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Harry Potter e o enigma da meia-idade: nossos personagens da infância devem envelhecer?

Os personagens da série de J.K. Rowling aparecem como adultos pela primeira vez, em livro lançado essa semana no Brasil. A chegada do bruxinho à maturidade (e à calvície) reacende um debate que parece infinito: nossos heróis da infância devem um dia se tornar adultos?

Fernando Nakagawa / LONDRES, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2016 | 16h00

“O que você quer que eu faça? Que me torne popular por mágica? Que, por encanto, entre em uma nova casa? Que me transfigure em um estudante melhor? Pai, lance um feitiço e me torne aquilo que você quer que eu seja, tá? Vai ser o melhor para nós dois.”

As palavras duras poderiam estar em um drama qualquer que costumamos classificar de adulto. O trecho da conversa doída, porém, está no mais novo livro lançado pela escritora inglesa J.K. Rowling. As frases do jovem Albus Potter foram ditas para o pai, Harry. O bruxinho órfão do passado agora é um homem casado que sofre com as frustrações do trabalho e as dificuldades para educar os três filhos. Típica crise da meia-idade. Pois é. Apesar da mágica, Harry Potter envelheceu.

A febre instantânea gerada pelo livro e a respectiva peça de teatro Harry Potter e a Criança Amaldiçoada (por enquanto, disponível no Brasil apenas na versão em inglês, Harry Potter and The Cursed Child) trouxe de volta uma discussão que gera muita polêmica entre escritores, críticos e leitores: o envelhecimento de personagens infantis.

É verdade que, desde o início da saga, Harry Potter envelheceu enquanto estava em Hogwarts. Basta comparar a evolução das capas para ver que um menino desajeitado começou a série em A Pedra Filosofal e, anos depois, um adolescente mais confiante aparece em As Relíquias da Morte. A nova obra assinada por J.K. Rowling em conjunto com Jack Thorne e John Tiffany, no entanto, traz um salto na linha do tempo: Criança Amaldiçoada avança 19 anos e Harry Potter entra de cabeça na vida adulta.

Na obra lançada no fim de julho e que chegou essa semana ao Brasil, o agora ex-bruxinho é um servidor público sobrecarregado do Ministério da Magia. No palco, Harry Potter deixou de ser representado por Daniel Radcliffe, ator de 27 anos que deu vida ao personagem em vários dos filmes da saga. Na nova trama, ele surge no palco na pele de Jamie Parker, dez anos mais velho que Radcliffe e que representou o oficial alemão Werner von Haeften em Operação Valquíria.

Esse envelhecimento visto no palco gera um debate que parece infinito entre autores. Escritores têm uma relação profundamente emotiva com os personagens e, talvez exatamente por isso, há percepções muito distintas e até descoordenadas sobre o tema. A otimista Pollyanna, de Eleanor H. Porter, por exemplo, é um dos nomes do mundo infantil que envelheceu e levou para o futuro o jogo do contente. Mas muitos outros seguem congelados no tempo. Bart Simpson tem dez anos há quase 30, assim como todos os demais personagens amarelados do desenho animado de Matt Groening.

“Em sagas contínuas com personagens de quadrinhos, como Batman, há um entendimento implícito que a história tem lugar na ‘vida’ de um personagem. Assim, o Batman da década de 1950 tem mais ou menos a mesma idade que o visto nas edições atuais. Harry Potter é diferente. Por ser uma mistura de fantasia e realismo, o enredo tem preocupação com a passagem da infância para a idade adulta. Então, o envelhecimento faz sentido”, diz o professor especializado em literatura romântica, gótica e ficção científica da Birmingham City University, Thomas Knowles.

Para a pesquisadora britânica em estrutura narrativa, Ann Darnton, o envelhecimento depende de como o enredo se desenvolve. Na saga, ela diz que era “natural” o envelhecimento. “Mostrar o drama do filho indo para a Escola de Magia e Bruxaria Hogwarts é como passar o bastão, e Albus, da nova geração, ocupará o lugar de Harry Potter”, diz.

O professor de Birmingham reconhece, porém, que o conceito teórico sobre o envelhecimento não é estanque. Batman, citado por ele mesmo como exemplo de personagem atemporal, tem tido idas e vindas ao longo do tempo. “Algumas histórias dos quadrinhos retratam um super-herói mais jovem e outras, mais velho. Até o recente filme ‘Batman vs Superman’ revela um Batman mais cansado e amargo”, lembra, ao comentar que autores são motivados por inúmeras razões e definitivamente não há uma fórmula para o tema.

Já que não há um entendimento cristalino do ponto de vista dos criadores, uma parte dessa resposta pode ser simplesmente o velho interesse comercial. Levar personagens para o futuro ou retroceder histórias no passado renova o interesse de leitores e também pode abrir novas frentes no público. Em poucas palavras, significa vender mais livros e ingressos.

