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Historiador descreve a origem das redes sociais na antiguidade

'A Torre e a Praça', de Niall Ferguson, mostra que as associações entre indivíduos sempre enfrentaram as hierarquias rígidas

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2019 | 16h00

Embora seja um livro de história, A Torre e a Praça, de Niall Ferguson, publicado recentemente pelo selo Crítica, da editora Planeta, dialoga de maneira involuntária com os lançamentos O Mundo que Não Pensa, do jornalista Franklin Foer, e Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais, do cientista da computação Jaron Lanier, além de outros autores que vêm estudando o fenômeno das redes sociais e seus impactos para a política. O historiador inglês praticamente reconta a história da humanidade como um perene embate entre redes e hierarquias, desde a Antiguidade até as eleições que levaram Donald Trump à Casa Branca. 

Para ele, embora as redes sociais estejam em voga, a historiografia sempre subestimou as associações entre indivíduos, antigas redes sociais analógicas, e sua resistência às organizações rígidas como o Estado, a Igreja ou as empresas. “Cabalas, camarilhas, células, congregações, confrarias: todos esses termos têm conotações sinistras no contexto de uma corte monárquica. As hierarquias há muito tempo têm se mostrado preocupadas com a ideia de que a fraternização entre subordinados pode ser o prelúdio de um golpe de Estado.”

Por exemplo, Ferguson credita, em grande medida, o colapso da estrutura hierárquica do Império Romano a “ameaças nascidas em rede que ninguém planejou ou comandou, mas que se espalharam de modo viral”, como migração, religião e doenças contagiosas. Aliás, os grandes cultos monoteístas surgiram e se disseminaram por redes, segundo ele. 

A invenção da prensa por Gutemberg, de acordo com Ferguson, abriu novas possibilidades para a troca de informações e o fluxo de ideias, o que permitiu movimentos relevantes baseados na lógica de redes, como a Reforma Protestante, o Iluminismo e as revoluções científica, industrial, americana e francesa. Aliás, ele explica o motivo de os EUA terem fundado uma democracia duradoura e a França ter sido rapidamente retomada pela velha ordem monárquica por meio da análise das redes de contatos dos conspiradores.

Desde os Illuminati até os revoltosos da Primavera Árabe, que se organizavam pela internet, Ferguson mostra como as redes sempre ameaçaram as hierarquias rígidas, mas também como suas inovações acabaram sendo cooptadas por estas.

Fartamente ilustrado e documentado, A Torre e a Praça é um livro fundamental para se compreender melhor o desafio contemporâneo imposto pelas novas formas de associação entre indivíduos que a internet possibilita – e também para reconhecer que, se as redes sociais não são um fato novo na história humana, tampouco suas consequências são efêmeras. 

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