Heróis de Malala

A coragem do pai da jovem paquistanesa que desafiou o Taleban mostra que a luta contra a misoginia precisa de homens

QANTA A. AHMED É PROFESSORA DE MEDICINA NA STATE UNIVERSITY OF NEW YORK, ESCREVEU ESTE TEXTO PARA O JORNAL THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR , O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2012 | 03h08

QUANTA A. AHMED

A coragem de Malala Yousafzai chamou a atenção do mundo, e assim também deveria ser no tocante à coragem do seu pai, Zia.

A garota de 15 anos foi baleada à queima-roupa por um membro paquistanês do Taleban por causa da sua militância em favor da educação das meninas. Desde os 11 anos, Malala defende as garotas contra o terrorismo do Taleban e a misoginia mortal no Vale do Swat, no Paquistão, onde o grupo radical proibiu as meninas de irem à escola. Ela agora se recupera num hospital na Inglaterra e repentinamente se transformou num ícone para meninas e mulheres do mundo todo.

À medida que as pessoas oram e têm esperança na sua recuperação é importante lembrar os inúmeros homens paquistaneses que apoiam suas filhas, como foi o caso do pai de Malala. Existem homens paquistaneses sobre os quais jamais ouvimos falar e nunca conheceremos, mas cujo apoio tem sido vital na defesa dos direitos de meninas e mulheres. Sem eles, Malala talvez jamais tivesse começado sua militância.

Seu pai defendeu sua educação escolar. Também professor, Zia acompanhou a filha em quase todas as entrevistas e aparições públicas. Ele diz ser apenas o guardião de um tesouro nacional, reconhecendo quão preciosa a menina é para o país inteiro.

Entre os professores de Malala alguns eram homens. Sua viagem para a escola, com frequência em terreno difícil e sob mau tempo, era feita de ônibus conduzido por um motorista (uma atividade corajosa, diante da resistência à educação das meninas naquela parte do Paquistão; e de fato ela foi alvejada no ônibus a caminho da escola). Quando foi baleada, soldados paquistaneses a levaram para um hospital. Muitos paquistaneses não são como os misóginos do Taleban. Eles são meu pai, meu avô, meus irmãos, primos, amigos, colegas, protetores e professores.

Malala sofreu o ataque por causa do poder de sua voz, que descobriu dentro dela ainda criança e que seus pais incentivaram desde o início. Eu descobri a minha capacidade de expressão quando publiquei meu livro In the Land of Invisible Women (Na Terra das Mulheres Invisíveis), narrando minhas experiências como médica na Arábia Saudita. Mas cheguei até ali porque meu pai se esforçou para que eu tivesse uma educação rigorosa.

Minha infância foi bem mais privilegiada do que a dele, ou a de Malala. Meu pai e minha mãe médica insistiram para eu cursar medicina. Eles achavam que eu merecia estudar como meus irmãos e que, como muçulmana, tinha responsabilidade de prosseguir meus estudos. Frequentemente meu pai citava para mim uma frase de Maomé, que um muçulmano deve buscar o conhecimento mesmo que isso signifique viajar para a China. O hadith - coleção de preceitos do profeta - também diz que os homens muçulmanos que "cuidam bem" das suas filhas (incluindo a educação) são mais amados por Deus. Isso reflete o valor que o Islã confere aos direitos iguais para todas as crianças.

A Constituição do Paquistão segue esses preceitos, tornando obrigatória a educação para todas as crianças. A proibição imposta pelo Taleban, impedindo as meninas de frequentarem a escola em regiões que o grupo controla, desafia diretamente a lei paquistanesa e quase 1.500 anos de islamismo. É quase uma heresia. E mesmo a Arábia Saudita, origem do Islã e epicentro espiritual do islamismo sunita, hoje obedecendo ao wahabismo ortodoxo, concorda com o valor da educação de meninas e mulheres.

Muitas mulheres afegãs, contudo, precisam da permissão dos homens para as atividades mais básicas: sair de casa, ir ao médico ou usar anticoncepcionais. O Afeganistão tem uma das taxas mais altas de fertilidade e mortalidade materna do mundo. No documentário Where Are the Men? (Onde estão os Homens?), a cineasta Tananeh Salke identificou os mais arraigados obstáculos ao planejamento familiar justamente entre os homens afegãos ignorantes. E por meio da sua fundação, a Family Health Alliance, ela formou provedores de saúde, médicos e enfermeiras. O sucesso do programa levou a mudanças políticas que incluíram os homens no planejamento familiar e de saúde reprodutiva no país.

As mulheres sauditas fizeram história este ano quando duas atletas competiram nas Olimpíadas. Foi o pai da judoca Wodjan Shahrkhani que a treinou e incentivou-a a competir. Também uma referência no esporte, ele defendeu agressivamente o direito da filha de competir. Esses são os pais muçulmanos que o Islã inspira. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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