Robert Schmidt/AFP
Robert Schmidt/AFP

Hillary Clinton, cara a cara com o preconceito

Enquanto ela desafiava o matadouro de mulheres no Congo, nos EUA só se falava na façanha do marido, Bill

Judith Warner, The New York Times

17 de agosto de 2009 | 12h11

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Esta deveria ser a viagem que mostraria como, exatamente, Hillary Rodham Clinton cumpriria sua promessa, feita durante a audiência que a confirmou no cargo de secretária de Estado, de tornar as questões da mulher uma parte "central" da política externa dos Estados Unidos, e não um tema "adjunto, nem auxiliar e nem de maneira alguma inferior".

 

O contexto não poderia ser mais dramático: rejeitando os temores de sua equipe, que alegava falta de segurança, ela viajou para a República Democrática do Congo, onde centenas de milhares de mulheres foram estupradas na última década. Visitou um campo de refugiados e se reuniu com uma mulher que foi vítima de estupro coletivo quando estava grávida de oito meses; soube de outra que fora sexualmente abusada com um fuzil. Contaram a ela casos de bebês arrancados dos corpos de suas mães a navalha. Ela falou em "maldade na sua forma mais primitiva". Prometeu US$ 17 bilhões para combater a violência sexual. Mas no seu país, todos só falavam de Bill.

 

Teria ele roubado dela os holofotes com sua viagem à Coreia do Norte? Teria ele a seguido, ainda que ausente, até Kinshasa, onde um estudante universitário, curioso a respeito da opinião do "sr. Clinton", tirou Hillary do sério e fez o mundo fofocar, novamente, a respeito do seu casamento, seu temperamento, e até seu penteado?

 

Quando continuar a viajar pelo mundo nos próximos anos, defendendo a luta das mulheres pela autonomia, começando com o próprio direito de ser levada a sério, Hillary terá pela frente um trabalho talhado para ela. E isso não se deve apenas ao fato de a situação das mulheres ser tão difícil em todo o mundo, nem ao fato de o oceano de problemas que elas enfrentam – mortalidade materna, tráfico sexual, abuso doméstico, desnutrição, educação precária, ausência de cuidados médicos adequados, só para começar – ser tão vasto e profundo. Também não se deve apenas ao fato de sua missão histórica – pôr em pé de igualdade a outra metade da população mundial, combater as forças que "desvalorizam a mulher", nas palavras de Melanne Verveer, a nova embaixadora-geral para assuntos femininos globais – ser tão imensa e vaga e aparentemente esmagadora. É também pelo fato de a maré de banalidade que varre tudo aquilo que esteja relacionado a Hillary ser tão poderosa. Essa maré ameaça afogar todas as iniciativas mais substanciais da secretária para uma parte da população cujos problemas há muito são obscurecidos no universo androcêntrico da diplomacia. E isso é uma grande pena.

 

Poderia ser o momento de os EUA se redimirem perante as mulheres do mundo. Afinal, nosso currículo recente é bastante desanimador. O governo Bush enviou antifeministas ao Iraque para treinar as mulheres daquele país na democracia participativa. Retiramos nosso financiamento do Fundo de Populações das Nações Unidas e impusemos uma mordaça global impedindo que as organizações de saúde da mulher que simplesmente falassem em aborto recebessem financiamento dos EUA. Nunca ratificamos a Convenção para a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, um tratado bastante básico de defesa dos direitos humanos, devido à preocupação, por parte de indivíduos paranoicos, de que a soberania americana fosse comprometida. A ausência de maternidade gratuita nos EUA faz de nós uma piada de mau gosto diante do restante do mundo.

 

Mas agora é possível que as coisas mudem, e não apenas dentro do Departamento de Estado. No senado, Barbara Boxer está chefiando uma subcomissão encarregada de analisar problemas femininos globais; e uma legislação para combater o matrimônio infantil tramita pelo congresso.

 

Ainda assim, uma forma de escárnio banalizador particularmente sexista continua perseguindo nossa secretária de Estado. Há apenas duas semanas, o Washington Post teve de remover de seu site uma paródia em vídeo, feita por dois de seus jornalistas políticos de maior destaque, que associava uma foto de Hillary a uma garrafa de cerveja cujo nome poderia ser considerado ofensivo. Esse tipo de ocorrência é uma péssima indicação da capacidade do país de tratar a secretária – e os temas que ela defende com tamanho ardor – com o devido respeito.

 

"Temos a própria lição de casa para fazer", disse-me Melanne Verveer. "Com muita frequência banalizamos a importância da ‘questão feminina’ – colocamos o termo entre aspas –, uma coisa secundária, um item que acrescentamos à lista. O que precisamos é compreender que se trata de problemas; se quisermos que as sociedades prosperem e se quisermos nossa própria segurança, temos que elevar o status das mulheres."

 

Os temas femininos têm sido abordados por este governo nos termos de realpolitik: a segurança dos EUA depende de uma maior autonomia das mulheres. O crescimento econômico global depende da participação das mulheres.

 

O fortalecimento das mulheres não será conquistado pela força das armas, nem por meio de sanções econômicas ou mesmo da crítica aberta se não forem alteradas as práticas culturais socialmente aceitas. Trata-se de questões difíceis. Alguns dos nossos principais aliados têm péssimos antecedentes em relação aos direitos da mulher. Programas que apresentam sucesso tendem a ser de progresso lento e cumulativo. Conseguirá essa complexidade toda atrair – e ainda reter – a atenção do público?

 

Talvez – se pararmos de encarar tudo que Hillary faz como mero entretenimento.

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