Heather Benning
Heather Benning

Historiador demonstra as maneiras como as obras de arte se perdem

Seja por roubo, acidente ou por intenção do próprio artista, se as obras perdidas fossem reunidas, teríamos um acervo melhor que o de qualquer museu

The Economist

19 Maio 2018 | 16h00

Poderia ser o enredo de um filme de ação de Hollywood. Em um dia gelado em Estocolmo, dois carros de repente explodem em chamas na rua. Policiais espalham-se no que parece um ataque terrorista, enquanto um carro acelera em direção ao Museu Nacional da Suécia, um grande edifício de frente para a baía da cidade. Três homens armados pulam para fora e correm para dentro. Gritando ameaças através de suas balaclavas, eles forçam os visitantes a se deitarem. Correm pela galeria, arrancando quadros da parede. Com um carregamento que inclui dois Renoirs e um Rembrandt, escapam em uma lancha, atracada do lado de fora. Cinco anos depois, em um elaborado assalto, um agente do FBI se apresenta como um colecionador tentando capturar uma raridade em Copenhague, e o Autorretrato de Rembrandt é recuperado.

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O roubo de arte nem sempre é tão cinematográfico quanto essa história da vida real, mas é surpreendentemente comum. Em um novo livro, Noah Charney, um historiador de arte, cita os dados do Departamento de Justiça americano elencando o roubo de obras de arte como o terceiro crime de maior lucro bruto do país. Na Itália, cerca de 30 mil obras de arte são roubadas anualmente. E em 2013, a polícia na Grã-Bretanha considerou que a arte roubada rendeu aos criminosos um total de mais de 300 milhões de libras (US$ 405 milhões) por ano.

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Mas não é esta a única maneira de se perder uma obra de arte. Charney cataloga o que ele chama de “história do espaço negativo da arte”, repleta de “mais obras-primas do que todos os museus do mundo juntos”. Para Charney, a arte que perdura nem sempre é a melhor. “Nossa compreensão da arte é distorcida, inevitavelmente, para as obras que podem ser vistas”, escreve ele. “São inúmeros os perigos... que podem acontecer a uma obra de arte, muitas vezes tão frágil quanto um pedaço de papel.” Seu livro enciclopédico e envolvente é estruturado em torno desses diferentes perigos, das inúmeras maneiras diferentes de se perder uma obra de arte (às vezes encontrada mais tarde).

Tome-se a guerra, como exemplo. O livro conta como 15 mil objetos desapareceram do Museu Nacional em Bagdá durante a guerra do Iraque em 2003, e como o armistício de Napoleão, de 1792 em Modena, foi o primeiro tratado dos tempos modernos a exigir que obras de arte fossem entregues em troca de um cessar-fogo. Em um capítulo sobre vandalismo e iconoclastia, o autor descreve como o Taleban destruiu dois enormes Budas do século 4 no vale de Bamiyan, no Afeganistão, em 2001.

Estes são os tipos óbvios de culpados, mas o livro também mostra como os próprios artistas são propensos da mesma forma a destruir algo que fizeram. Michelangelo queimou a maioria de seus desenhos e esboços preliminares. Na Itália do século 16, os artistas não queriam que ninguém soubesse o quanto davam duro para criar suas obras-primas. O verdadeiro gênio foi definido por um traço especial, uma “sprezzatura”, ao idealizar um trabalho brilhante sem qualquer esforço. Ele jogou fora todas as evidências da dificuldade para que, como Giorgio Vasari, um contemporâneo e famoso cronista das vidas dos artistas da Renascença, escrevesse, “ele não pode parecer menos do que perfeito”.

Não é de se surpreender que fogo seja citado em outros lugares ao longo do livro de Charney. Em 1734, um enorme incêndio no palácio de Alcázar em Madri transformou centenas de obras de arte em cinzas, incluindo muitas de Velázquez, Rubens e Ticiano. Três séculos depois, em 2004, um armazém no leste de Londres incendiou-se, incinerando a coleção de arte contemporânea de Charles Saatchi incluindo artistas como Damien Hirst, Paula Rego e Chris Ofili.

A obra de Tracey Emin, Todas as Pessoas com as Quais Eu Já Dormi Entre 1963-1995 foi uma das obras destruídas no fogo. Uma tenda azul coberta por 102 quadrados de retalhos que menciona os nomes de todas as pessoas com quem ela já dividiu a cama, feita de tecido sintético altamente inflamável não teve a menor chance. Naquele momento, os críticos sarcásticos gritavam coisas como “milhões de pessoas não aplaudiram quando esse 'lixo' pegou fogo?” E “você teria pensado que, com determinação e financiamento, muitos desses trabalhos seriam perfeitamente substituíveis”. Para esse fim, a Saatchi Gallery supostamente ofereceu a Emin um milhão de libras para que ela recriasse a obra. Ela recusou: “Meu trabalho é muito pessoal, o que as pessoas sabem, então eu não posso criar essa emoção novamente – é impossível.”

Há também artistas que criam obras que jamais foram feitas para durar, pois em vez disso pretendiam viver nas fotografias ou filmes que as documentassem. Charney dedica espaço a peças efêmeras como Estudo para o Fim do Mundo, de Jean Tinguely; uma engenhoca de 8,2 metros de altura que ele construiu com a ajuda de Robert Rauschenberg no início dos anos 1960. Projetado para destruir-se automaticamente, a obra explodiu na frente de 250 espectadores no deserto de Nevada: uma confusão flamejante e fascinante de uma mecânica intencionalmente defeituosa.

Meio século depois, em outra peça intencionalmente destruída, Heather Benning, uma artista canadense, passou 18 meses construindo uma casa de bonecas em tamanho real chamada A Casa de Bonecas. Uma criação surreal em forma de palco, com uma parede de tijolos substituída por acrílico, era uma visão ampliada de um brinquedo de infância. Uma cena perfeita de uma casa serena, mas estranhamente vazia, parecendo congelada no tempo como um mausoléu.

Quando as fundações do edifício finalmente se tornaram instáveis, Benning incendiou sua criação. Este sempre foi seu plano. Ela tirou fotos enquanto o fogo brilhava, fazendo um novo trabalho a partir do antigo. As imagens revelando a fragilidade da casa de bonecas que ela construiu e são uma metáfora apropriada para a inerente fragilidade da arte.

Noah Charney documenta em seu livro cuidadosamente como a violência e os caprichos da guerra, saques, acidentes, vandalismo e desastres naturais sempre causarão estragos na arte - e por que a proteção de obras contra esse tipo de perigo é vital. Mas para alguns artistas como Tinguely e Benning, a própria destruição é onde a criação também pode ser encontrada. / Tradução de Claudia Bozzo 

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