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Heroína da resistência

A novela resiste à concorrência, mas não era necessário esvaziar a trama, diz antropóloga

Entrevista com

Mônica Manir, O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2009 | 07h43

Caminho das Índias mal tomou o rumo do acervo colossal da teledramaturgia brasileira para Viver a Vida surgir com a melhor média de estreia desde 2006. Foram 43 pontos no Ibope de segunda-feira, índice afrodisíaco para quem não vive sem novela no cardápio diário.

Envolvida que está com a chefia do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA-USP, Esther Hamburger não viu o primeiro capítulo de Manoel Carlos. Nem por isso insinuou um “não vi e não gostei”, mesmo porque o gênero foi tema de um livro seu, O Brasil Antenado, de 2005. Esther traçou ali a evolução de Roque Santeiro a O Clone, atravessando Pantanal e mostrando que nada é óbvio na operação de incluir esse produto no ar.

Se considerarmos que a atmosfera de hoje envolve a convivência com seriados de TV a cabo, vídeos no YouTube, celulares, twitters e afins, a trama se adensa. E a perenidade da novela surpreende. “Ela tem uma capacidade de resistência impressionante, determina o horário do futebol, por exemplo, é protointerativa, mas deixou de instigar”, diz a antropóloga, em entrevista sob o abençoado pó da reforma no departamento. A falta de desafios, sim, lhe parece um escândalo no enredo novelístico. “Não era necessário esvaziar.”

A novela continua senhora do nosso destino? Estamos falando de um gênero poderoso, com uma capacidade enorme de resistência, mas cuja importância tem diminuído desde o começo da década de 90, quando houve as primeiras crises do gênero. Nos anos 2000 ela subiu de novo e agora volta a cair. Claro que manter uma média de 40 pontos de audiência é uma coisa monstruosa. Mas novelas como Irmãos Coragem e a primeira Selva de Pedra chegaram a 70 pontos. Esse índice era comum nos países onde havia apenas um ou dois canais, e canais de TV estatal. Numa estrutura comercial como a brasileira, em que há várias emissoras, ter um programa que atinge um público tão amplo... Isso significa que engloba homens e mulheres, de todas as idades e classes.

Homens assistem muito a novelas? É comum dizerem que passavam pela sala e aí pararam para ver o capítulo de relance. Mas eles têm uma memória acuradíssima, melhor que a das mulheres, para lembrar novelas passadas, personagens. Só que pensam ver algo feito para o público feminino.

Eles têm razão? De certa forma, sim. Durante muito tempo a novela foi entendida como obrigatória para a mulher. Se ela chegasse ao trabalho sem saber o último capítulo, estava out. Interessante é que o horário nobre de uma das emissoras mais importantes do mundo tenha sido dominado por um gênero com essa vocação. Aliás, se você vir o noticiário político, perceberá que usa a linguagem da novela. O que diferencia os candidatos? Quem jantou com quem, quem contratou o sobrinho... São questões do universo privado. Ninguém discute projetos.

Por que a audiência da novela vem caindo em relação aos anos 90, por exemplo? Houve uma diversificação dos meios, que acontece mais tarde no Brasil, justamente a partir dos 90. Primeiro veio o VHS, depois o DVD, depois a TV a cabo, que demorou a chegar. Ela ainda é muito limitada e não sei se vai deixar de sê-lo, pode ser ultrapassada pela banda larga. Quando soube que a Mary, do Peter, Paul and Mary, morreu, botei no YouTube em seguida para acompanhar as performances deles. É quase um arquivo de televisão.

Mas há mais televisores que computadores no Brasil... Tem a questão do acesso, que no Brasil é séria, mas há um investimento grande nessa área. Veja os celulares. No Brasil, todo mundo teve TV antes de telefone. A TV virou gênero de primeira necessidade porque conectava - e conecta - o espectador com o mundo. Receber a mesma informação que o patrão era um diferencial. Ver a mesma novela também.