A pesquisadora Ann Darnton concorda que o interesse comercial pode ter alguma influência na decisão de autores – e principalmente dos editores – em avançar na linha do tempo. “Adultos com mais de 30 anos e jovens adolescentes estão lendo esse novo roteiro. Ao envelhecer Harry Potter e tratar temas como a relação problemática com o filho, Rowling introduziu um conflito entre duas gerações. Com isso, você mantém a audiência dos leitores antigos que já começam a ter filhos e, ao mesmo tempo, gera interesse nos mais novos.”

Sejam novos ou velhos leitores, o fato é que há um novo campeão de vendas nas livrarias britânicas. Ainda que o texto seja diferente dos demais títulos da saga por ser um roteiro de teatro, foram vendidas 680 mil cópias impressas no Reino Unido em apenas três dias. Assim, foi batido o recorde da década, de 50 Tons de Cinza, que havia vendido 664 mil exemplares na primeira semana no país.

O sucesso de vendas, porém, não é suficiente para esconder algumas críticas de fãs leais ao bruxinho. Nas redes sociais, há leitores antigos que criticam a nova obra e a classificam como um subproduto da saga. Há também questionamento sobre a decisão da criadora da história de ter cedido o nome em um texto que teria sido escrito principalmente pelo dramaturgo Jack Thorne e o diretor de teatro John Tiffany.

Há até quem diga que retratar um Harry Potter mais velho seria até um pouco de deferência de J.K. Rowling com os milhões de leitores leais há tantos anos. Com a popularidade da saga, fãs que tiveram filhos no fim da década de 1990 fizeram disparar o registro de crianças com nomes como Draco, Hermione ou Sirius em locais como os Estados Unidos. Tantos Dracos, Hermiones e Sirius daquela época estão, agora, no auge da adolescência.

A entrada na adolescência, aliás, tem um grande papel em Criança Amaldiçoada. Alguns críticos entendem que Harry Potter teria na relação conflituosa com o filho uma maneira de projetar seus próprios erros do passado. Assim, a expectativa que o pai tem sobre o futuro de Albus mostraria, na verdade, o que Harry gostaria de ter sido. Seria, então, uma maneira de tentar corrigir erros e se reconciliar com a própria vida.

O professor Thomas Knowles concorda. A possibilidade de revisitar o passado é uma temática frequente e tentadora para os leitores já que muitos têm a fantasia de voltar no tempo para mudar o futuro. O professor explica que, além disso, voltar no tempo pode ser uma maneira eficiente de corrigir erros da própria obra. “Isso pode ser uma forma de, eventualmente, reconciliar a história”.

Um dos grandes valores dos melhores livros da nossa infância é a celebração da inocência e da alegria dos nossos primeiros anos. Para Ann Darnton, a obra conseguiu manter esse frescor e a magia das descobertas ao logo dos vários livros da saga. A pesquisadora diz que o novo título com Harry Potter mostra um tom um pouco diferente e, de uma maneira elegante e sutil, nos lembra de que não é possível voltar atrás.

“Nem mesmo um bruxo pode voltar no tempo para corrigir erros e arrependimentos”, diz. É como se, apesar de Hogwarts, JK Rowling nos lembrasse que a vida de verdade acontece antes da plataforma 9 ¾ da estação Kings Cross. “Mesmo com a mágica, Rowling parece querer dizer para os jovens e adultos: viva o hoje. Aproveite.”

ENTREVISTA: MAURÍCIO DE SOUSA

O quadrinista Maurício de Sousa, que passou pelo dilema de envelhecer ou não seus personagens ao lançar a Turma da Mônica Jovem, em 2008, reforça a posição de que, sim, os heróis da infância devem crescer. E contou que pretende avançar ainda mais o relógio: assim como Potter, os personagens da turma (hoje com, em média, 15 anos) também chegarão à idade adulta.

Por que personagens crianças devem crescer e se tornar adultos?

Porque os leitores sempre guardam essa curiosidade sobre seus personagens da infância. E o autor também. Fora a curiosidade, é também um desafio. Alguns autores acham que seu personagem se esgota na série infantil. Eu prefiro que ele viva e passe pelas mesmas situações que o ser humano passa em sua evolução na vida.

O que os leitores ganham, ao vê-los crescidos?

Talvez entendam que a vida é ótima do jeito que foi criada. E que seus personagens que o acompanharam em criança não os abandonaram quando adultos.

O sr. disse que quer levar a Turma à idade adulta. Qual a perspectiva para isso? 

Esse é o maior desafio que teremos. E por isso ainda levará alguns anos para concretizar. Quero fazer os personagens da turminha com seus 25 anos em média, aniversariando e envelhecendo com seus leitores a cada ano. Uma série que terá temas mais aprofundados e discutindo temas atuais. Mas sempre com muito humor.

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