Fernando Lemos/Edições Sesc
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Hilda Hilst ganha primeira coletânea de ensaios sobre sua obra fora do Brasil

Escritora brasileira que sempre se queixou da falta de reconhecimento é comparada a outras vozes da literatura universal

Gutemberg Medeiros*, Especial para o Estado

03 de agosto de 2019 | 16h00

Hilda Hilst ansiou, por décadas, o que todo o autor quer: comunicação. Ser ouvida na ampla arena de vozes de seu tempo. Sua produção se insere na tradição dos que têm a literatura como a espessa via de pensar a condição humana. Nos últimos anos, chegou a propor a jovens autores: escrevam em inglês. Como poeta, amava a sua língua, porém percebia ser grande o esforço de pensar em um idioma com tão poucos leitores. 

Ela viu e ficou feliz com as traduções de seus trabalhos em espanhol, francês, alemão e italiano, mas não viu as três em língua inglesa. Ainda ficaria feliz com a primeira coletânea de ensaios no idioma de seu amado James Joyce: Essays on Hilda Hilst: Between Brazil and World Literature organizada por Adam Morris e Bruno Carvalho. A coletânea reúne oito ensaios de acadêmicos da Europa, Estados Unidos e Brasil, fechando com trechos de Fico Besta Quando me Entendem: Entrevistas com Hilda Hilst organizada por Cristiano Diniz (Biblioteca Azul). O primeiro bloco é dedicado ao teatro, seguido de outro sobre obscenidade e condição humana, o terceiro aborda os contextos nacional e global em Hilda chegando ao último sobre traduções. 

A introdução, de Adam Morris (tradutor para a versão americana da prosa Com os Meus Olhos de Cão) e Bruno Carvalho (professor da Universidade de Princeton) acertam no título: Who’s Afraid of Hilda Hilst? – alusão à peça de mesmo nome de Edward Albee –, dadas as polaridades que Hilda provoca ao parecer por vezes hermética e, ao mesmo tempo, buscar comunicação direta com o leitor com plena aversão à banalidade. Eles não vacilam em defini-la como “uma voz surpreendente e única” no panorama da literatura mundial e tiram o possível medo do leitor em se deparar com obra tão rica ao situar seu trabalho em contextos históricos, políticos ou estéticos, reconhecendo como transcende os limites da literatura brasileira. 

O texto segue em competente resumo de sua trajetória, obras e prêmios e, apesar disso, seguiu como uma “estrangeira em seu próprio país durante décadas”. Entre outros fatores – que incluiu a miopia do mercado editorial – isto se deveu “à voz enigmática e arcana em que ela escreveu muito de seu verso.” O que foi profundamente estudado por Cláudio Willer – infelizmente não citado nesta publicação – com seu clássico estudo Um Obscuro Encanto - Gnose, Gnosticismo e Poesia Moderna (Civilização Brasileira), cujo último capítulo é quase todo dedicado a Hilda em relação a essa tradição. A gênese dessa tese foi em resenha a Com os Meus Olhos de Cão publicada na revista IstoÉ (1987), ao desvendar as tradições com as quais a autora dialogava. Na época, Hilda me mostrou radiante a resenha e, sorrindo, apenas disse: “Ele entendeu”. 

Ao longo destes ensaios o leitor que desconhece Hilda a percebe seus pares. Jean Genet, Georges Bataille, Henry Miller entre outros “párias da modernidade”. A coletânea demonstra que Hilda é uma autora cosmopolita e a sua obra tem diálogos possíveis com escritores e filósofos – Elias Canetti, Bertrand Russell, William James, Otto Rank, Pier Paolo Pasolini, Marquês de Sade (por quem ela sentia tédio), Charles Baudelaire, Federico Garcia Lorca, Søren Kierkegaard, Albert Camus, Friedrich Nietzsche e James Joyce que habitaram intensamente a sua biblioteca. 

Para quem familiaridade com a fortuna crítica de Hilda, a grata surpresa é a coletânea iniciar pela dramaturgia, injustamente esquecida desde a década de 1960 por críticos e encenadores. Até onde se sabe o único estudo exclusivamente dedicado a esta fase vital publicado na Espanha sob o título O Herói Incômodo: Utopia e Pessimismo no Teatro de Hilda Hilst de Alva Martínez Teixeiro (Universidade da Coruña, 2009). 

David Foster (professor da Arizona State University) aborda em ângulo original a peça O Visitante e o filme Teorema de Pasolini a partir da teoria queer. Ambas as obras contemporâneas (1968), onde não se traça paralelismo, mas inspiração para perceber como Hilda brinca com a ordem moral da família burguesa. Porém, o ensaísta erra quando afirma que o teatro foi “passatempo fugaz”. 

A história é bem mais complexa do que esta afirmação equivocada. A autora se dedicou seriamente a essa forma de expressão em oito peças escritas entre 1967 e 1969 – o que foi reconhecido por poucos como Anatol Rosenfeld e Alfredo Mesquita. Quem conhece a trajetória de Hilda sabe o quanto não brincava em serviço. Apesar da forte “gralha”, Foster é pertinente ao afirmar que O Visitante antecipa por décadas as revisões queer das relações que trazem para o seu universo aquelas baseadas no amor e desejo homoafetivos, juntamente com as consequentes revisões da família e de outras unidades sociais e realiza análise inovadora do teatro hilstiano.

Avaliando os diversos momentos do erótico na produção de Hilda, Eliane Robert Moraes vai além da tetralogia erótica iniciada com O Caderno Rosa de Lori Lamby ao perceber raízes em Fluxo-Floema (1970) e a sua forma peculiar de trabalhar o obsceno, primeiro passo sólido na prosa literária “onde abriu uma vigorosa linha de força dentro de seu trabalho, que já estava fixado nos domínios de Eros”. A ensaísta pondera como Hilda habilmente tece a sua obra em movimento pendular entre o humor e o abjeto. Inclusive na sua prosa A Obscena Senhora D (1982) – considerado o seu ápice criativo independente de gênero literário – e ainda permeia outros momentos, inclusive em sua poesia Do Desejo (1992), alcançando “os muitos rostos espelhados intransponíveis de Eros”.

A densidade metafísica em Hilda é trabalhada por Adam Morris a partir da vívida admiração da autora pelo francês Vladimir Jankélévitch, aliado Bertrand Russell e Elias Canetti, demonstra ao leitor a vertente “mística” ou “filosófica” antirracionalista da criadora. “O nexo entre matemática e poesia era mais do que apenas um artifício para a prosa de Hilst Com os meus olhos de cão e alguns de seus outros textos ficcionais: expressava a crença de Hilst em uma unidade gnóstica transcendental que está no centro de toda a metafísica.” Estes ensaios sobre Hilda Hilst já ocupam lugar de destaque na fortuna crítica sobre a obra da escritora, cuja leitura certamente será surpreendente inclusive aos brasileiros. 

*GUTEMBERG MEDEIROS É JORNALISTA, PESQUISADOR E ALUNO DE HILDA HILST NA UNICAMP NOS CURSOS ‘CRIATIVIDADE E RELIGIOSIDADE’ (1985) E ‘A TRAJETÓRIA TEATRAL NA OBRA DE HILDA HILST’ (1986)

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