Maarje ter Horst
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Historiador holandês Rutger Bregman revê história humana por um prisma otimista

No livro ‘Humanidade: uma História Otimista do Homem’, o autor tenta entender a origem e a sedução do mal e faz contraponto a Yuval Harari

Elias Thomé Saliba*, Especial para o Estadão

12 de junho de 2021 | 15h00

No cenário da atual pandemia, o efeito placebo é bastante conhecido. Já o contrário, tomar um remédio apenas achando que vai ficar doente e realmente adoecer – o chamado efeito nocebo – nunca foi amplamente testado, em função da ética melindrosa de tentar convencer pessoas saudáveis de que estão doentes. Mas o efeito nocebo parece ser potente, pois ao acreditarmos numa coisa, ela pode tornar-se real: nós somos muitas vezes conduzidos por aquilo que acreditamos, expectativas viram realidades e até aquilo que está previsto em bulas como efeito colateral acaba acontecendo. A visão que temos da história da humanidade também é um nocebo. Este é o ponto de partida das surpreendentes reflexões do historiador holandês Rutger Bregman, em Humanidade: Uma História Otimista do Homem. Longe dos manuais de autoajuda ou de um sermão sobre a bondade fundamental do homem, apoiado em pesquisa sólida e dono de uma escrita fluente, Bregman nos apresenta um caleidoscópio de história humana, dos primeiros hominídeos até ao universo digital, que é um provocador contraponto às conhecidas sínteses de Yuval Harari. 

Nossa visão da história está assentada num modelo equivocado da natureza humana, designado como teoria do verniz: a ideia de que a civilização não passa de uma fina camada de lustro que pode se descascar frente a qualquer provocação. Bregman começa por reunir dados do imenso quebra-cabeças arqueológico do surgimento da espécie humana. Examina, por exemplo, o famoso dilema do porquê os neandertais - com sua musculatura, seu grande cérebro e capazes de sobreviver a duas eras glaciais - foram varridos da face da terra. Yuval Harari e Jared Diamond admitem a hipótese de quando os Sapiens encontraram os Neandertais acabaram perpetrando a primeira e a maior campanha de limpeza étnica da história. Bregman puxa os fios de outras hipóteses e retoma pesquisas pouco conhecidas – e censuradas - do zoólogo e geneticista russo, Dmitri Belyaev. Ele teve que realizar suas pesquisas praticamente escondido na Sibéria, em 1958, já que o regime soviético proibia qualquer tipo de pesquisa genética pois, na época, acusava a teoria evolucionista de “mentira propagada por capitalistas”. 

Como se transforma um feroz predador num amistoso bicho de estimação? Esta foi a hipótese de fachada de Belyaev, já que por trás dela estava a suposição (depois comprovada) de que os animais domesticados haviam passado por uma evolução simplesmente por causa de sua amistosidade. Uma reviravolta, já até que então o pressuposto de que a domesticação reduzia o poder cerebral já havia virado clichê: “esperto como uma raposa, burro como um jumento”. Tempos depois, já com o experimento na quarta geração, o geneticista viu raposas selvagens começarem a abanar o rabo, manter orelhas caídas e mostrar carinhas de bebê – e, afinal, em 1978, com a censura soviética um pouco menos atenta, ele comprovou a hipótese de que as raposas mais amistosas produziam menos hormônios de estresse e mais serotonina e oxitocina. Não foi difícil transferir seu experimento para os seres humanos. Usando a antiga estratégia esopiana (transforme suas ideias em animais que elas se tornam atraentes) nascia outra categoria de Homo, ironicamente batizado por Bregman como Homo Cachorrinho. E o leitor pode acompanhar as divertidas narrativas do historiador quase como se fossem “as difíceis peripécias do Homo Cachorrinho no decorrer da história.” 

Impressiona a quantidade de fontes de pesquisa que Bregman utiliza para desmontar as teses da teoria do verniz. Até mesmo a ficção clássica do antagonismo como inerente ao ser humano, O Senhor das Moscas, de William Golding, (ao qual muitos consideram o paradigma literário dos atuais reality shows) é desmontada como completamente inverossímil. Como historiador, Bregman não hesita em fazer trabalho de etnógrafo, desencravando a história, que realmente aconteceu, de seis garotos náufragos, isolados durante quase um ano, na ilha de Ata, no arquipélago do Pacífico em 1966. Os garotos, que eram todos de uma mesma escola, sobreviveram com base na amizade, cooperação e solidariedade. Tentaram até fazer um documentário fílmico desta história mas, não vingou: não havia nela nenhum resquício de antagonismo e, os investidores perceberam que na ausência de conflito o roteiro não teria público. 

Nos anos em que Senhor das Moscas estava no topo da lista dos livros mais vendidos, jovens pesquisadores como Philip Zimbardo ou Stanley Milgram, em experimentos famosos na década de 1960 (as conhecidas “máquinas de choque”), mostraram como as pessoas seguem as ordens mais execráveis até mesmo quando comandados por figuras de autoridade dúbia e que bons garotos podem se transformar em tiranos num piscar de olhos. Foram os anos do oeste selvagem da psicologia social, quando todos queriam bisbilhotar, sondar e cutucar o homo cachorrinho: bastava alterar a situação e reencenar um ambiente propício e – voilà! – apareceria o nazista velado em cada um de nós. Bregman realiza meticulosas análises dos bastidores das centenas de sessões com a máquina de choque de Milgram, revelando omissões importantes, como aquela que, quanto mais prepotente se mostrava o homem de avental cinza, que emitia as ordens, mais desobedientes os participantes se tornavam: porque o Homo cachorrinho mostra uma tendência a não seguir irracionalmente ordens de autoridades. “Temos uma emperdenida aversão a comportamentos mandões, sejam de homens ou de mulheres”, escreveBregman. 

