente sucessor abriu a competição com um discurso de apenas uma frase, inseguro, num fio de voz, quase abafada completamente também por vaias.

Os resultados no campo esportivo todos sabem e não foram grande coisa. Festejou-se “a tão desejada medalha de ouro” do futebol debaixo de enorme desconfiança inicial e muita contestação. Não lembro muito mais do que houve na Olimpíada, a não ser que transcorreu numa cidade com hospitais fechando, salários em atraso e demais desgraças que perduram até hoje. Aqui em São Paulo ficamos de longe, limitados à televisão, essa fábrica de lágrimas. Foram “emoções” atrás de “emoções”. Chorou-se muito no fim da maioria das vitórias. Como de hábito, a televisão mostrava um outro país, desta vez mais otimista e feliz que o país real.

Uma das mais significativas demonstrações de como anda a cabeça e a alma do brasileiro é a quantidade de choro nas comemorações das vitórias esportivas. Na maioria dos casos não é um choro de alegria. Parece que o brasileiro, não falo só do atleta, vive com os nervos à flor da pele. Nos telões dos jogos de futebol é comum ver pessoas chorando desesperadamente por causa de uma conquista, o que muitas vezes é natural, outras nem tanto. Alegria, em geral, é riso, não lágrimas. Ninguém chora ao desfilar num bloco de carnaval de rua. A alegria traduzida em lágrimas é outra coisa. É uma tensão que vem, talvez, não da competição no esporte propriamente, mas do dia a dia, das notícias catastróficas que não param de circular, da incógnita, do enigma, em que se transformou o futuro neste país.

No esporte deveria ser tudo alegria, mas vira tudo emoção, e emoção é uma palavra dúbia, de múltiplos e perigosos significados. E como herança dessa Olimpíada tivemos mais “emoções”. Prisões, por exemplo, e muitas autoridades metidas em encrencas monumentais que estão longe de acabar. Essas “heranças” me lembram o Maracanã, metido num imbróglio praticamente insolúvel, que fez com que Flamengo e Fluminense travassem um Fla x Flu em Brasília. Felizmente Nelson Rodrigues não está mais aqui para ver isso. De resto, já no fim de 2016 este jornal publicou matéria sobre a terrível situação atual da natação, mostrando a debandada de atletas para fora do Brasil. Mais heranças dos Jogos Olímpicos.

No mundo à parte que é o futebol, leia-se CBF, porém, tudo correu na serenidade de sempre. Nada parece mudar nessa área do País. Os que já tinham incorporado definitivamente a tornozeleira a seus trajes sociais continuam desfilando com o fascinante objeto e, certamente, se acostumaram com ele. Os que não podem assomar o nariz um milímetro fora das fronteiras do País continuam aqui, bússola em punho, para evitar entrar por engano em águas internacionais. Assim é o futebol e suas tragédias grandes e pequenas.

Até que, no fim do ano, uma tragédia verdadeira se abateu sobre todos. O ano caminhava com alguns poucos fatos agradáveis como a situação do velho Pacaembu finalmente praticamente resolvida pelo Conselho do Condephaat, preservando o estádio como local de partidas de futebol e ainda propondo a restauração de partes do projeto original, como a eliminação do abominável Tobogã. É uma medida civilizadora, principalmente lembrando do que aconteceu com o Maracanã, que virou um estádio alemão, sem personalidade e sem pátria. O Pacaembu, espero, ficará como está, monumento ao que o futebol representa simbolicamente para a cidade e para o País. Outras boas notícias acompanhavam o ressurgir de uma seleção brasileira pelas mãos de Tite, um treinador que tem como virtude gostar do jogo e dos jogadores, igualar-se a eles, ou melhor, fazer com que os jogadores o encarem como um igual. Também a reaparição no centro do palco de um dos maiores ganhadores do futebol brasileiro, o Palmeiras, voltando a seus melhores momentos de protagonista das competições e, certamente, o Botafogo, esse time também glorioso, também um pouco à margem nos últimos tempos, que fez valer desta vez sua camisa e suas tradições.

No meio disso tudo a má noticia da morte, sem qualquer aviso, de Carlos Alberto Torres. Já que tinha de morrer subitamente eu preferiria que tivesse acontecido em cena, no meio do programa que apresentava, comentando jogos. Uma estrela como ele merecia uma morte de estrela, falando de futebol, diante das câmeras como sempre esteve. Infelizmente a morte nem sempre dá demonstrações de bom gosto e preferiu encontrá-lo fora de seu lugar habitual. Foi mais atenciosa com Perfumo, o grande craque argentino, que aqui jogou pelo Cruzeiro. A Indesejada Senhora o apanhou como merecia: com os mesmos 72 anos de Carlos Alberto, mas na saída de uma cantina italiana de Buenos Aires, às duas horas da madrugada, depois de uma noitada entre antigos companheiros, regada a vinho, risadas e massa caseira. Essa sim é uma morte de grande boleiro. Mas sentimos muito mais por Carlos Alberto, e sua morte, hoje entendo, foi uma preparação para o que ia acontecer.

O Palmeiras não teve muito tempo para festejar sua grande façanha: apenas um domingo e uma segunda-feira de muita festa. Na terça tudo mudou para o que nunca se espera e para o que ninguém se prepara. A televisão não nos deixa esquecer por um segundo a morte, na noite da Colômbia, de um time inteiro de jogadores e jornalistas. Não adianta falar aqui do desastre da Chapecoense, hoje qualquer criança sabe de todos os detalhes. Houve sobreviventes, por sorte, e estamos acompanhando suas recuperações. De minha parte presto imensa atenção no Neto. Salvo engano é o único do time titular sobrevivente, e o último a ser resgatado da montanha gelada onde caiu. Era o mais difícil de recuperar e, de todos, era sobre o qual os médicos falavam com mais prudência. Mas aí está ele, parece que vai se sair bem, até voltar a jogar.

Um acontecimento pouco falado envolvendo Neto me persegue sem cessar. É aparentemente banal, mas de proporções imensas para alguém com certo tipo de sensibilidade. Ao recuperar consciência, evidentemente sem ter qualquer noção ainda do que tinha acontecido, a primeira coisa que o jogador conseguiu falar foi perguntar pelo resultado do jogo contra o Nacional. Fico me colocando no lugar do interlocutor, não sei quanto tempo ele levou para responder, e até mesmo se conseguiu responder, que não houve jogo algum e que todos seus companheiros estavam mortos.

UGO GIORGETTI, CINEASTA E COLUNISTA DO ESTADO. DIRIGIU, ENTRE OUTROS FILMES, BOLEIROS - ERA UMA VEZ O FUTEBOL...

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