A novela ainda consegue unificar esse repertório? Isso enfraqueceu um pouco já que tudo está em transformação, inclusive o papel das nações. Vi um documentário português que fez sucesso enorme porque mostra uma Lisboa de imigrantes. Há muitos russos na cidade. Qual é o papel da nação hoje, afinal? Quando pesquisei novela, parti da hipótese de que ela era um programa nacional - e é. No fim dos 90, mais ainda. Há uma sequência desde Roque Santeiro, de 1985, passando por Salvador da Pátria e Vale Tudo, em que, se não tinha o Brasil no título ou na trilha sonora, tinha nas cores das vinhetas. Integração nacional era a palavra do regime, e o regime imaginou a televisão conectada com a integração. Mas, no início, não havia transmissão simultânea. A novela passava um dia no Rio, no seguinte em São Paulo e assim por diante. Só em 1969, com o Jornal Nacional, surgiu a programação em rede e, com ela, a divulgação de padrões de comportamento e de produtos.

A divulgação de produtos agora conta com a internet. Na loja virtual de 'Viver a Vida' está à venda, por R$ 399,90, uma almofada similar à usada em um dos cenários. Mas isso vem desde Beto Rockfeller, a primeira a ter merchandising (Luis Gustavo, que ganhava Cr$ 3 mil cada vez que falava a palavra Engov, chegou a repetir o nome do remédio 33 vezes num capítulo). Quando surgem enredos contemporâneos, isso fica mais fácil porque você pode se identificar com o personagem que vive na mesma cidade ou numa outra que o fascina. As pessoas percebem o merchandising e não se consideram violentadas. Acho complicado quando o merchandising esvazia a dramaturgia, seja ele de produtos ou social.

O que é o merchandising social? É fazer uma novela de intervenção, que divulga ações a fim de contribuir para uma causa que ajude a sociedade. Em Explode Coração, havia a procura pelos filhos desaparecidos. Em Mulheres Apaixonadas, a campanha para doação de órgãos. Você traz pessoas do universo extradiegético para tratar um problema. Tem a pretensão de educação, mas pode comprometer a dramaturgia. Os personagens vão se enfraquecendo em função de o chamativo maior estar numa denúncia.

Há mais de 250 mil inscritos para o próximo ‘BBB’, que terá ex-participantes do programa envolvidos na disputa. O ‘BBB’ é um reality show com perfil de novela? Sim, mas o que mais atrai o espectador é a possibilidade de passar para o outro lado da câmera. Se agora absorvem ex-participantes, então virou uma carreira. Aparecer na tela é anseio policlassista, de quem não tem dinheiro e de quem tem. Esse é o chamativo, mais que o voyeurismo. Você sente falta de um roteirista, de atores, de repertório. As pessoas não têm o que falar, é um tédio, os assuntos são insuportáveis.

Falando de atores, muitos reclamam da novela por ser uma obra em construção, mas os autores gostam de acompanhar a reação do público. Glória Perez adorou a repercussão no Twitter do último capítulo de ‘Caminho das Índias’. Os atores são aqueles que se expõem, a tensão sobre eles é fortíssima. Mas, do ponto de vista do meio televisivo, o fato de ser uma obra aberta tem o apelo da coisa quente. Os critérios que valem para a notícia também valem para a novela. Novela é protointerativa porque feita enquanto está no ar. Ao mesmo tempo, o cotidiano domina o enredo, e as sequências, os planos e os diálogos são cada vez mais curtos, o que bate com o ritmo do Twitter. Acho que a integração com a internet só reforça essa ideia de protointeratividade e de que a novela participa de uma estrutura em rede.

Você diz que ela não instiga como antes. Como nivelar por cima? Antigamente havia a disjunção entre o público em geral, que era bastante amplo, e o público consumidor, bastante restrito. Desprezava-se o primeiro e mirava-se o segundo. Por isso tínhamos uma TV tão interessante. Quando amplas parcelas vistas como fora do mercado consumidor foram inseridas no tal, baixou-se o nível. Acho isso um escândalo. Não era necessário esvaziar. O cidadão que assiste à TV é o mesmo. O fato de ter maior ou menor poder aquisitivo não mudou quem ele é. O público tinha direito a uma programação mais desafiadora. É quase uma questão de saúde pública.

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