Todavia
Todavia

Historiador conta o fim da 1.ª Guerra Mundial com estilo de ficção

Daniel Schönpflug se concentra na esperança de paz após a guerra em 'A Era do Cometa'

Antônio Xerxenesky*, Especial para o Estado

24 Novembro 2018 | 16h00

Como representar um período que ficou conhecido especialmente pela sua complexidade? A 1.ª Guerra Mundial tem passado por uma redescoberta pelas artes, da literatura às séries documentais, passando pelos videogames. Enquanto a 2.ª Guerra ostenta um número infindável de obras populares no cinema, é curioso observar que o filme mais conhecido sobre a 1.ª, Lawrence da Arábia, passa longe das trincheiras de Verdun. 

Em certo sentido, parece muito mais fácil representar a 2.ª Guerra, pois ela apresenta vilões e mocinhos claramente definidos. A 1.ª Guerra, por sua vez, ficou conhecida pela sua violência desmedida até então, com várias pequenas revoluções políticas ocorrendo ao longo de todo o globo.

Na esteira do centenário do armistício, a editora Todavia publica A Era do Cometa: o Fim da Primeira Guerra e o Limiar de um Novo Mundo, do historiador alemão Daniel Schönpflug. À primeira vista, trata-se de mais um livro de história popular que concentra sua ação em um só ano a ser analisado. Entre os exemplos mais conhecidos no Brasil estão os livros de Laurentino Gomes. A proposta estética de Schönpflug, no entanto, radicaliza esta estrutura. As personagens principais do livro não são (necessariamente) generais, presidentes, reis, mesclando, ao invés disso, soldados rasos, coadjuvantes políticos, artistas experimentais, escritores etc.

O livro começa com uma narração vertiginosa das últimas horas antes do cessar-fogo ser aplicado nas trincheiras, narrando a vida de infelizes que morreram minutos antes da guerra chegar ao fim. O foco de Schönpflug, porém, não está no conflito bélico, e sim na luz esperançosa que a paz trouxe para as pessoas das mais diversas nações. O livro, então, vai alternando entre pontos de vistas, mostrando, por exemplo, a expectativa dos soldados negros norte-americanos que tinham sido heróis de guerra (os “Harlem Hellfighters”) de que sua fama mitigaria o racismo nos Estados Unidos. Ou o desejo por igualdade de gêneros que Louise Weiss acreditava que chegaria a todas as mulheres conforme assumia uma posição importantíssima no mundo do jornalismo como chefe da revista L’Europe Nouvelle

O autor transmite com talento de romancista esse surto de otimismo, enquanto deixa claro que esse sonho não perdurará, e que a ascensão nazifascista está logo ali na esquina. Um dos grandes acertos de Schönpflug é o de escolher como personagens artistas cujas obras representam o caos da mudança e o início da modernidade, como o compositor Arnold Schönberg, afetado diretamente pelo antissemitismo que fermentava no pós-guerra. Há um afã claro em criar uma história alternativa, lançando luz em negros e mulheres, tipicamente escamoteados nas histórias oficiais.

No entanto, nem todos personagens são igualmente interessantes para a tese central que Schönpflug busca costurar. Dezenas de páginas tratam da carreira incipiente da escritora inglesa Virginia Woolf. Não há dúvidas de que Woolf foi uma das mais importantes narradoras do século 20, e seus diários mostram uma vida interior exposta de forma riquíssima. Porém, Woolf neste período ainda estava muito distante dos conflitos políticos, e as cenas que Schönpflug constrói em torno da escritora parecem ter conexões ínfimas com as mudanças sócio-políticas violentas da Europa. Neste sentido, a jornalista Louise Weiss, no seu desejo visceral de estar no calor da ação, revela-se muito mais fundamental para a tentativa de elaborar uma visão coesa.

Mas tal objetivo seria possível em primeiro lugar? A estrutura multifacetada do livro parece sugerir que um período complexo precisa de uma abordagem igualmente complexa que dê conta de ações sincrônicas – uma simultaneidade de revoluções íntimas e pessoais. Às vezes, no entanto, a estratégia se mostra superficial, pois como dar conta de vidas tão díspares em meras 300 páginas? 

Além disso, o estilo romanesco de Schönpflug extrapola as convenções da não ficção. Em determinado momento, ele diz que “Louise (...) sente-se, subitamente, francesa no fundo de seu coração.” Como um autor de não-ficção tem acesso aos sentimentos de alguém? As fontes ao final do volume apontam para diários e memórias – mas seriam estas confiáveis o bastante? Trechos similares abundam ao longo do livro e são capazes de enlouquecer o leitor que espera mais rigor de uma obra que, no fundo, é documental.

Ainda assim, a proposta é louvável. Ao descrever como o cessar-fogo demorou para ser assimilado ao redor do mundo, Schönpflug afirma: “A história novamente se despedaça em incontáveis narrativas individuais, não sincrônicas.” Esta é a frase chave para compreender A Era do Cometa, ainda que saiamos da leitura sem conseguir assimilar esse período intricado que foi o ano de 1918. 

*Antônio Xerxenesky é autor de 'As Perguntas' (Cia das Letras), entre outros livros 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.