História não contada

Biografia de Ann Dunham revela a mulher cujo papel na vida do filho Obama foi mais decisivo que o do pai, sempre mais citado

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h08

Bye, bye, Tampa. Alô, Charlotte.

É seguro fazer duas previsões sobre a convenção do Partido Democrata americano que começa amanhã na charmosa cidade da Carolina do Norte: o candidato confirmado será Barack Obama; e nenhuma estrela convidada vai simular o diálogo com um personagem invisível numa cadeira. O fiasco da improvisação balbuciante de Clint Eastwood, que aspirou boa parte do oxigênio reservado à consagração de Mitt Romney, foi fartamente ridicularizado ao final da convenção na Flórida e interrompeu a crescente espera pelo discurso do republicano.

Não importa a coloração ideológica. A expectativa era a de que Romney precisava desfazer a imagem de cyborg programado para assumir qualquer posição política dominante no partido. Fez o melhor que pôde para dissipar o temor de que cede aos radicais do Tea Party, num discurso moderado e com momentos tocantes sobre sua família.

A identidade dos candidatos se tornou um tema central da campanha presidencial americana, quatro anos depois de Barack Obama ter mudado a história como o primeiro negro a chegar à Casa Branca. A partir da vitória eleitoral liderada pelo Tea Party, em 2010, Obama se tornou objeto renovado de uma indústria de rumores cujo teor racista só pode ser negado por quem crê em Papai Noel.

O desafio de definir Barack Obama vem do fato de que o próprio presidente escreveu duas autobiografias best-sellers antes de 2008. Há uma safra de livros sobre ele, a maioria ataques de comentaristas que são arroz de festa da Fox de Rupert Murdoch. The Amateur (O Amador) de Edward Klein, frequenta, há meses, o topo da lista de mais vendidos do New York Times e contêm cenas fabricadas, de acordo com personagens citados pelo autor, veterano de outras biografias desacreditadas. O autor indiano-americano Dinesh D'Souza está se tornando uma indústria anti-Obama, com dois livros e o recém-lançado 2016: Obama's America, maior bilheteria de documentário do ano. O jornalista David Maraniss lançou o enciclopédico Barack Obama: The Story, que termina na página 641, quando Obama tem 27 anos e está a caminho da Escola de Direito de Harvard.

Quando o bufão Donald Trump encomendava novas pesquisas sobre a alegada falsidade da certidão de nascimento de Obama no Havaí, durante sua breve campanha presidencial em 2011, chegou às livrarias A Singular Woman - The Untold Story of Barack Obama's Mother (Uma Mulher Singular - A História Não Contada da Mãe de Obama), de Janny Scott, ganhadora de um Pulitzer de reportagem pelo New York Times, em 2001. Scott acompanhou para o Times a carreira do então senador Obama quando aguçou sua curiosidade por Stanley Ann Dunham, a mulher que não era muito mais que um contraponto de pele branca ao carismático estudante do Quênia, em Sonhos de meu Pai - Uma História de Raça e Herança.

Scott recebeu o Aliás no seu confortável apartamento de Nova York e não se cansa de destacar a impressionante premonição da mãe de Obama, morta de um câncer mal diagnosticado em 1995, aos 52 anos. A adolescente virgem do Kansas que conheceu o queniano Barack Obama Sr na Universidade do Havaí e engravidou aos 17 anos tinha tanta certeza do talento do filho que dizia a amigos: ele pode ser o que quiser, inclusive o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Anos depois, Obama escreveu, de maneira um tanto sarcástica: "Minha mãe me criou para ser uma combinação de Albert Einstein, Mahatma Gandhi e Harry Belafonte". Mas, como conta Janny Scott, ao longo dos anos Obama passou a dar mais valor ao presente que recebeu da mãe: uma visão de mundo sem clichês raciais e culturais.