O capítulo da história mais difícil para a sobrevivência do homo cachorrinho foi entre 1914 e 1945, que Hobsbawm tão bem designou como a “era das catástrofes”. Alinhavando novas e diligentes pesquisas, Bregman mostra que as ordens transmitidas dentro da máquina burocrática do 3º.Reich tendiam a ser vagas, por isso os adeptos do nazismo tinham que contar com a própria criatividade – o que inspirou uma cultura competitiva, na qual nazistas cada vez mais radicais imaginavam medidas ainda mais radicais para cair nas boas graças de Hitler. Noutros termos, o Holocausto não foi trabalho de humanos que simplesmente se transformaram em robôs, assim como os voluntários de Milgram não apertavam botões para dar choque nos outros, sem parar para pensar. Auschwitz foi o ápice de um processo histórico longo e complexo em que a voltagem foi aumentando passo a passo e o mal se passou por bem. A máquina de propaganda nazista (incluindo poetas, escritores, filósofos e políticos) teve anos de trabalho para entorpecer e envenenar a mente do povo alemão. O inconcebível só aconteceu porque o Homo Cachorrinho foi enganado, doutrinado e manipulado num processo de lavagem cerebral. 

Como hoje já se sabe, a declaração de Eichmann de que tudo o que ele “fez foi para cumprir ordens de Hitler ou de seus superiores” não passou de uma mentira descarada. “Eu não tenho remorso. Vou para a cova dando risada, pois meu sentimento por ter 5 milhões de seres humanos na consciência é para mim uma extraordinária fonte de satisfação”, declarou Eichmann. Anos depois do julgamento, Bettina Stangneth leu as 1700 páginas de transcrição das entrevistas de Eichmann e comprovou que ele nunca agiu por indiferença, mas por convicção. O famoso rótulo da “banalidade do mal”, formulado no final do relato de Hannah Arendt – e que ela mesma reconheceu o quanto foi mal compreendida - esteve muito longe da realidade. Roger Berkowitz, especialista em Arendt, destaca que a filósofa nunca disse que Eichmann foi um assassino de gabinete robótico, mas sim, que ele era incapaz de pensar a partir da perspectiva de outra pessoa. Assim, como os sujeitos da experiência de Milgram, Eichmann perpetrou o mal por acreditar que realmente estava fazendo o bem. O que também já foi, em parte, reiterado no excelente testemunho de Zevi Ghivelder, que assistiu como repórter ao mesmo julgamento. (Aliás, de 14/04/2021)

Se pessoas boas forem forçadas, empurradas e cutucadas, seduzidas e manipuladas, muitas serão de fato capazes de fazer o mal. O caminho do inferno é pavimentado de boas intenções. O mal, porém, não vive logo abaixo da superfície, é preciso um esforço imenso para aflorá-lo. Cobrindo desde a história da Ilha de Páscoa até a fascinante narrativa dos encontros e desencontros dos irmãos Constand e Abraham Viljoem, que viabilizaram a posse de Nelson Mandela em 1994, Bregman vira de cabeça para baixo muito daquela visão comumente aceita da natureza da história humana. Seu livro funciona como um saudável refrigério contra os excessos anti-humanistas de tantos autores da atualidade. Ele publicou seu livro antes da pandemia e parece um tanto condescendente, sobretudo em face do estado de exceção no qual vivemos; mas demonstra que muitas das nossas instituições, empresas, escolas – incrementadas pelos demagogos e semeadores do ódio nas redes sociais – continuam se organizando em torno do mito de que competirmos uns com os outros faz parte da nossa natureza. A selvageria e a barbárie nas redes sociais transmutaram-se em autenticas caixas de ressonância: “tudo o que é negativo sobressai ao positivo, sendo compartilhado muito mais rapidamente”, escreve o historiador. Daí o cenário das inúmeras pragas hoje facilmente reconhecidas em nossas sociedades: erosão dos partidos políticos; cidadãos que não confiam uns nos outros; minorias excluídas; eleitores desinteressados; políticos corrompidos e esfera pública destruída por impossibilidade de quaisquer consensos mínimos. O efeito nocebo está de volta e, ainda outra vez, faz a roda da história girar. O que faz lembrar daquela ancestral parlenda persa, na qual o avô diz à criança: “Dentro de você há uma luta terrível entre dois lobos: um maligno, raivoso, ganancioso e covarde; outro bondoso, pacífico, honesto e confiável”. “Qual dos dois vai vencer, vovô?” pergunta o garoto. O velho sorri e diz: “O lobo que você alimentar”. 

*Elias Thomé Saliba é historiador, professor titular da USP e autor, entre outros, de 'Raízes do Riso' (Cia. das Letras)

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