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Historiador de Harvard Niall Ferguson opõe redes sociais e hierarquias

Autor de 'The Square and the Tower' se esquece, porém, do lado perverso do 'mito da inovação'

Martim Vasques da Cunha*, Especial para O Estado de S. Paulo

17 Março 2018 | 16h00

Em The Square and the Tower (A Praça e a Torre), admirável livro sobre o atualíssimo conflito entre as redes sociais e as hierarquias corporativas, publicado no início deste ano, o historiador Niall Ferguson suspende o seu panorama narrativo para nos contar uma anedota. Trata-se dos encontros entre a poetisa russa Anna Akhmatova e o filósofo de Oxford (então adido na embaixada britânica na União Soviética stalinista) Isaiah Berlin, ocorridos entre 1945 e 1946. Foram conversas longas, castas e que falaram sobre tudo o que importa, de literatura às artes plásticas, menos de política. Contudo, não foi assim que Stalin pensou. No ápice do seu poder, ele acreditava que a reunião daqueles dois só podia significar uma oposição ao seu governo tirânico. Não estava errado – e, por isso mesmo, mandou cercear ainda mais o círculo de amizades de Akhmatova e ordenou, logo depois, a prisão do filho dela pela segunda vez (a primeira foi em 1938).

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As conversas entre o filósofo e a poetisa são, segundo Ferguson, os exemplos concretos da subversão política que fundamenta as conexões informais das redes sociais. Ao contrário do que muitos imaginam nesses tempos de Facebook, Twitter e Instagram, elas não existiam só porque o Silicon Valley quis isso. Na verdade, as redes sociais são uma constante na história da civilização ocidental.

Elas podem ser encontradas desde as sociedades secretas (como os Illuminati e os Rosa-Cruzes, incapazes de criar alguma conspiração política, como muitos supõem, mas fundamentais para estabelecerem uma estrutura flexível de informação) à mudança de pensamento provocada pela criação da imprensa por Gutenberg (e, posteriormente, pela revolução religiosa atiçada por Martinho Lutero), passando pela era das Grandes Navegações (que criaram, para o bem ou para o mal, a nossa noção atual do mundo globalizado).

Para Ferguson, o contraponto às redes sociais são as hierarquias de comando e de conhecimento – cuja amostra mais sinistra foi o regime de Stalin. Por meio de decisões que sempre surgem de cima para baixo, elas querem controlar esses organismos descentralizados, pelo simples motivo de que esses últimos desestabilizam qualquer espécie de poder autossuficiente. Mas este conflito não é tão simples assim. A partir da imagem da Piazza del Campo, localizada no Palazzo Pubblico da cidade de Siena, onde podemos ver a imponente Torre del Mangia que, com sua sombra, sufoca a praça de comércio logo abaixo, o autor de A Guerra do Mundo argumenta que existe uma dinâmica peculiar entre as hierarquias e as redes sociais, na qual as primeiras podem absorver a novidade das segundas, justamente para fortalecerem ainda mais o seu domínio absoluto.

Por outro lado, o mesmo pode ocorrer com as redes, que não hesitarão de criar uma nova hierarquia para justamente mudarem o fluxo e o centro do poder. É o que acontece com as gigantes de Silicon Valley, como Facebook, Apple e Google, que, com seu modelo de negócio, inicialmente baseado no uso despudorado das infraestruturas de cabos e fios construídas pelas empresas de telecomunicações (AT&T, Verizon e ComCast), criaram uma batalha pelos “corações e mentes” da sociedade que poucos percebem – a chamada “Guerra da Banda Larga”, disfarçada na retórica igualitária da “neutralidade da rede” – e com profundas consequências políticas e culturais para todos nós. Ambos os grupos lutam entre si e entre seus oponentes, alimentados pela ilusão de que a tecnologia foi o principal impulso no surgimento das redes sociais, quando, na verdade, o que está em jogo é o comportamento humano de acreditar que existem respostas fáceis para problemas extremamente complicados.

Infelizmente, a análise histórica de Niall Fergsuon é vítima da panaceia do momento – o mito da inovação. Ele tornou-se o fundamento da nossa era do “solucionismo tecnológico”, uma expressão de Evgeny Morozov que retrata a nossa obsessão por alterar, via gadgets e aplicativos, assuntos humanos que seriam resolvidos naturalmente, sem qualquer interferência. Com isso, no passado todos queriam ser médicos, engenheiros ou advogados; agora, todos querem ser o próximo Steve Jobs, o empreendedor que enfim trará o futuro tão prometido na startup perfeita e que precisa ser, antes de tudo, “inovadora”.

