Hilda Hilst e sua frequentemente ignorada faceta metafísica

Hilda Hilst e sua frequentemente ignorada faceta metafísica

Homenageada na Flip, poeta faz parte da mesma tradição de Cecília Meirelles, Manuel Bandeira e o Drummond de 'Claro Enigma'

Martim Vasques da Cunha*, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2018 | 16h00

Quatorze anos depois da morte de Hilda Hilst, ocorrida na madrugada do dia 4 de fevereiro de 2004, em Campinas (SP), é hora de termos uma avaliação objetiva do valor da sua obra, homenageada deste ano na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty).

Independentemente do luxo da reedição dos volumes de poesia e prosa, lançados pela Companhia das Letras nos últimos meses, é fundamental estabelecer o correto entendimento do que ela realmente queria dizer com seus escritos, algo do qual a fortuna crítica se esquiva com frequência.

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Portanto, sem firulas: na poesia, Hilda é absolutamente genial, uma artista que faz parte da mesma tradição de poesia metafísica que antes tinha poetas como Cecília Meirelles, Manuel Bandeira, o Drummond de Claro Enigma, e, entre suas contemporâneas, Orides Fontella e Adélia Prado. Há, sem dúvida, um toque ali e acolá de uma poesia do sagrado, cujo representante maior é Jorge De Lima; mas entre Deus e as reflexões sobre o instante, Hilda prefere essas últimas porque sempre foi obcecada com o transitório, com a morte e com as respostas possíveis que esta última poderia lhe dar se a menina nascida em Jaú em 1930, filha de um fazendeiro que faleceu esquizofrênico, tivesse sido sua companheira constante.

Felizmente, não foi o que aconteceu. Se nos seus primeiros livros, Hilda ainda era influenciada pela dicção de um Drummond ou até de uma Dora Ferreira da Silva (informe-se, leitor), junto com homenagens a Camões e às “cantigas de amigo” da Idade Média, a partir de 1980, com o fenomenal Da Morte. Odes Mínimas até o derradeiro (e brilhante) Cantares do Sem Nome e de Partidas (1995), ela acrescenta algo aos seus versos que jamais foi sonhado nas nossas letras. Trata-se do diálogo com a poesia dos metafísicos ingleses, sobretudo John Donne, Richard Crashaw e George Herbert, de quem Hilda era uma leitora meticulosa e isolada, pois poucos do seu meio literário os conheciam de coração como ela.

Hilda tornou-se uma cidadã eleita desta “república invisível” e, assim, usou e abusou dos tópicos desta escola poética, surgida na Inglaterra do século 17. Estão ali a atração e o diálogo com a morte, a sedução de um Deus que violenta brutalmente a poeta sem cessar, e a obsessão pelo efêmero, por um tempo que não dará trégua na precariedade do instante. Quando o Sagrado finalmente surge, é algo muito breve – e só a poesia consegue captá-lo, mesmo de maneira frágil.

Já na prosa, temos uma intensidade à beira do descontrole, graças à união que Hilda fez com as técnicas de fluxo de consciência de Joyce e Beckett e a temática religiosa agoniada extraída de Nikos Kazantzakis e Ernest Becker (santos supremos do seu panteão particular). Isso não significa que ela era destituída de controle formal. Pelo contrário: em narrativas como Lazarus, obra-prima do seu primeiro livro de relatos, Fluxo-Floema (1970), ou na sua estreia na pornografia escrachada de O Caderno Rosa de Lori Lamby (1990), fica evidente que ela dominava a carpintaria literária como poucos, até para embaralhá-la aos leitores mais incautos. Contudo, a intensidade arriscada de Fluxo-Floema até o estupendo Com Meus Olhos de Cão (1986) perde sua força com os tais “livros de sacanagem”, não pelo assunto em si – abordado como continuação da sua procura metafísica, pois aqui a erotização da sociedade é a evidência da inocência corrompida –, mas pelo fato de que ela finalmente se entrega ao seu querido Sagrado sem nenhum anteparo.

Isso provoca uma “confusão demoníaca” em seus escritos, do qual Hilda parece se transformar em uma prisioneira do seu próprio desespero, o que fica evidente em Estar Sendo. Ter Sido (1997), o derradeiro escrito em toda a sua obra – e é o que a faz ser cooptada pelas modas do momento que ela simplesmente abominava e das quais sua literatura não tem qualquer relação temática (como o feminismo, a transgressão sexual e outras veleidades).

Ainda assim, os anos de silêncio que se seguiram até seu falecimento não amorteceram a força do seu legado. Ela continuou presente entre nós, e há coisas a serem redescobertas, como o seu teatro completo que, concebido nos anos conturbados de 1968 a 1970, nos deu oito peças fenomenais, entre elas o milagre que é As Aves da Noite (1969), sobre o martírio do padre Maximilian Kolbe em Auschwitz. Aliás, esta peça talvez seja, junto com o conto Lazarus, a chave para entender o que acontecia de fato no interior da alma de Hilda Hilst: sim, ela era uma ave da noite, capaz de voar na escuridão mais terrível, em busca de uma luz difícil de ser encontrada, mas da qual teve breves lampejos em uma trajetória conturbada – como todos nós.

Isto era confirmado nos gestos do dia a dia. Quando era professora visitante na Unicamp no final da década de 1990 – conforme nos conta o escritor Yuri Vieira em seu recente e belíssimo relato sobre o cotidiano de Hilda, O Exorcista na Casa do Sol (José Olympio) – ela dava uma intrincada aula sobre diversos autores (entre eles, Novalis) e percebeu um aluno inquieto, a coçar as partes pudendas diante da “obscura senhora H”. Com seu jeito sincero e direto, perguntou ao jovem: “O senhor está se sentindo mal? Algum problema?” Encabulado, o rapaz disse: “Só queria saber o seguinte, professora: a senhora realmente acredita nesse negócio da imortalidade da alma?” Sem pestanejar, Hilda Hilst respondeu ao pobre coitado: “Eu acredito na imortalidade da minha alma! E, se você não parar de coçar o saco e começar a formar agora mesmo uma alma digna desse nome, não haverá nada que sobreviva à sua morte.”

Eis a única exigência da sua obra conosco: cuide da sua alma. E este foi o único tema sobre o qual ela meditou em toda a sua vida, sem exceção. Com seus acertos e erros, o voo noturno de Hilda Hilst é, sem dúvida, um feito insuperável na poesia brasileira – e uma forma de curar as trevas que ainda dominam a busca da nossa imortalidade.

*Martim Vasques da Cunha é autor dos livros 'Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More' (Vide Editorial, 2012) e 'A Poeira da Glória - Uma (Inesperada) História da Literatura Brasileira' (Record, 2015); pós-doutorando pela FGV-EAESP 

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