Ludovic Marin/Reuters
Ludovic Marin/Reuters

Herança da colonização na África é obstáculo à 'francofonia' de Macron

Presidente francês propõe união entre escritores, mas a literatura francesa nunca dependeu de autores do país

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2018 | 16h00

Há dois ou três séculos, toda a Europa “chique” falava francês: o imperador Frederico na Prússia, Alexandre da Rússia, os príncipes italianos, todos ele utilizavam a língua de Voltaire e Diderot. No romance de Tolstoi sobre a invasão da Rússia por Napoleão, em 1812, Guerra e Paz, muitos personagens se expressam em francês. O que não era de surpreender, pois, desde Louis XIV, a França era uma potência dominante. Paris era o modelo da Europa. Os soberanos europeus construíam em seus feudos pequenos “castelos de Versalhes”. Todas as belas damas amavam em francês.

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Os alemães não falavam da França, mas da “Grand Nation”. Desde seus dias radiantes, essa grande nação mudou e hoje a encontramos nas vizinhanças do Oceano Pacífico, mais do que na região do Mediterrâneo. Hoje, em 2018, todo o universo fala inglês, para grande tristeza dos “velhos ranzinzas” da França, que não se conformam com o fato de não mais ditarem ao mundo as regras da retórica, da polidez, ou os conceitos da filosofia.

O presidente da França Emmanuel Macron é muito inteligente para se juntar a esse coro de “carpideiras”. Mas, como é ambicioso, jurou devolver o resplendor à sua língua: diante da Academia Francesa, defendeu a “francofonia”, entidade que reúne todos os povos que falam a língua francesa. Hoje é a quinta língua mais falada no mundo, com 250 milhões de pessoas se expressando em francês. A previsão é de que em 30 anos será a terceira. E como? O fato é que a África negra fala francês e a população desse continente cresce de maneira fatal e inquietante. Assim, em 2050, 700 milhões de seres humanos se expressarão em Francês, para contentamento de Macron.

Estes cálculos que encantam os nostálgicos da Grand Nation não valem nada. Dizer que hoje o Senegal, por exemplo, fala francês, é uma piada. É verdade que em Dacar a língua de Molière é falada um pouco, contudo mais além só se conhece o idioma wolof: se você se expressa em francês as pessoas o olham com ar incrédulo.

Um segundo freio à expansão da francofonia: o francês é uma herança da colonização. Portanto, falar esta língua causa repugnância a muitos africanos, pois ela é fustigada por essa lembrança. É insultada, humilhada, consumida pelas ignomínias da colonização.

Um grande escritor congolês que escreveu suas obras em francês, Alain Mabanckou, recusou-se a participar do projeto “francófono” de Macron. Segundo ele, “a francofonia é apenas a continuação da política estrangeira da França nas suas antigas colônias que favorece os déspotas africanos e trata os autores da África como “exóticos”.

Outra escritora africana que escreve em francês, Veronique Tadjo, acrescentou que “a literatura escrita em francês não precisa ser chamada de literatura francesa para existir”.

Macron nomeou “conselheira da francofonia” uma escritora de língua francesa de origem marroquina, Leila Slïmani, muito talentosa. Ele pelo menos compreendeu que, para assegurar o resplendor da língua, é preciso multiplicar os liceus franceses e as alianças francesas, mas também que os melhores auxiliares da língua francesa são os escritores nascidos na Patagônia, no Afeganistão, na China ou na Sibéria, que escrevem seus romances em francês.

E esses escritores proliferam. Em todos os lugares. O caso da marroquina Leila Slïmani não é excepcional. Uma consulta nas bibliotecas da França deixa qualquer um estupefato ao ver o número de escritores estrangeiros que se exprimem em francês: são romenos, irlandeses, eslovenos, checos, chineses.

O teatro francês do pós-guerra era dominado por três autores: Eugène Ionesco, Samuel Beckett e Arthur Adamov, e podemos acrescentar ainda Fernando Arrabal. Ionesco (o genial autor de A Cantora Careca) é romeno, Arthur Adamov, armênio. Samuel Beckett, que traduziu para o francês obras de James Joyce, irlandês. Fernando Arrabal é espanhol. E extraindo esses quatro estrangeiros não existia um teatro francês no pós-guerra. 

Um dos maiores poetas franceses, Guillaume Apollinaire, é polonês. O criador do dadaísmo, Tristan Tzara, romeno. Outro romeno é Emil Cioran (1911-1995), o filósofo do nada, considerado um gênio. No fim do século 19 encontramos Emile Zola, de origem italiana. O autor francês que, no século 18 rivalizou com Voltaire era um suíço, Jean-Jacques Rousseau.

Pensamos sempre que a maioria dos escritores estrangeiros que utilizam e utilizaram a língua francesa é africana. É verdade que há um contingente impressionante de escritores franceses no continente devido à longa colonização da África pela França. 

Podemos citar o grande poeta Léopold Sedar Senghor, inventor da “negritude”. O grande escritor argelino Kateb Yacine (Nedima), escrevia em francês, como a maioria dos autores marroquinos ou tunisianos. A argelina Assia Debar escrevia em francês e ingressou na Academia Francesa. Este ano o mais belo romance francês, em minha opinião, é L’Art de Perdre, de uma escritora de origem argelina, Alice Zeniter.

Mas a África não é a única provedora das bibliotecas francesas. O chinês François Cheng está na Academia Francesa. O argentino Hector Bianciotti (Sem a Misericórdia do Cristo) foi da Academia. O extraordinário romeno Panaït Istrati (1885-1935) escreveu sempre em Francês. A canadense britânica Nancy Huston também. Alain Maalouf, da Academia Francesa, é libanês.

À época da guerra fria, um checo desembarcou em Paris. Seu nome: Milan Kundera. Trazia consigo um livro, redigido em checo (A Brincadeira), publicado pela editora Gallimard. Nessa ocasião eu o encontrei. Não falava uma palavra de francês. Mas o tempo passou, ele aprendeu a língua, achou que as traduções francesas são péssimas, corrigiu as primeiras traduções e escreveu seus livros seguintes (A Arte do Romance) no idioma francês.

Um pouco mais tarde, outro desconhecido desembarca em Paris: Andrei Makine. Russo. Como aprendeu ele, na sua solidão siberiana, um francês tão delicado? Seu primeiro livro, O Testamento Francês, recebeu o prêmio Goncourt. E o que falar do espanhol Jorge Semprun, um dos grandes opositores do general Franco que se tornou o número dois do Partido Comunista espanhol, antes de se consagrar a uma obra literária de um brilho magnífico e escrita em francês?

Paro a lista por aqui: ela é densa e brilhante e eu pergunto onde se esconde hoje o gênio francês nascido francês? Temos a oferecer apenas Jean d’Ormesson ou Philippe Sollers como escritores verdadeiramente franceses para atestar que o gênio francês ainda vive? Claro que podemos acrescentar os dois Prêmios Nobel de Literatura, Jean-Marie Le Clezio e Patrick Modiano. Mesmo assim, eles não têm o mesmo peso diante de Cioran, Ionesco, Beckett, Semprun ou Mabanckou.

Mas não vamos nos render ao pessimismo. É apenas um mau momento que passamos e amanhã novos gênios, nascidos enfim em berços franceses, surgirão. E pouco importa. Este passeio nos ensinou que, se existe um “gênio francês” ele não se esconde apenas nos bebês nascidos na França. O verdadeiro gênio, há mil anos, é o da língua francesa. E está à disposição de todos, entre a Terra do Fogo, a Groenlândia e o Cabo da Boa Esperança. / Tradução de Terezinha Martino

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