Porém, eles mal sabem o verdadeiro significado desse termo. Se Ferguson comete o equívoco metodológico de não se questionar sobre o mito da inovação na sua narrativa – um pecado para quem escreveu os formidáveis A Ascensão do Dinheiro, Império, Colosso e Civilização –, o scholar canadense Benoît Godin, pesquisador e professor do Institut Nacional de la Recherche Scientifique (INRS), de Montreal, elucida esse problema com os livros Innovation Contested e Models of Innovation. Godin mostra que a inovação é um movimento preocupado com a busca pela liberdade (daí o seu fascínio) e, por isso mesmo, os sujeitos que a praticam sempre têm a iniciativa de introduzir algo novo ou diferente em uma sociedade petrificada nos costumes. Entretanto, ela não está delimitada no âmbito tecnológico. A inovação possui, antes de tudo, um sentido religioso e político – e, não à toa, era o termo secularizado para “heresia”. Portanto, a ação inovadora se contrapunha à contemplação do real, criando um conflito entre tradição e novidade, o que prejudicou o sentido positivo de inovação até meados do século 20, quando ela se tornou a moda do momento – e um processo técnico que enfim facilitaria a pesquisa e o desenvolvimento comercial do mundo moderno.

Em seu livro, Ferguson sequer se refere à inovação como algo negativo, em especial quando aborda as épocas da Renascença e do Protestantismo, períodos que, segundo Godin, ela era citada como se fosse a Peste Negra. Para o inglês, o importante é a tensão entre as redes sociais e as hierarquias – e nada mais; já o canadense reconhece que, conforme a tecnologia foi aperfeiçoada no curso da História, a tal da panaceia inovadora não passa de um modelo provisório sobre o qual ninguém tem um conceito ou um método definidos, apenas opiniões superficiais ditas para agradarem o público leigo, os acadêmicos que jamais empreenderam coisa alguma e a classe jornalística ávida por um novo slogan para vender suas publicações.

Já a defesa que Ferguson apresenta da predominância das hierarquias em relação ao caos das redes sociais, como algo fundamental para se manter a coesão do Ocidente, também não corresponde à realidade histórica. Em On Kings, recente tratado dos antropólogos Marshall Sahlins e David Graeber sobre a permanência da realeza, a figura do rei é absolutamente essencial para o funcionamento de qualquer sociedade, arcaica ou moderna. Apesar desse tipo de governante ser uma raridade em nossos tempos democráticos, Sahlins e Graeber observam que, mesmo assim, a soberania que antes era centrada no monarca agora é plenamente transferida para essa entidade sem controle que chamamos de “o povo”. Ou seja, se aplicarmos a metáfora de Ferguson, a torre manteve o poder ao permitir que sua sombra protegesse a praça – e foi esta que passou a sustentar para sempre tal construção imponente.

Essa confusão de paixões não é nenhuma novidade quando lidamos com uma lenda tão poderosa como a da inovação. Aqui, aplica-se o que o celebrado roteirista William Goldman (de Butch Cassidy e Todos os Homens do Presidente) descobriu quando ele trabalhava em Hollywood e perguntavam-no sobre a fórmula de um filme de sucesso. A resposta dele sempre foi a seguinte frase: “Ninguém sabe de nada”. E é assim que o inovador deve se comportar porque, no fundo, nem ele mesmo reconhece se sua invenção tem algum valor, muito menos quando participa de um momento realmente histórico. Inovar é algo similar àquilo que Anna Akhmatova – uma solitária rede social que jamais dependeu interiormente de qualquer hierarquia, como vimos nos seus encontros com Isaiah Berlin – escreveu como “vozes cativas, irreconhecíveis” que estreitavam assim “o círculo secreto” do mistério da criação. Elas são as palavras frágeis que nos fazem compreender lentamente – e com muito sofrimento, sem dúvida – os versos que são ditados pela História e que se acomodam na alvura do caderno da posteridade.

*É autor dos livros 'Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More' (Vide Editorial, 2012) e 'A Poeira da Glória - Uma (Inesperada) História da Literatura Brasileira' (Record, 2015); Pós-doutorando pela FGV-EAESP 

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