Ann Dunham se uniu ao pai de Obama, que já era casado no Quênia, quando os casamentos interraciais eram ilegais em metade dos Estados americanos. Voltou à universidade depois de abandonada pelo marido e se casou com um indonésio, Lolo Soetoro. Acompanhou Soetoro a Jacarta, onde chegou após o banho de sangue da repressão aos comunistas que custou 500 mil vidas, e teve uma filha, Maya. Preocupada com a educação de Barry, como era chamado o presidente, despachou o filho de volta, aos 9 anos, para estudar na melhor escola particular do Havaí e ficar sob a guarda dos pais dela. Ann Dunham morou no Havaí e na Indonésia em diferentes momentos e concluiu o Ph.D. em antropologia depois de várias interrupções.

Como lembra Janny Scott, ela não era uma visionária, e sim uma pioneira. Sua tese de mais de mil páginas sobre indústrias rurais na Indonésia foi publicada postumamente e recebida com respeito nos meios acadêmicos. Décadas antes de ouvirmos falar do Nobel da Paz Muhammad Yunus e do Grameen Bank, Ann Dunham trabalhava com microfinanciamento num banco indonésio e teve passagens pelo Banco Mundial e pela Fundação Ford. "Ela não queria mudar o mundo", diz Janny Scott. Mas é impossível compreender o ocupante da Casa Branca sem examinar a intrigante Ann Dunham.

Um dos primeiros pensamentos que me ocorreu enquanto lia o livro foi: por que Barack Obama estreou como memorialista em Sonhos de meu Pai - Uma História de Raça e Herança, quando, de fato, o papel da mãe foi muito mais decisivo na sua vida?

Para sermos justos, temos que considerar a gênese das primeiras memórias. Obama recebeu a oferta de um agente literário quando se tornou, em 1989, o primeiro negro presidente da Harvard Law Review, a publicação da Escola de Direito de Harvard. A atenção nacional começava a se voltar para o fator racial, e ele passou a tentar desvendar o quebra-cabeças do homem que conhecia tão mal. Os pais de Obama se separaram quando ele tinha 1 mês de idade. E ele só conviveu com o pai por algumas semanas, quando tinha 10 anos e Barack Obama Sr foi passar o natal em Honolulu. Sonhos de meu Pai foi concebido para explorar temas raciais. Mas concordo com você que a mãe, Ann, foi a figura predominante nos primeiros 13 anos de vida do filho, e depois, de maneira esporádica. É impressionante que ela tenha sido marginalizada na narrativa. Mas, pensando bem, quantos homens jovens dão crédito devido às suas mães? Boa parte da vida profissional e romântica de Ann aconteceu longe do filho. Sabemos também que o jovem Obama já pensava na política quando escreveu as primeiras memórias. Ele me disse que elas não foram calculadas para alavancar sua carreira, mas há que se levar em conta que ele quis lidar com sua identidade negra, não importa se teve uma criação francamente multirracial. E mais: a vida de Ann era bastante complicada para o público americano. Ela acabou reduzida à branca do Kansas, à jovem inocente no exterior. Só que se desenvolveu como personagem bem mais complexa. Em 2004, quando do discurso na convenção democrata que colocou Obama no palco da política nacional, decidiram relançar Sonhos de meu Pai e Obama acrescentou ao prefácio uma referência à figura que foi "a única constante na minha vida". Mas não vai muito além disso. Dois anos depois, publica A Audácia da Esperança e lida mais profundamente com a mãe.

É raro a biografia da mãe de um líder contemporâneo preencher tantas lacunas sobre a narrativa pessoal dessa figura pública.

O que aconteceu é que a história que consegui contar era muito nova. O presidente e sua irmã, Maya Soetoro Ng, não sabiam de vários fatos que estão no livro. Acho que, muitas vezes, os filhos preferem não saber detalhes da vida dos pais. O que o livro fez foi aumentar a consciência sobre o papel de Ann Dunham, como fica claro na nova biografia de David Maraniss (Barack Obama - The Story). Não que eu esteja, de forma alguma, insinuando que ele tomou meu material, mas é evidente o novo interesse pelos fatos. Felizmente isso vai apagando a série de clichês anteriores sobre Ann Dunham. Aconteceu algo curioso. Depois que o livro saiu, uma mulher que conhecera Ann ouviu Obama falar em público e disse que nunca tinha visto ele se referir à mãe com tantos detalhes.

A apuração do livro, que durou mais de dois anos, termina com um reencontro seu com Obama na Casa Branca. Ele fez alguma pergunta sobre sua pesquisa?

