Hannibal de Garanhuns

Um 'comedor de pecados' tradicional devora os erros alheios sob a forma de pão. Jorge Beltrão levou a história ao pé da letra

JOSÉ DE SOUZA MARTINS É PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE A APARIÇÃO DO DEMÔNIO , NA FÁBRICA (EDITORA 34, 2008), O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2012 | 03h07

JOSÉ DE SOUZA MARTINS

O caso do bígamo e canibal de Garanhuns, Jorge Beltrão, desdobra-se muito além da mera concepção de loucura de que se vale o senso comum, que identifica o louco como o que "não bate bem", o "louco de pedra" ou o "doido varrido". A que pode ser identificada no cotidiano e é o primeiro passo do que o sociólogo Erving Goffmann conceitua como conspiração alienativa. A conspiração que começa entre colegas, amigos, conhecidos e vizinhos do suposto louco, quando nele notam mudança de conduta. Só no fim entra o médico, e a loucura é apropriadamente diagnosticada. É a sociedade que opina primeiro, e muitas vezes também por último, no pequeno círculo de convivência do doente.

Não é raro que a esse círculo o louco retorne porque é nele que está a ponte entre sua normalidade e sua insanidade. É lá que se encontram as testemunhas do momento de ruptura de sua saúde mental, a porta por onde escapou sua lucidez. É nele que quase sempre está a família, a primeira a se dar conta da anomalia, mas também a mais disposta à cumplicidade, na esperança de que a alteração de conduta seja temporária e apenas consequência de algum "desgosto", de algum desarranjo de vida, não uma doença.

É nesse círculo que o louco pode encontrar o apoio ameno e humano dos solidários que conhecem os segredos de chás, benzimentos, orações e exorcismos para libertá-lo de invejas, maus-olhados, quebrantos, amarrações de amor, mandingas, encostos, feitiços e possessões. Há certa demora da interpretação vulgar à interpretação médica, com consequências várias, tanto para o enfermo quanto para a sociedade. Jorge teve a cumplicidade de suas duas companheiras, que enlouqueceram também: faziam empadinhas de carne humana para vender normalmente em Garanhuns a R$ 2 cada. O cotidiano conspira em favor dos loucos.

O círculo vicioso da cumplicidade só foi rompido porque Jorge se valeu do cartão de crédito de uma de suas vítimas para fazer compras. Foi o que levou a família dela à polícia e a polícia a ele. Graças às informações de uma criança de 5 anos, sua suposta filha, é que a polícia descobriu dois cadáveres de mulheres enterrados no quintal e chegou, portanto, ao louco e sua loucura.

Jorge Beltrão escreveu um livro, Revelações de um Esquizofrênico, ilustrado por ele mesmo, em que conta sua história. Situa-se na linha dos loucos literários e artísticos, como Arthur Bispo do Rosário e seu belo e fascinante Manto da Apresentação, a veste com que se apresentaria a Deus. Beltrão desde a infância convive com dois meninos imaginários, que permaneceram crianças, um negro e um branco, um querubim e um arcanjo. Foram eles que lhe deram a missão de matar para salvar. Suas visões são povoadas de mulheres imaginárias, entre eróticas e monstruosas: as brancas tendem à monstruosidade, como numa metamorfose de sua mãe; as negras, à sensualidade. Tem duas mulheres: uma branca e outra negra. Confessa que ama a esposa branca como mãe e deseja a negra como amante. Seu imaginário e sua sexualidade estão cindidos entre branca e negra, entre mãe e amante, entre morte e vida.

Como todo louco inteligente, no contato com a psiquiatria aprendeu a contornar diagnósticos para construir uma interpretação própria e autodefensiva da loucura. Aprendeu que a normalidade é, sociologicamente, um tipo de teatro, manipulação de impressões, reciprocidade interativa.

Na entrevista feita na cadeia pela TV Jornal Caruaru, Beltrão expõe calmamente aspectos relevantes de sua loucura, combinação de misticismo e sexualidade problemática. Sociologicamente, nessa loucura emergem as estruturas profundas da religiosidade popular, que já se manifestaram em outros episódios da história social brasileira, para reconectar o mundo desconectado, cindido. Num dos desenhos, crucifica uma branca inteiramente nua, na significação profunda da crucificação como sacrifício, superação e renascimento.

Beltrão matou mulheres cujos documentos continham números que somados revelavam o número apocalíptico da Besta-Fera, o 666. Antes de matá-las, dizia-lhes que seus pecados estavam perdoados. Matava-as para purificá-las. O canibalismo ritual é estranho entre nós. O assassino pode ter sido influenciado por um filme de 2002, de Brian Helgeland, O Devorador de Pecados. Uma história baseada em costume antigo do País de Gales que se difundiu em países de imigração galesa: o de colocar um pão sobre o ventre do morto e chamar o "comedor de pecados" para comê-lo e tomar uma tigela de cerveja. O comedor de pecados toma para si os pecados dos outros. Beltrão pode ter interpretado essa história ao pé da letra, comendo os mortos para comer seus pecados.

O alienista de Garanhuns é um assassino que sai dos quadrinhos. Termina seu livro esclarecendo: "Tudo isso que revelei não sou eu, nem ninguém, é só a minha mente."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.