Max Rossi/Reuters
Max Rossi/Reuters

Historiador Allan Massie revisita o Império Romano sob a ótica da ficção em seis livros

'Política em qualquer época é uma questão de poder e autoridade', diz o historiador ao Estadão

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2021 | 15h00

Poucos períodos históricos são tão fascinantes quanto o auge do Império Romano, especialmente por sua combinação de antiguidade e detalhe nos registros históricos. Apesar dos muitos séculos que nos separam de Júlio César, Nero, Calígula e Augusto, estes personagens não soam como mitos evanescentes, e sim como seres humanos complexos de carne e osso, graças ao advento da palavra escrita, que os preservou em suas nuances até os dias de hoje.

Pois são esses homens ao mesmo tempo próximos e distantes que o historiador e ficcionista Allan Massie tenta retratar em seis romances históricos que chegam ao Brasil pela Faro Editorial. Os dois que chegaram primeiro às livrarias, Augusto e Marco Antônio e Cleópatra, são bons exemplares de como a literatura pode alargar a imersão histórica: ao pincelar fatos com as impressões subjetivas de seus personagens reais e ficcionais, Massie nos transporta para o tempo dos imperadores, em que as intrigas políticas podiam significar a ascensão ao poder absoluto ou a condenação à morte. 

Ambos os romances têm como foco o período imediatamente posterior à derrocada de Júlio César e o interregno que se deu entre sua tirania e o início do Império, com o governo de Augusto. Alguns dos episódios se sobrepõem entre os romances, mas é interessante notar como as mudanças de ponto de vista e foco narrativo transformam esses acontecimentos, fazendo com que um livro complemente o outro. 

Somam- se a essas duas obras os demais livros da coleção, focados nas figuras de César, Tibério, Calígula e Nero.

Abaixo, leia a entrevista que Allan Massie concedeu ao Estadão por e-mail:

O que a vida dos líderes romanos pode nos ensinar?

Talvez não mais que as vidas de figuras históricas subsequentes e de políticos atuais. Pode-se ver a dificuldade de manter um senso de proporção. Júlio César perdeu isso, e tornou evidente, alarmante e odiosa sua autoimagem de superioridade. Augusto, apesar de ter eventualmente exercido mais poder sobre Roma e o Império do que César jamais exerceu, disfarçou sua supremacia com uma cortina republicana, declarando que, embora não tivesse mais poder que seus colegas, ele os sobrepujava em autoridade. Considerando políticos e líderes nacionais contemporâneos, isso pode ser útil para distinguir entre poder e autoridade – quando o poder é democraticamente embasado ou não. 

Suponho que o sr. tenha sido obrigado a fazer concessões enquanto historiador para compor diálogos vívidos e incrementar a tensão dramática. Como traçou a linha entre fato e ficção?

Eu respeito o panorama histórico e os fatos até onde nós podemos nos assegurar deles – ainda que, por ignorância ou descuido, haja alguns poucos equívocos históricos. Contudo, ao empregar um narrador em primeira pessoa em todos esses romances, eu me comprometi de início a imaginar o que a história não registra. Obviamente quase todos os diálogos e a maior parte das reflexões dos narradores são imaginadas ou inventadas, ainda que inspiradas quando possível em documentos e no trabalho de historiadores romanos, principalmente Suetônio e Tácito. Ambos tinham evidências documentais agora perdidas, mas ambos escreveram uma ou duas gerações depois dos eventos que descrevem, e a obra de Tácito foi distorcida por seu viés republicano. Selecionei o que me ajudaria em seus trabalhos. É sabido que Augusto escreveu uma autobiografia, agora perdida, e Tibério pode ter escrito suas memórias. Pode-se tomar emprestado de suas cartas e transcrições de suas conversas. Resumindo, eventos públicos são retratados o mais acurados historicamente possível: diálogos, pensamentos, etc. são ficcionais, mas coerentes com meus narradores e outros personagens. Então, por exemplo, a reunião de Marco Antônio, Augusto e Lépido em uma ilha do Rio Pó onde eles definiram as listas de proscritos é apresentada em ambos os romances, mas a interpretação e até o diálogo relembrado são diferentes, dependendo do narrador. 

Algumas das intrigas em seus livros me lembram do cenário político contemporâneo do Brasil e de outros países. Como a política romana nos ajuda a compreender a natureza do poder?

Política em qualquer época é uma questão de poder e autoridade; é a aceitação da autoridade que legitima o poder. Não havia uma Constituição romana escrita, e isso, entre outras coisas, significava que não havia regulamento para a transferência de poder uma vez que a República havia se tornado Império, no qual o poder estava enraizado nos Exércitos e, portanto, na força. Augusto criou uma forma de Império em que, a despeito de um grave colapso no ano 69 d.C., funcionou efetivamente por 200 anos; um grau notável de estabilidade. Mas, ainda assim, um imperador só podia estar seguro controlando o Exército.

Quais são as principais lacunas no nosso conhecimento atual sobre o Império Romano e como você as encara em seus romances?

Nós sabemos muito mais sobre o Império Romano do que sobre a maioria dos períodos da história antiga, mas muito menos do que sobre a história moderna, de 1500 em diante, digamos. Isso o torna especialmente atrativo para o romancista. Há fatos suficientes para ancorar sua narrativa, bastante coisa que não sabemos para dar liberdade de imaginar e inventar. Eu não finjo que meus romances são livros de história, mas eles são enraizados na história real, em um fascinante período histórico a respeito do qual sabemos o bastante para o convite à especulação, e no qual há elementos desconhecidos o suficiente para permitir que a imaginação tenha liberdade.

Em Marco Antônio e Cleópatra, o narrador Crítias age como uma espécie de alter ego para que o sr. insira comentários na trama?

Crítias, filho de um homem liberto, trazido à casa de Marco Antônio, age como seu secretário, para quem ele dita suas memórias. Antônio, porém, está em declínio (e frequentemente embriagado). Então há coisas que ele não é capaz de confrontar, outras que ele já esqueceu, e Críticas, como ele mesmo diz no primeiro capítulo, caiu no hábito de adicionar os próprios comentários, eventualmente tomando para si um pouco da narrativa. Crítias me foi necessário porque Marco Antônio, como eu o imaginei em decadência, era um fracassado (embora ainda uma figura esplêndida) incapaz de encarar a verdade. Eu não penso em Críticas como meu alter ego, mas como um mecanismo necessário cuja perspectiva era interessante. Dito isso, eu me tornei muito afeito a ele.

Cleópatra e Crítias parecem usufruir de uma liberdade incomum para mulheres e servos.

Bem, suponho que ambos foram personagens incomuns, especialmente Cleópatra. Mas ela era, é claro, uma rainha, governando uma grande nação, e portanto estava em seu direito. Ela pode ser comparada a muitas outras monarcas europeias posteriores — Elizabeth Tudor e Catarina, a Grande, da Rússia. Ela era também extremamente inteligente e fascinante. Outras mulheres eram capazes de exercer poder indiretamente: notavelmente Livia, mulher de Augusto. Já sobre Crítias, houve casos posteriores de imperadores (por exemplo, Cláudio) que confiaram cegamente em seus servos prediletos. Na trilogia Cícero, de Robert Harris, o escravo/secretário de Cícero cumpre um papel narrativo não muito distinto de Crítias.

 

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