Eu fui avisada de que só teria 20 minutos com o presidente. Então fui direto ao que precisava para completar o livro. Não jogamos conversa fora. Seria maravilhoso ter tido mais tempo. Na verdade, consegui meia hora com ele. O presidente e Maya receberam a biografia um mês antes do lançamento, em 2011. Maya abriu o envelope, ele, aparentemente, não. Ela leu o livro até de madrugada. Na mesma manhã deixou um recado na minha secretária eletrônica com uma impressão positiva, dizendo que, apesar de não saber de tantos fatos, não duvidava de nada. Recentemente falamos juntas num painel no Havaí, onde ela mora. E ela admitiu que o livro lhe deu alguma tristeza, um remorso de não ter sido mais presente na vida de Ann, mesmo sabendo que ela própria estava ocupada, viajando a trabalho e fez o que pôde para ficar perto da mãe no final.

O livro não é potencialmente mais doloroso para o presidente?

Não posso dizer isso com certeza. Obama tinha 33 anos, estava na turnê promocional das memórias e se preparando para lançar-se ao Senado quando recebeu a notícia da morte da mãe, em novembro de 1995. Não devemos julgá-lo. E, pelo que sabemos de Ann, ela não queria fazer drama ou se fazer de vítima. Talvez tivesse escondido dos filhos a gravidade do seu estado.

Há um episódio relatado no livro que muitos não resistem em conectar com o Obama hoje adulto. Barry, como ele era chamado, está caminhando em Jacarta com a mãe e uma amiga dela. Um grupo de crianças joga pedras nele, gritando epítetos raciais. A amiga espera que Ann vá intervir e ela responde: 'Não, ele já está acostumado'.

É realmente fascinante a experiência que ele teve quando morou na Indonésia, entre 6 e 9 anos, na Ilha de Java. Indonésios com quem conversei veem em Barack Obama qualidades de um javanês. Lembro que seu padrasto era javanês e ele frequentou uma escola javanesa. As qualidades são a compostura e a resistência à provocação. Você deve mostrar que é mais forte e que não se comporta como vítima. Na cultura javanesa, esse tipo de brincadeira provocadora é quase uma rotina de fortalecimento dessas qualidades. E vemos muito disso no presidente, seja na questão racial ou na política. Na entrevista que tivemos ele me disse também que sua calma e autoconfiança o remetem ao senso de amor incondicional que recebeu da mãe.

Amigos de Ann Dunham sugeriram que ela teria visto a decisão do filho de se estabelecer em Chicago como um afastamento dela e um movimento em direção à identidade negra, especialmente pelo laço com Michelle, que é descendente de escravos e membro da comunidade negra local. Como vê isso?

Não sei se podemos usar a palavra "rejeição", mas acho que Ann ficou triste porque detectou uma necessidade do filho de se distanciar dela. Afinal, Obama teve uma experiência familiar bastante branca, passou vários anos de formação em companhia dos avós maternos, no Havaí. O fato é que Ann o criou para desafiar definições raciais. A sociedade americana ainda não conseguiu abraçar a multirracialidade. Ainda precisamos dessa dualidade. Obama tinha ambição política e acho que tomou uma decisão profissional de se apresentar como negro. Lembro que, na mídia, o acusavam de não ser negro o suficiente.

Mas, no fim das contas, Barry Obama é o consumado filho de Ann Dunham?

Sim, e acho que ele demorou a admitir a influência da mãe em sua vida, a mãe que o inspirou a seguir a carreira pública. Só quando nos tornamos adultos e temos mais confiança sentimos conforto com nossa origem. Há um relato incrível. Made Suarjana, jornalista indonésio possivelmente amante de Ann, fez o seguinte comentário, quando ouviu dizer que Barry ia para Chicago, depois de estudar direito em Harvard: "Então, ele vai ganhar US$ 1 milhão?" "Não, ele vai trabalhar pro bono", respondeu Ann. "Ah, então ele vai ser presidente", retrucou Made. "Primeiro", respondeu Ann, "ele precisa se eleger senador." Essa conversa se passou em 1991, quatro anos antes de Obama revelar que ia se lançar em sua primeira campanha política.

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