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Historiador busca origem dos gulags soviéticos na era dos czares

Três séculos antes dos expurgos de Stalin, Sibéria já passava por processo de colonização com condenados

Flávio Ricardo Vassoler*, Especial para o Estado

12 Maio 2018 | 16h00

Desde o início de A Casa dos Mortos: O Exílio na Sibéria sob os Románov (Companhia das Letras, tradução de Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra), o historiador inglês Daniel Beer instiga nosso imaginário com a aura longínqua da Sibéria: “Com 15,5 milhões de quilômetros quadrados, a Sibéria corresponde a uma vez e meia o continente europeu. Seus limites não são claros nem ela tem uma identidade étnica dominante. Os montes Urais, transponíveis com facilidade, funcionaram menos como um delimitador físico do que como fronteira imaginária e política de uma Rússia europeia além da qual se estendem uma gigantesca colônia asiática e um reino punitivo em expansão. A Sibéria foi, ao mesmo tempo, o núcleo do obscurantismo russo e um mundo de oportunidades e prosperidade. O presente sombrio e impiedoso do continente devia dar espaço a um futuro brilhante, e seus exilados desempenhariam papel fundamental nessa tão apregoada transição”. 

Os expurgos e os campos de trabalhos forçados impostos pelo stalinismo a milhões de inocentes vinculam a Sibéria, em nosso imaginário, ao Arquipélago Gulag (1973), de Alexander Soljenitsyn (1918-2008), e aos Contos de Kolimá (publicados a partir do fim da década de 1960), de Varlam Chalámov (1907-1982). Mas a autocracia czarista já vinha estruturando, há três séculos, um sistema de expurgos que buscava atrelar um crescente exército de exilados (criminosos comuns e políticos) ao projeto de colonização da Sibéria. Como nos revela Daniel Beer, “em tese, os criminosos russos trabalhariam duro para colher as riquezas naturais e colonizar os territórios remotos e, assim, descobririam as virtudes da abstinência e do trabalho pesado”. 

Em busca desse pathos siberiano do trabalho árduo e rústico em duelo com a natureza selvagem, o cineasta alemão Werner Herzog acompanhou alguns caçadores em sua jornada pela taiga invernal (com temperaturas que desciam abaixo de 50 graus negativos) no documentário Happy People: A Year in the Taiga (Pessoas Felizes: Um Ano na Taiga, 2010). 

Entretanto, prossegue Beer, “na prática, o sistema de exílio enviou ao interior siberiano um exército não de colonizadores empreendedores, e sim de miseráveis e vagabundos irrecuperáveis. Eles sobreviviam não do próprio trabalho, mas mendigando e roubando dos verdadeiros colonizadores, os camponeses siberianos. As tensões implícitas nessa dupla condição de ‘prisão-colônia’ nunca se acalmaram”.

Entre 1801 e 1917, mais de um milhão de súditos dos czares foram banidos para a Sibéria. Centenas de milhares de exilados não puderam legar suas memórias e rastros. Dois exilados siberianos, no entanto, entraram para a história: o escritor Fiodor Dostoievski (1821-1881) e o revolucionário Vladimir Lenin (1870-1924). 

Por ter feito parte do Círculo de Petrachévski, um grupo revolucionário que propugnava pelo fim da servidão na Rússia e, no limite, pelo estabelecimento de uma república socialista que destronasse a monarquia Romanov, Dostoievski e seus camaradas foram condenados à morte na segunda metade dos anos 1840. À iminência dos disparos do pelotão de fuzilamento, o czar Nicolau I (1795-1855) comuta a sentença capital e a reverte em longos anos de trabalhos forçados no presídio que Dostoievski imortalizaria em Recordações da Casa dos Mortos (1862). Com agudíssimo tino psicológico para as contradições da condição humana, o escritor só fazia analisar as intenções e inclinações dos celerados com os quais convivia no presídio. A casa dos mortos fez com que Dostoievski questionasse a consciência de classe inequívoca e supostamente revolucionária dos detentos miseráveis, na mesma medida em que levou o autor a exaltar aquilo que entreviu como o cristianismo autóctone do povo russo: “Posso testemunhar que, no ambiente mais ignorante e mesquinho, encontrei sinais incontestáveis de uma espiritualidade extremamente viva.” 

Daniel Beer nos informa que o exílio do líder bolchevique Vladimir Lenin constitui mais um capítulo da “desolada passagem obrigatória pela Sibéria na história do republicanismo europeu e do movimento revolucionário russo”. 

A despeito das tentativas czaristas de alijar os focos de insurreição, a Sibéria acabou se tornando “um gigantesco laboratório da revolução, e o exílio, um rito de passagem para homens e mulheres que um dia governariam a Rússia. Quando a revolução por fim eclodiu, esses radicais exilados transformaram as cidades e vilas siberianas em cadinhos de luta violenta contra a autocracia. Ergueram-se patíbulos nos pátios das prisões enquanto, além de seus muros, guardas penitenciários eram assassinados nas ruas. De lugar de quarentena contra o contágio da revolução, a Sibéria tornou-se a fonte mesma da infecção”. 

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela USP, com pós-doutorado em literatura russa na Northwestern University (EUA) 

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